quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Horas Meridianas - livro


Do autor, o poeta oeirense Carlos dos Santos Bueno, recebemos via email:


Horas Meridianas

Carlos dos Santos Bueno [ autor ]

21 Novembro 2009, 18h00

Pub Beer Hunter, Oeiras


clique para ampliar


Pub Beer Hunter

Rua de Santo António, 6

2780-164 Oeiras

( junto à estação da CP de Oeiras )

21 442 91 68

GPS: N 38° 41.310, W 9° 19.30


domingo, 15 de Novembro de 2009

Outra vez o Isaltino


O nosso amigo e distinto poeta oeirense Carlos Santos Bueno, de quem já falámos e publicámos poesia aqui e aqui, enviou-nos via email com pedido de publicação um delicioso poema que partilhamos convosco:


Outra vez o Isaltino


Príncipe dos ladrões, autarca,

Indomável, que nem os grilhões,

Da Santa Sé e da Comarca,

Deixam indiferente às opiniões.


És comum entre os de marca,

És do povo e dos Napoleões,

O português mais anarca,

Que conheci entre os ladrões.


Outros menos espalhafatosos,

Que roubaram não um ou dois milhões,

Mas muito mais aos idosos,


Da Caixa Nacional de Pensões,

Pedem-te a cabeça ociosos,

Ò Isaltino, Príncipe dos Ladrões!


9/10/2009


Carlos Santos Bueno


sábado, 8 de Agosto de 2009

Aviso - actualização

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Caros Amigos:

Com a esperança que esta seja a última vez que abordo este assunto, actualizo a notícia que em 31 de Julho dei
aqui, - na qual eu referia que por motivos de avaria técnica (computador) o meu trabalho na blogosfera estava comprometido -, informo que felizmente a situação está para já resolvida e espero voltar ao 'activo' com a energia e regularidade habituais.


Por ter perdido com estes percalços algum material já preparado e em preparação para publicação, além da necessária e demorada tarefa de 'arrumar a casa', estes primeiros dias irão ser ainda um pouco atribulados, mas espero em breve entrar no ritmo habitual, talvez com algumas novidades que entretanto me assomaram à ideia.


Com os desejos de que tudo volte rapidamente a rolar sobre esferas, e o anseio de depressa voltar ao vosso agradável convívio, até já!

José António Baptista

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sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Aviso

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Caros Amigos:

Actualizando a notícia que em 23 de Julho fiz, apenas aqui no blog Espaço e Memória, na qual eu mencionava que por motivos técnicos, concretamente avaria de equipamento, previsivelmente breve, o meu trabalho na blogosfera, e não só nesta, estava comprometido e a sofrer alguns percalços, informo que infelizmente a situação se mantêm apontando neste momento as previsões possíveis para pelo menos mais uma semana, pelo que tão cedo não me será possível voltar ao vosso contacto.

Nota: Estou a publicar a partir duma outra máquina, que obviamente, não contém o material que necessito pelo que o que me é possível fazer é necessariamente muito limitado.

Com os desejos de que esta suspensão se resolva rapidamente, e o anseio de depressa voltar ao vosso agradável convívio, até já!

José António Baptista

terça-feira, 21 de Julho de 2009

A pastora e o lobo mau

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Uma fábula para adormecer criancinhas e manter os adultos acordados...


A PASTORA E O LOBO MAU

A chuva torrenciava descomunal no lombo do rebanho que estremecia e balia agrupando-se numa mole compacta de lã molhada e perninhas hesitantes e trémulas.
Abrigada sob uma azinheira, encostada ao tronco húmido e túrgido, modestamente vestida, a pastora fumava um chamom enquanto pensava na sua pobre vida.
Deixou o seu pensamento vogar ao sabor do vento no oceano das memórias mais remotas. Assomaram-lhe ao espírito os dias da juventude, de mocinha, em que pastoreava naqueles mesmos montes, e era hábito o lobo mau aparecer para a comer.
E o prazer que ela tinha em ser comida por ele!
Recordou, melhor, sentiu o calor subir-lhe do baixo ventre como naquela primeira vez que se repetiria por muitas outras. Quase todos os dias, que aquele lobo mau tinha uma fome insaciável!
Mas um dia isso acabou. O lobo mau desapareceu e ela nunca mais o viu.
Um dia chegou-lhe aos ouvidos que dois pastores tinham encurralado um lobo mau na serra, que o tinham matado à paulada e esfolado para aproveitarem o pêlo para as golas das samarras.
Nessa noite fria, na solidão do seu pequeno e acanhado quarto e na tepidez áspera do seu catre, o seu coração apertou-se, angustiou-se com a lâmina que nele se cravara com a notícia e ela chorou convulsivamente toda a noite. Até o sol raiar e ser chegada a hora de levar uma vez mais o rebanho ao pasto.

Perdera o seu lobo mau que tanto prazer lhe dera. Que tanto a fizera gozar.
Mas nem tudo se perdera para ela. Ficara-lhe como recordação desses belos tempos o lobinho que dentro do seu ventre crescera, e que ela pusera no mundo, ali em cima escondida atrás duma fraga. Sozinha e sem ajuda, não podia dizer a ninguém. Pessoa alguma a questionara, pois a barriga crescera pouco, visto o lobinho ser muito pequenino, pouco maior que uma romã. A roupa larga disfarçara bem. Não notaram que andara de esperanças. Nem o sinistro padreco da aldeia, manco duma perna, que sabia a vida de toda a gente, com seus olhos de coruja e faro de raposa, desconfiara. E assim parira.
No alto da serra, atrás dum penedo, bem camuflada com urzes, fizera uma toca bem acolhedora e quentinha onde deitara o lobinho em cima da camisola que despira para o efeito, dissera em casa que a tirara com o calor e a perdera, e de noite, todas as noites, saía de casa na aldeia lá em baixo, sem ninguém dar por ela, depois de adormecerem, e subia até à toca para levar leite e alimentar o seu lobinho que, claro, com tanto amor e desvelo cresceu e se fez um belo e possante lobo negro que, por sinal, não parecia tão mau como o pai.
Mas também ele um dia partira para parte incerta.
Uma noite ela subira até à toca para lhe ir levar um belo naco de carne e ele não estava.
A toca estava vazia. Gelada.
Chamara-o num lamento pungente, lancinante, mas ele não respondera ao apelo materno e nunca mais o viu ou soube dele. Perguntar a alguém se o tinha visto estava fora de questão. Nunca poderia revelar o seu segredo. Antes viver eternamente na dor da separação e perda.
O certo é que, acreditava, tinha sinais dele. Sempre que em noites de lua prenha ela ouvia um uivar longínquo como um lamento solitário no alto da serra, sentia um aperto no coração pois reconhecia naquele grito lancinante a voz da sua descendência, da sua cria agora adulta. Era como se ele lhe gritasse de longe "não chores, mãe, eu estou aqui e estou bem!"

O tempo passou no seu constante ramerrão.
A pastora continuou na sua vida de sempre, a pastorear na mesma serra, pelo meio das mesmas fragas e penedos, nos mesmos pastos, andando pelas mesmas veredas.
Um dia, quando na volta conduzia o rebanho a caminho do redil, a meio da encosta cruzou-se no caminho com outra pastora de outra aldeia, sua amiga e conhecida de longa data, que também conduzia um rebanho, e pararam a conversar um pouco as duas, rodeadas pelos animais entretidos a tasquinhar algumas ervas das bermas.
Perguntou à outra como lhe tinha corrido o pastoreio e achou curiosa a resposta "melhor que nunca!" e não deixou de notar a expressão cintilante no olhar da outra quando o disse.
Insistiu com ela para que lhe contasse pormenores, se as ovelhas e as cabras tinham comido bem, se o pasto era abundante, se tinha visto alguém, se ela também se sentia sozinha lá no alto, o que é que fazia para passar o tempo, e por aí afora. Conversa de pastoras.
Tudo o que a outra lhe respondeu correspondia a um dia normalíssimo de pastoreio, por isso achava excessiva a tal resposta "melhor que nunca!".
Tanto insistiu, tanto insistiu com a outra, afinal eram tão íntimas pois tinham partilhado a mesma carteira na escola, e feito a comunhão no mesmo dia e na mesma capela, que ela finalmente cedeu às suas insistências e aos votos e juras de que a sua boca nunca se abriria.
O seu rosto rasgou-se num enorme sorriso e uma quente e funda alegria inundou-lhe o coração quando a ouviu exclamar:

— HOJE, FUI COMIDA PELO LOBO MAU!

Oeiras 21 Julho 2009
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sábado, 18 de Julho de 2009

Feira do Livro - Cascais

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Está já a decorrer:

XXIII Feira do Livro de Cascais
17 Julho a 2 Agosto
Jardim Visconde da Luz

Sem dúvida um excelente motivo para um passeio até Cascais e, quem sabe, para descobrir aquele livro que há tanto se procura.

clique para ampliar
recebido do Gabinete de Comunicação e Relações Públicas da Câmara Municipal de Cascais, via email.
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segunda-feira, 18 de Maio de 2009

ROUBO !!

.Chegou-nos um email de alerta do Luís Gaspar onde este relata o grave ROUBO de que o Estúdio Raposa foi alvo, porque é de um roubo que se trata, roubo este que afecta directamente aquele audioblog mas também os autores nele lidos.
Em síntese, alguém sem escrúpulos terá roubado todos os programas do audioblog e com eles fez ringtones que estão a ser comercializados pela Vodafone, TMN e Optimus, sem que para tal tivesse havido qualquer autorização expressa ou contrato, quer do autor do audioblog, quer dos autores lidos, que assim se vêem também atingidos.

Dada a gravidade da situação, nós - que já colaborámos com o Estúdio Raposa com 2 textos de nossa autoria e por isso nos sentimos igualmente atingidos - nos solidarizamos com o Luís Gaspar e o Estúdio Raposa, aderindo ao apelo lançado pela Menina Marota:

"Um por todos, TODOS por UM"

Apelo para já também seguido pelos Poesia Portuguesa e Azoriana.
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terça-feira, 28 de Abril de 2009

79.ª Feira do Livro de Lisboa

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30 de Abril a 17 de Maio
Parque Eduardo VII

Saber mais - aqui
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quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

. Instituído pela UNESCO em 1996, comemora-se hoje o

Dia Mundial do Livro
e dos Direitos de Autor


Para mais informação clique neste link:
World Book and Copyright Day (em Inglês)

cartaz daqui
fotografia © josé antónio • comunicação visual - reprodução proibida
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domingo, 15 de Março de 2009

revelação

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REVELAÇÃO

Era uma noite negra como breu. A lua estava nova como uma virgem intocada e o denso manto de nuvens ocultava as pálidas estrelas.
Apenas uma ténue, muito ténue, claridade permitia distinguir a longa língua negra sobre a qual caminhava, das bermas densas mais e menos escuras aqui e ali que a bordejavam.
Saíra do seu canto há já um bom par de horas em busca do sinal revelador que há anos procurava. Estava prenhe de fé. Duma fé absolutamente inabalável. Sentia que a revelação estava para breve. Para muito breve.
O cansaço fazia já efeito nas suas pernas, através duma dor aguda que descia por elas abaixo. Mas tentava não pensar nisso e continuava na sua caminhada.
Súbito, numa volta do caminho, viu o sinal. Finalmente! A tão ansiada revelação atingiu o íntimo do seu ser. Inundou-o como um oceano quente e doce.
O sinal, uma aura luminosa, cresceu desmesuradamente à frente dos seus esperançosos olhos e ele, acelerando o passo na sua direcção, gritou:

— EU VEJO A LUZ! EU VEJO A LUZ!

Não teve foi tempo para o relatar a ninguém.
O pesado camião TIR atingiu-o em cheio e continuou viagem, sem se deter.


Oeiras 14 Março 2009
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mau estar

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MAU ESTAR

O mau estar que se instalara na sala persistia e teimava em não desaparecer.
Nem a generosa porção de presunto serrano, delicadamente adormecida numa travessa de cristal da Baviera com pegas e minúsculos pés de prata, acompanhada dum excelente e genuíno queijo da Serra, docemente esparramado numa tábua de nogueira, dum saboroso, requintado, pão saloio e duma esplêndida garrafa de tinto da Vidigueira, colheita de 2001, quebravam o gelo e aliviavam a tensão opressiva acaçapada sobre todos.
A pesada e densa nuvem esmagava os presentes. Colara-se aos seus corpos como geleia.
Ninguém se denunciou nem acusou ou sequer se desculpou. E o cheiro fétido, grotesco, intestinal, permaneceu no ar por muito tempo.


Oeiras 10 Março 2009
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domingo, 8 de Março de 2009

ensaio para uma micronarrativa

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Caras(os), no meu deambular pela escrita decidi explorar uma outra vertente da prosa, em busca de novos caminhos. Concretamente a Micronarrativa. Espero que vos agrade.

O que são micronarrativas?
As micronarrativas, em nosso entender, para além de serem breves (não excedendo as 200 palavras), devem ser narrativas, ou seja, contar uma história, quer seja em prosa ou em verso.
in Minguante


DISSOLVÊNCIA NO TEMPO

A névoa nevoenta, leitosa e pegajosa, que tudo cobria como um bicho peçonhento, começava a dissipar-se e a permitir o revelar das formas do mundo tido como real.
Mas havia um algo indefinido fora do lugar. Fora de si?
Não era um algo palpável. Era antes uma espécie de poeira feita de indiferença como se a realidade, apesar de descoberta pela névoa fugidia, se quisesse manter afastada de olhares indiscretos.
Fosse qual fosse a natureza obscura do fenómeno, este provocava-lhe a estranha sensação de ter deixado de pertencer àquele universo.
Via os prédios através do véu cristalino das vidraças recém limpas.
Via as pessoas e os carros através da cortina irreal que lhe tolhia a visão.
Via os objectos quietos num lugar que não lhes pertencia. Ou deixara de pertencer?
Aquela sensação começava a tornar-se atroz à medida que saía do torpor que a disfunção espácio-temporal lhe provocava.
A clareza com que aparentemente via, com o dissipar da névoa, era um embuste. Sentia-o cada vez mais intensamente.
Não conseguia despregar o olhar dos telhados que via para além da rua.
O seu aspecto etéreo hipnotizava-o.
Assustou-se e estremeceu com o ladrar de um cão longínquo.

Oeiras 17 Fevereiro 2009
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segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Fernando Pessoa no Second Life

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Recebemos do Luís Gaspar - Estúdio Raposa - via e-mail, uma notícia/convite que achamos merecer divulgação e que recomendamos a todos aqueles que se interessam por literatura, novas tecnologias e internet.


Numa iniciativa da Associação Comunidade Cultural Virtual, Fernando Pessoa foi recriado na plataforma de comunicação do Second Life.
Integrado na exposição "Um Olhar sobre a Mensagem de Fernando Pessoa, patente simultaneamente na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana e em Second Life® em parceria com a Câmara de Cascais.
Com realização de Hugo Almeida, considerado internacionalmente um dos melhores realizadores da técnica cinematográfica de machinima do mundo e locução de Luís Gaspar (Estúdio Raposa) foi produzido um vídeo demonstrativo desta nossa vida do poeta.

Portugal volta a estar de parabéns e a dar cartas nas novas tecnologias.
A nossa cultura volta a ter uma nova vida.

Link para o vídeo:


ou copie e cole no browser: http://blip.tv/file/1690764

Rui Lourenço

Pelo CCV

www.accvirtual.org

Divulguem!
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terça-feira, 14 de Outubro de 2008

pharmacia

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PHARMACIA

No adormecer do dia, naquele momento em que as sombras se alongam pressurosas, as enormes, estranhas e sobre-dimensionadas, letras verdes moviam-se garrafais incongruentes, através do letreiro luminoso gritando 'PHARMACIA'.
Se dúvidas houvesse, nem era preciso chegar perto e cheirar o ar para saber que ali naquela porta, transpondo-a, abaixo do reclame, existia um estabelecimento de comércio de drogas e similares.

Apressada, aos tropeções em cima dos saltos finos e exagerados que desestabilizavam o andar na velha calçada irregular, arfando e bufando como um animal, esfolando as biqueiras que em tempos tinham sido vermelho-rubro, com a mala de plástico dourada e alça preta a condizer, comprada na feira de São Domingos de Rana, dirigiu-se para a porta que se abriu automática com um suave zunido.
Da maquineta à entrada, após pressionar o botão, extraiu a senha que indicava a sua vez: B - 000 - 742.835 ± 1.

Só então, após um fortemente expirado suspiro, relaxou, avançou e observou o interior intensamente iluminado do moderno estabelecimento.
Estavam apenas três pessoas, naturalmente clientes para atendimento.

Próximo ao balcão, um jovem louro com ar de surfista, de t-shirt amarela e calças bege, olhava curioso o expositor de cremes para o acne, coisa que ele não tinha. Parecia enervado pois batia ritmicamente com a ponta do chanato no chão como se acompanhasse uma música que só ele ouvia.

Viu também, sentada numa cadeira estofada com pele de canguru alentejano, uma velhota alquebrada, vestida de escuro e completamente careca, apoiada numa bengala com castão de terracota, que rolava entre os dedos duma mão um preservativo colorido como se brincasse com um berlinde.

Viu ainda um senhor de meia idade, bem vestido, de blazer verde alface, quadriculado, camisa azul com bolas roxas, gravata e calções riscados, chinelas havaianas, ao balcão a ser atendido. Ao que lhe parecia pelo que podia divisar do ponto onde se encontrava, este senhor tinha levado uma receita de dois pratos de "Dobrada com Feijão Branco", que o técnico ajudante lhe colocara à frente, fumegantes, e se preparava para acondicionar num pequeno saco com o logotipo da farmácia.

Além dos três clientes estavam ainda os vinte e quatro farmacêuticos, técnicos e ajudantes de farmácia, de ambos os sexos, nas suas impecáveis batas brancas, distribuídos ao longo do balcão, impávidos e serenos, como múmias egípcias.

Aguardou com um misto de horror e nervosismo que os números de chamada mudassem. O acaso é determinante da vida. Nisto de displays nem tudo o que parece é... nem tudo o que brilha é algarismo... Nem tudo o que luz reflecte a essência cósmica do ser...

Passadas cerca de duas horas o senhor de meia idade acabou de ser atendido e pegando no saquinho com as duas Dobradas, deu as boas noites e saiu.
As outras duas pessoas, o jovem surfista de amarelo e a velhota do preservativo foram de seguida atendidos. Pelo mesmo farmacêutico e à vez. Os outros farmacêuticos, parecia, estavam ali só para vista. Eram uma espécie de guarda de honra hierática.

O jovem surfista limitou-se a pedir duas molas de roupa para pendurar os calções de banho, e o atendimento foi rápido, pouco mais de uma hora. Foi o tempo de ir ao quintal nas traseiras cortar um pinheiro, tirar o pedaço de madeira necessário, talhar as peças, colocar-lhes as molinhas metálicas e pronto.
O rapaz pegou no saco após pagar e desapareceu rapidamente.

A idosa é que demorou um pouco mais, pois não tinha com ela os óculos de mergulho nem as barbatanas, e o microscópio electrónico estava avariado, pelo que foi preciso chamar os engenheiros químicos, que demoraram uma boa meia hora a enviar um carro patrulha, para levarem a velha senhora à praia onde ela poderia ir apanhar berbigões e amêijoas na maré baixa.

Ela continuou à espera da sua vez.
Finalmente os algarismos, romanos, no painel luminoso mostraram o número da sua senha. Não mostraram os zeros, pois os romanos não o tinham. Mas subentendiam-se sob o nevoeiro denso, esverdeado e húmido. Era a sua vez.
Dirigiu-se ao balcão e apresentou a senha e a receita, ao mesmo tempo que cumprimentava o farmacêutico:

— BOA TARDE, SEU SACRISTA BARDAMECA!

O técnico farmacêutico olhou-a, esticando-se sobre o balcão para, atrevido, lhe espreitar as pujantes e grandes mamas, e correspondeu com um sorriso lascivo ao cumprimento:

— BOAS TARDES, DONA FLAUSINA! EM QUE POSSO AJUDÁ-LA? VIVA O XÔ ZÉ!

— VIVA MAS É OS TOMATES...! AVIE-ME LÁ ESTA GAITA!

— DESCULPE, MAS GAITAS JÁ NÃO TEMOS, ESGOTARAM. DEIXE ENTÃO VER O QUE TEMOS AQUI.

O farmacêutico agarrou os dois papéis que ela lhe estendia, colocou a receita sobre o balcão e mostrou a senha ao colega do lado para confirmar se o número estava mesmo certo com o do painel, no topo da ondeante colina.

— ESTÁ. — Disse o outro, que era licenciado em Filologia Românica e Mestre em Gestão de Campos de Golfe.

Pegou novamente na receita, leu-a atento franzindo a testa, olhou a cliente e cravou-lhe o olhar intensamente nos olhos, o que a fez tremer da cabeça aos pés como varas verdes, olhou de novo a receita e dirigiu-se ao interior da farmácia, no que foi acompanhado por todos os seus colegas, que o seguiram em fila indiana balouçando para a esquerda e para a direita como pinguins da Adélia, acompanhando a suave ondulação do mar.

Voltaram passada uma hora. O técnico dirigiu-se a ela:

— PARECE QUE TEMOS AQUI UM PROBLEMAZINHO... — Resmungou entre dentes.

— ORA ESSA! PROBLEMA PORQUÊ?! — Questionou ela, estremecendo, assustada e preocupada.

— PROBLEMA PORQUE O SEU CARTÃO DE CLIENTE DO EL CORTE INGLÉS ESTÁ NO SISTEMA INFORMÁTICO REFERENCIADO COMO PERTENCENDO A UMA TERRORISTA DO GANG AFONSINO — Esclareceu ele com toda a calma, sem pestanejar.

Ela olhou-o incrédula sem saber o que dizer e balbuciou uma desculpa:

— TE TE TE TERR TERRORI TERRORISTA! EU?! AI MEU DEUS! VOCÊS MATAM-ME DO CORAÇÃO! — Disse aterrada.

— SIM, SENHORA. E A BRIGADA JÁ VEM A CAMINHO PARA A MATAR! — Esclareceu, com voz grave e sinistra, o farmacêutico.

— FÓNIX!! VOCÊS SÃO MESMO BERAS! TUDO ISTO SÓ POR CAUSA DUMA RECEITAZINHA DE MEIA DOSE DE MÃO DE VACA COM GRÃO! — Gritou ao técnico farmacêutico, já histérica e a tremer, de cabeça completamente perdida.

— SÃO ORDENS SUPERIORES, MADAME, E SERVIÇO É SERVIÇO E CONHAQUE É CONHAQUE! — Respondeu-lhe o técnico farmacêutico, começando a desabotoar a bata.

— O QUE É QUE O SENHOR ESTÁ A FAZER? — Perguntou ela, ao vê-lo começar a desapertar o cinto das calças e a braguilha.

— NADA DE MAIS, DONA, APENAS ESTOU A DESNUDAR-ME E ACONSELHO-A A FAZER O MESMO, PARA APRECIARMOS O QUE AÍ VEM, EM TODA A SUA NUDEZ! CRUA, PURA E DURA! —Disse ele, um pouco irritado.

— DISPO-ME MAS É O CARAÇAS! O TANAS! PENSAS QUE SOU A TUA MÃE?! — Gritou-lhe ela, histérica.

Os outros farmacêuticos e farmacêuticas tinham seguido o exemplo do colega e tinham-se também desnudado. As batas, impecavelmente brancas, e as roupas, espalhavam-se pelo chão atrás do balcão. Alguns e algumas estavam já completamente nus.
Ela seguiu a sugestão. Se não os podes vencer, junta-te a eles... e, após um encolher de ombros, desnudou-se em toda a sua paupérrima beleza esquelética suburbana.

De súbito ouviram-se sirenes uivarem sinistras na noite negra. A noite dos cães. Os vidros das montras estremeceram.
Um chiar de pneus no exterior anunciou a chegada das autoridades.
No interior, todos os presentes ficaram imobilizados, na expectativa.

Uma boa meia dúzia de polícias fortemente armados com shotguns, acompanhados de caniches brancos de pêlo bem aparado, entraram de rompante no estabelecimento, vociferando ordens, e desordens, em todas as direcções.
Rapidamente imobilizaram toda a gente, encostando todos contra as prateleiras, armários e paredes, de braços levantados e pernas afastadas.

O que parecia comandar a força de intervenção, pois trazia uma pena de pavão na mão e outra de peru no cu, saltou para cima do balcão, num pulo atlético, e gritou:

— SILÊNCIO!

Todos emudeceram no silêncio em que já se encontravam, pois estavam de tal modo aterrorizados que não eram capazes de dizer uma palavra que fosse.
O presumido chefe mandou avançar a suspeita de terrorismo:

— CHEGA À FRENTE, TU AÍ, CADELA! —Gritou com caucasiana arrogância trovejante.

Ela acercou-se do balcão tremendo. O ambiente era pesado, denso, de cortar à faca.

— COMO TE CHAMAS? — Vociferou, do alto do balcão, peanha improvisada.

— MA MA MARIA ALICE — Respondeu a medo.

— MARIA ALICE QUÊ?! — Vociferou, mostrando os caninos afiados.

— GODOFREDO. MARIA ALICE GODOFREDO — Respondeu, prestimosa e temente.

— AH! GODOFREDO. A QUE TEM UM CU QUE METE MEDO! — Estrondeou a voz do chefe com um grande sorriso nas beiçolas lúbricas.

Neste entretanto e de súbito as luzes apagaram-se e fez-se escuridão absoluta. Todos fizeram silêncio.
Alguém gemeu baixinho.
Na escuridão, percebia-se a respiração rápida e ofegante dos presentes.
Ouviu-se o som de muitos passos apressados que pareciam ir na direcção da porta.
A escuridão tornava-se opressiva. Doía.

Uns três ou quatro minutos depois a luz voltou. As lâmpadas tremeluziram tímidas e acenderam-se. A farmácia estaria vazia, completamente vazia, não fosse a presença dela, sozinha de pé no meio do estabelecimento.

Lentamente olhou em torno de si. Nas mãos apertava contra o peito nu a mala dourada que entretanto, no escuro, conseguira apanhar do chão.
Apesar de se sentir paralisada pelo medo, ganhou forças para andar e dirigiu-se ao fundo do estabelecimento.
Cautelosamente espreitou para a dependência das traseiras. Também ela estava vazia, não estava lá ninguém.

Fez meia volta e dirigiu-se para trás do balcão, onde constatou que aí não existia vivalma. Apenas viu as roupas espalhadas pelo chão.
No resto do estabelecimento, onde ela tinha estado, viam-se espalhadas as roupas, couraças, escudos, cintos, botas e armas dos agentes.

Pé ante pé foi até à porta de entrada, a qual se abriu automaticamente assim que dela se acercou.
Espreitou para o exterior. Continuava noite, mas os candeeiros públicos davam luz suficiente para perceber que não havia pessoa alguma na rua.

Também não havia qualquer sinal das viaturas da polícia, ou outras viaturas quaisquer.
Parecia que toda a gente se tinha eclipsado.
Viu apenas um gato famélico cinzento a correr através da rua em direcção a um contentor de lixo. Certamente fugira do Gatil do Jardim Municipal.

Rapidamente voltou para o interior pois a noite estava fresca, húmida, e ela não tinha nada vestido.
Procurou as suas roupas e vestiu-se apressada. Tal foi a precipitação que vestiu as cuecas do avesso, mas não se incomodou. Queria era sair dali rapidamente.

Sem olhar para trás, saiu da farmácia e dirigiu-se à paragem da camioneta, onde se sentou no banco. Ainda ia ter que esperar um bom bocado. Eram duas da madrugada e a camioneta só viria às sete e meia.

Afinal, não teve que esperar tanto. Pouco depois aparecia a camioneta.
Estranhamente esta era branca, quase não tinha janelas e o motorista usava uma bata branca.
Calmamente, entrou e sentou-se num lugar vago, junto de outros passageiros.
Pouco antes de entrar na camioneta ainda teve tempo para olhar de soslaio na direcção do estabelecimento. As letras verdes, garrafais, continuavam a correr o painel luminoso, dizendo o mesmo de sempre:

— PHARMACIA...

A notícia saiu nos principais jornais diários e televisões no dia seguinte.
Um grande grupo de doidos varridos tinha conseguido evadir-se dum manicómio, os doentes andaram nus pelas ruas, assaltaram uma farmácia, roubaram um carro da polícia, alguns tinham-se mascarado de polícias, e um deles tinha mesmo conseguido fazer-se eleger Presidente da Câmara. Com os votos dos outros malucos todos, é claro!

Oeiras 14 Outubro 2008
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as 'férias' já eram...

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Caros,

Em primeiro, esperamos que as Vossas férias tenham decorrido da melhor forma e tenham sido agradáveis, que tenham mesmo excedido as vossas maiores e melhores expectativas.

Como diz o bom povo português: "Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe".
Haverá melhor forma de exemplificar esta máxima, que um período que abusivamente designámos de 'férias', e que foi tudo menos tal?!
Sim, pois que férias a sério é fazermos tudo o que não fazemos ao longo do ano, como seja descansar, divertir, ir conhecer outras paragens, viajar, fazer amigos, encontrar novos amores, fazer praia, fazer jantaradas com amigos, assistir a espectáculos, visitar museus, etc.
Confessamos que este período de pausa, não tão curto quanto pretendíamos, apenas o foi (pausa) aqui no INSTANTES, pois os dias decorreram como habitualmente, com muito trabalho, muitas actividades correntes e usuais que já vínhamos a desenvolver, pouco sono, má alimentação, nada de praia, de descanso, e por aí afora.
Ou seja, do que vínhamos desenvolvendo a única actividade efectivamente interrompida foi a escrita aqui no INSTANTES. Se isto são férias, vou ali e já venho...

Agora, o que nos interessa, e interessa aos visitantes deste blog, é que essa pausa acabou. Estamos de novo aqui, prontos para vos assediar com os nossos escritos.
Apenas uma alteração irá ser feita em relação ao esquema que estávamos a utilizar, que consistia na publicação regular semanal, em geral à sexta-feira, dum novo texto.
Agora não haverá calendarização. As novas prosas poderão aparecer em qualquer dia e mesmo mais que uma por dia ou por semana. Serão publicadas de acordo com o ritmo em que forem sendo escritas e produzidas.
Continuaremos, como temos feito, a notificar-vos por email a cada nova publicação.


Quem estiver interessado em receber notificações por email, nem que seja para apenas vir cá só quando houver novidades, faça-me chegar um pedido por email. O meu endereço está acessível no meu perfil completo.

E porque se faz tarde... já de seguida vai um novo conto que, espero, seja do Vosso agrado.

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sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

instantes de férias

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Caros,
Como achamos que também temos direito a um pouco de descanso, que isto de escrever todas as semanas dá cabo da moleirinha a qualquer um, o INSTANTES vai fazer uma curta pausa para retemperar os neurónios. O Tico e o Teco já andam meio baralhados e agradecem...

Fiquem por aí, voltamos em breve. Até lá:

Boas Férias para todos!
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quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

lugar aos poetas

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recebido via email com pedido de publicação:


As Torres do Isaltino Morais

O Isaltino Morais que é tio,
Quer lotear a fundição de Oeiras.
No lugar do picadeiro do rio,
Um estacionamento cheio de poeiras.

No lugar do Beer Hunter que tem brio,
O acesso a uma rotunda sem beiras.
No lugar da fundição que serviu,
Doze torres em betão sem eiras.

E se foi para isso que os moradores,
Da Medrosa votaram no Isaltino,
Oh, poderoso autarca, que dás dores,

Livra-nos de ti, usa o tino,

Deixa a Medrosa aos eleitores,
Que votámos num qualquer cretino!

Carlos Santos Bueno
20/08/2008


n.b.: O autor é um poeta oeirense, com 2 livros de poesia publicados: "As Margens Vermelhas" (Minerva) e "Os Jardins do Éden" (ed. autor).
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sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Juízo Final

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JUÍZO FINAL

O rugoso globo ocular, enrugado pelo medo, encarquilhado pelo terror, o globo único que tinha, o globo apenas um que era, só, saltava, pulava, rebolava e ressaltava como doida bola de matraquilhos, num esforço danado e louco para escapar à onda avassaladora de plasma abrasador que procurava, ameaçava, tragá-lo.

Era um simples, vulgaríssimo, globo ocular, idêntico a milhares de outros.
No tamanho no volume no peso na cor ou na redondez, em plano algum se distinguia ostensiva ou evidentemente dos demais que habitavam aquelas paragens difusas.


Tinha córnea — quem não a tem?! — coberta por uma excelente conjuntiva. Tinha humor aquoso e humor vítreo — aliás, humor era coisa que não lhe faltava. Tinha uma pupila — de que gostava excepcionalmente pois fazia-o sentir-se Mestre, um misto de um Nietzsche com um Abelardo, coisa estranha... — e também uma bela íris. Tinha cristalino, claro — claro e transparente como água límpida ao brotar da nascente serrana. Tinha esclerótica, coróide e retina — eram um trio maravilha! Até fóvea tinha precisamente na mácula lútea, o que o deixava particularmente orgulhoso de si próprio.
Nervo óptico é que não tinha. Não lhe fazia falta nenhuma e seria um empecilho sempre que se quisesse deslocar. Ao rolar acabaria enrodilhado nele. Dificultar-lhe-ia a mobilidade.
Mas então o que o fazia sentir-se único? Sentir-se tão importante, como se achava?

Havia uma razão, talvez de somenos para alguns, mas para ele a Razão com maiúscula.
Era ela: Ele era um globo ocular divino. Sim, divino!
Em tempos longínquos, daqueles ditos de antanho, uma espécie quase-vivente, na verdade fora apenas e só um clã tribal, ao reparar nele enquanto dormitava à sombra dum chaparro, espojara-se à sua frente, deitara-se no chão, entoando cânticos e loas, divinizando-o.
Nada pode fazer para se opor. Assim se tornou o deus daquele clã. O Grande Deus Globo Ocular.

Durante alguns milénios teve uma vida boa e regalada.
Ele era ícone, ele era totem e estátua, ele era lugar sagrado, como o seu chaparro que ficou conhecido como Lugar da Aparição, ele eram cerimónias, liturgias, ofertórios e oferendas, sacrifícios de virgens, algumas pouco ou nada mas enfim..., era um fartar até vomitar.
Só que o que é demais enjoa, e o globo ocular agora içado ao estatuto de poderoso deus fartou-se. Aborreceu-se.
Até um Deus Globo Ocular tem limites para a paciência, bolas!

Quando o clã tribal se apercebeu que o Grande Olheco, como os miúdos lhe chamavam à sorrelfa, estava enfadado e enfastiado de tantas mordomias, ele próprio, clã, começou a definhar na medida do seu sentir de perda de razão de existir.
Menos cerimónias, menos oferendas, menos rezas, menos virgens puras e castas...
Diziam que era a crise económica. Que o pitrol não parava de subir e de dar sinal negativo à conjuntura. Mais umas quantas desgraças de costas largas.
Foi neste contexto de desânimo e desilusão global, chateado que nem um peru, que o globo ocular, agora Deus Globo Ocular, contudo fartinho de o ser, se decidiu a mandar os seus tristes adoradores ululantes às urtigas e partir para paragens mais longínquas onde tivesse paz.

Foi uma longa, dura e lenta caminhada. Cerca de 2.000 anos pela bitola terrestre. O terreno era irregular e agreste.
O pior ainda era o peso horroroso do grande malão de cartão, uma bela valise en carton oferecida pela Linda de Suza, onde transportava os seus parcos haveres. Parcos mas preciosos e indispensáveis.
No fim lá conseguiu chegar.
A um local aprazível de clima ameno, brisas claras e doces, terras macias, ondulantes, onde se podia instalar.
Apenas um senão, como logo constatou. Não havia chaparros para se deitar à sombra! Teria que encontrar um sucedâneo. Talvez nas Páginas Amarelas.

O seu primeiro dia foi passado a rolar pela planície selvagem fazendo gincana por entre plantas silvestres de bagas violáceas em busca dum bom local para construir um ninho. Não precisou de procurar muito.
No deambular rolante, cruzou-se com um grande estafermo, concretamente um político de esquerda de mentalidade fascizóide, de grande guedelha negra. Lesto saltou-lhe para o interior da espessa trunfa desgrenhada, disputando à bofetada com 3 piolhos e 2 percevejos um bom lugar junto a uma raiz dum cabelo, lugar que conseguiu sem grande esforço. Em pequenino tinha tido aulas de ballet.

Rapidamente dedicou-se à árdua tarefa de construção.
Nas redondezas buscou e apanhou algumas papas de sarrabulho e restos de cartolina Canson, com os quais fez um belo e confortável ninho (na cabeça do político esquerdista).
Tinha 3 assoalhadas, arrecadação, e um alpendre virado a poente. Era uma boa e sólida construção, magnificamente elaborada segundo técnicas milenares que lhe tinham transmitido em pequenino, capaz de suportar os mais violentos tornados e ciclones.

O tempo ia passando plácido.
Dormia sossegadamente no seu sítio, como lhe chamava em pensamento, e passeava durante todo o dia, dedicando-se a observar o mundo à sua volta, atento aos mais pequenos e pinturescos pormenores. Tinha uma curiosidade insaciável. Gostava imenso, por exemplo, de observar as auroras a mudarem de cor.
Descontraído, passeava, rebolava, dormitava — à sombra duma azinheira — até aquele dia fatal. O dia do Juízo Final!

A coisa começou cedo. Logo ao raiar do sexto sol. Sem aviso, sem anúncio.
Estava como de costume a dormitar à sombra quando se apercebeu dum ruído surdo, um ronco cavo, que parecia vir de todos os lados.
Abriu a pálpebra, estremunhado, e o que viu aterrou-o!
Uma gigantesca massa rugidora de plasma sanguinolento brilhante como mil sóis avançava na sua direcção, consumindo tudo à passagem.
Tentou rolar para longe, mas percebeu atemorizado que não tinha velocidade suficiente para escapar ao Fim do Mundo!
A massa ígnea alcançou-o e desintegrou-o reduzindo-o a nada.

O cirurgião desligou o laser, descalçou as luvas que atirou displicente para o balde dos desperdícios e deu a operação às cataratas por concluída com êxito. Podiam tirar o doente da anestesia, cujos efeitos no espírito do anestesiado só se supõem...


Oeiras, 15 Agosto 2008
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sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

a grande teta

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Glorioso e venturoso instante na vida dum caracol... atómico!


A GRANDE TETA

O caracol atómico cruza o espaço a grande velocidade!
É mais um candidato. Há muitos milénios que, de tempos a tempos, surge alguém no universo a quem o Guardião-Mor reconhece o direito de... MAMAR NA GRANDE TETA!
Mas ao caracol atómico não foi reconhecido esse direito. É um infiltrado. Segue por conta própria. Arrisca a vida. E pensa:

— GAITA! É TUDO A MAMAR, TUDO A MAMAR, E EU? NÃO TENHO DIREITO A UM BOCADINHO? AH, MAS EU CHEGO LÁ! HEI-DE MAMAR TAMBÉM!

Aproxima-se velozmente da galáxia onde está a Grande Teta. Conta com a velocidade para fintar as barreiras de protecção. Mas os radares estão cada vez mais sofisticados. Na sala de controlo, um guardião apercebe-se de um ponto violeta no écran quadriculado. Dá o alerta:

— ATENÇÃO! AÍ VEM MAIS UM QUE QUER MAMAR!

O sargento da guarda lança no espaço uma equipa de interceptores. E capturam o caracol atómico, que nada consegue fazer para o evitar. Brutalmente, conduzem-no a uma cela, onde fica detido. O guardião, antes de fechar a porta da cela, tem ainda tempo para lhe dizer:

— SERÁS LEVADO AO GUARDIÃO-MOR. É ELE QUE DITARÁ A TUA SORTE. MAS FICA JÁ A SABER QUE, ATÉ HOJE, EM TODOS OS CASOS SEMELHANTES, A SENTENÇA FOI SEMPRE ATIRAR O INFRACTOR NO CALDEIRÃO DAS MOSCAS CARNÍVORAS.

No dia seguinte, os guardiães conduzem o caracol atómico à presença do Guardião-Mor.
O ambiente é pesado. O Guardião-Mor tira o dedo do nariz, levanta o braço e aponta para o caracol atómico:

— QUE SEJAS CONDENADO AO CALDEIRÃO DAS MOSCAS CARNÍVORAS. SERÁS DESTRUÍDO AMANHÃ DE MANHÃ, QUE HOJE NÃO ME APETECE. SAÍ TODOS!

Os guardiães levam o caracol atómico de novo para a cela, onde irá aguardar o cumprimento da sentença. Faz-se noite.
O caracol atómico, na cela, não pára de pensar. Tem que conseguir escapar esta noite. O silêncio é profundo. A cela não tem janelas, apenas uma porta. O guardião passa pelo corredor de vez em quando. E o caracol põe em prática o seu plano.
Começa a bufar-se. A cela começa a encher-se do cheiro das bufas. A pouco e pouco a nuvem de gás passa pela ranhura da porta.
O caracol não pára de se bufar. O cheiro torna-se insuportável. E é detectado pelo guardião que vem a passar outra vez. Sente o pivete, imobiliza-se junto à porta, e pensa:

— UM CHEIRO TÃO FEDORENTO SÓ PODE SIGNIFICAR QUE O MALANDRO, COM O CAGAÇO, SE ESTÁ A DESFAZER EM MERDA! JÁ NÃO VAI SOBRAR NADA PARA AS MOSCAS DO CALDEIRÃO!

O guardião abre a porta. O caracol atómico, entretanto, enquanto se peidava ia preparando o ataque.
Quando o guardião abre a porta e entra na cela, o caracol surge subitamente de trás daquela (velho truque!) e desfecha-lhe uma pancada no crânio com o penico que existia na cela para os presos se aliviarem de noite.
O contacto do pesado bacio de esmalte com o crânio do guardião ressoa pela cela. O guardião tomba pesadamente no chão. O caracol aguarda em silêncio para ver se surge alguém alertado pelo barulho. Nada. Devem estar todos a dormir. Tira a arma ao guardião, as chaves, tranca a cela e esgueira-se pelo corredor.
Andando um pouco à toa, vai dar a uma plataforma onde se encontram vários veículos planadores. Uma placa identifica-os como VAGT (Veículos de Acesso à Grande Teta), exactamente aquilo que ele necessita. Entra num deles, fá-lo funcionar, e arranca a planar pelo enorme tubo à sua frente. Saí do tubo para uma imensa sala no centro da qual se encontra... A GRANDE TETA! Os olhos arregalam-se!

—CONSEGUI! — pensa o caracol.

Imobiliza o veículo e dirige-se a pé à enorme escadaria que dá acesso ao glorioso e suculento mamilo que se encontra lá em cima. À medida que se aproxima, vultos saem das sombras e acercam-se dele.
O caracol sorri. Ali, naquele sítio, aqueles vultos só podem pertencer aos grandes mamões! A pouco e pouco começa a reconhecê-los: Hitler, Mussolini, Salazar, Staline, Kadhafi, Saddam, Cerejeira, Papa, Khomeini, Hirohito... Todos abrem alas e lhe sorriem, pensando estar na presença de um sucessor.
Começa a subir a escada degrau a degrau. A grande teta, lá no alto, túrgida, clama por ele!

— VEM MEU CARACOLINHO! VEM E MAMA TAMBÉM!

Atrás do caracol, todos sobem entoando cânticos e louvores:

— MAMA, MAMINHA, NA MINHA BOQUINHA! TETA, TETONA, NA MINHA BOCONA!

O caracol continua a subir. A teta está cada vez mais perto. Mas algo de estranho se passa. A bela e exuberante teta, vista de perto, parece rugosa e flácida.
O caracol aproxima-se mais. É verdade! A Grande Teta, afinal, está velha e gasta! O mamilo sujo e desbotado, as rugas por todo o lado, o aspecto velho e encardido...
A Grande Teta está velha! constata o caracol atómico. Afinal é uma ilusão. Não vale a pena continuar. Mamar, o quê? Leite azedo, se calhar! E volta-se para descer. Dá de caras com os grandes mamões, que lhe sorriem como zombies.
Inicia a descida e tenta furar mas eles procuram impedi-lo.

— SERÁS UM DE NÓS, QUER QUEIRAS QUER NÃO QUEIRAS! HÁS-DE MAMAR, NEM QUE SEJA A ÚLTIMA COISA QUE FAZES! VAIS LEVAR COM A TETA NAS BEIÇAS!

E tentam agarrá-lo. O caracol debate-se. Grita. Empurra e esmurra em todas as direcções. Os grandes mamões caem, mas levantam-se sempre. Finalmente consegue libertar-se, não sem antes perder alguma pele pelo caminho (e um dos cornos).
Corre para o VAGT, põe-o a funcionar, e dirige-se a velocidade crescente em direcção à cúpula envidraçada da sala. Atravessa-a, no meio do troar imenso da ruptura da cúpula, e penetra no espaço, onde se liberta do VAGT e aumenta de velocidade, em direcção ao sol, em direcção à liberdade.
Atrás dele, ecoam os gritos dos grandes mamões:

— MAMAREMOS PARA SEMPRE! VIVA A MAMADA! VIVA A GRANDE TETA!

Entretanto, no posto da guarda, diz o guardião do radar:

— O MALANDRO CONSEGUIU ESCAPAR!

Responde o sargento:

— ELE QUE VÁ MAMAR P'RA OUTRO LADO!

E o caracol, feliz, lá continua em grande velocidade a cruzar o espaço:

— PORRA, JÁ ME SAFEI!


Oeiras, 09 Dezembro 2002
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Instante DOIS MIL

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O INSTANTES ultrapassou ontem a fasquia dos

2.000
visitantes

Aconteceu às 2:55:31 pm, com um clique brasileiro, a 7.170 kms daqui.
Para esse irmão desconhecido, AQUELE ABRAÇO!!

CLIQUE PARA AMPLIAR



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terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Sinalização (flag) de blogs

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Caros(as),

Este post sai substancialmente do âmbito deste espaço literário.
A razão para que tal aconteça é séria e muito grave.

Fomos alertados para ela por uma ocorrência recente que prejudicou gravosamente o blog O JUMENTO, e que vimos mencionada no Oeiras Local.

Para compreenderem melhor os contornos deste problema, que pode afectar qualquer um de nós, bloggers, o melhor é lerem e divulgarem o excelente e esclarecedor artigo do Ruben Valle Santos:


- CLIQUE NO LINK ACIMA -

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sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

fornalha

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Este instante já é velhinho... Não se trata em rigor de um conto ou estória, mas de um ensaio de poesia. Integrado, é certo, num contexto de ficção científica, apenas perceptível pelo prelúdio. Divirtam-se!


FORNALHA

Prelúdio introdutório

Sumário da 3.ª Lição de Astromorfologia - II Curso Ómega: A Fornalha.

Com voz grave e possante, dizia o professor, aos seus jovens alunos, agitando os cílios vibráteis no cocuruto da cabeça:

— NESTE NOSSO BRAÇO DA GALÁXIA, A POUCOS ANOS-LUZ DAQUI, UM CONJUNTO DE PLANETAS, ASTERÓIDES E COMETAS, ALÉM DE OUTROS CORPOS CELESTES DE SOMENOS IMPORTÂNCIA, GIRA EM TORNO DE UM SOL, ESTRELA AMARELA DO TIPO G, A QUE ALGUNS ESPECIALISTAS DÃO JOCOSAMENTE, QUIÇÁ IMBUÍDOS DE LIRISMO, A ALCUNHA DE...

FORNALHA

A fornalha rugia.
No seu íntimo,
No mais fundo do seu ser,
Nas profundezas mais vulcânicas,
O fogo revolteava,
Comprimia-se,
Expandia-se,
Esmagava-se,
Num pulsar rápido,
Caótico,
Doloroso e imparável.

A fornalha rugia.

Colunas de fogo erguiam-se,
Contorciam-se,
Projectavam-se em frente,
Chocavam umas contra as outras,
Num troar fantástico,
Destruíam-se,
E renasciam num processo infinito.

A fornalha rugia.

Fogo líquido dançava,
Bailava enlouquecido,
Deformava-se,
Lambia-se a si mesmo,
E envaginava-se num abraço final,
Recomeçando sempre.

A fornalha rugia.

Indominável.


Paço de Arcos, 29 Novembro 1994
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sexta-feira, 25 de Julho de 2008

l’Huomo diroxo e Mutcha - atracções

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Este texto, aqui na sua versão original, faz parte duma estória mais vasta, da qual existem outros capítulos finalizados, e que se encontra por concluir.
O contexto é um misto de tecno-futurismo e non-sense com algumas pinceladas de fantástico e surrealismo.
Este instante é a introdução da referida estória, e foi escrito em 21 de Abril de 1993.


L'HUOMO DIROXO E MUTCHA - ATRACÇÕES

Naquela parte da cidade as ruas eram cinzentas e sujas.
Velhos edifícios abandonados, arquitecturas antigas, funções duvidosas.
Vapores fétidos subindo por todo o lado, saindo de buracos engradados, no pavimento pejado de poças de água oleosa por toda a parte, conspurcado de detritos industriais e restos orgânicos.

Um saltinho... priii! Outro saltinho... priii! Ainda outro... chap!
L'Huomo diroxo saltitava ao longo da rua sem passeios.
Indiferente às poças de água que existiam por todo o lado, saltitava.
Mãos nos bolsos, apito na boca, a pés juntos saltitava. A cada saltinho, uma apitadela. E assim avançava.
Um saltinho... priii! Outro saltinho... priii! Ainda outro... chap!

Entretanto, enquanto l'Huomo diroxo saltitava na inconsistência do tempo e na insolubilidade da rua esparrinhando água das poças em todas as direcções, a noite caía, escorria pelas paredes, pelos objectos que encontrava no seu caminho.
A noite caía escorrendo pelos corpos, sorvendo tudo o que encontrava.
A escuridão fechava-se em torno dele, d'el Huomo diroxo, ao mesmo tempo que alguns candeeiros — dos poucos que funcionavam — se acendiam soluçantes, enquanto perigosos smorfles ameaçavam invadir o negrume cúmplice da ausência de luz, ensaiando curtos voos, prenúncios do seu domínio das trevas.

Naquele lugar, naquela cidade, o cosmos avançava e o caos recuava.
Ao longe ouviam-se sons, sonoridades saxofónicas dolorosas e frementes, rasgando a noite como gritos de mocho, lembrando gotas de água a pingar sobre metal.

Saltitando, l'Huomo diroxo prosseguia, a pés juntos. Saltitando e apitando, saltitando e apitando...

Do outro lado da cidade, as ruas também eram cinzentas e sujas.
Velhos edifícios de arquitecturas abandonadas, duvidosas intenções.
Fétidos detritos orgânicos em movimento, arfantes (vivos?), alguns parados pelas esquinas, mergulhados em poças de água, reflectindo néons.
Do outro lado da cidade a noite não existia. Melhor dizendo, a noite estava de tal modo transfigurada que parecia não existir.
A ilusão era a norma. A ilusão era o ser. A ilusão era o caos. A ilusão... passar a noite em claro...

O olhar oblíquo, o cigarro ao canto da boca, a barba por fazer, as sereias no cais, o rugido dos motores das naves preparando-se para partir, a quietude do rio embalando ilusões (algumas dolorosas), mulheres do dia passeando na noite, néons estalando, doendo nos olhos, pavor do negro, da luz que se apaga por falta de corrente...
E os pingos de água caindo sobre metal. E os mochos piando na noite, ecoando nos eucaliptos da imaginação...

Aí caminhava Mutcha. Cruzando néons, desviava-se rápida e bruscamente, no seu ar de habituée, dos obstáculos que lhe surgiam pela frente. Caminhava Mutcha. Na mão, um pião.
Enquanto caminhava, descontraída, cantava mentalmente: eu tenho um pião, um pião que gira... eu tenho um pião a girar na mão; o pião, por seu turno, parecia um mocho. De madeira. Ilusão?
Rumo ao bar, com o livre-trânsito no bolso, caminhava Mutcha, de pião na mão, e mochos esvoaçando no ar, cantando mentalmente. Para si própria?
Assim prosseguia a noite que não era noite...
Mutcha prosseguia. Indiferente, afinal, àquilo que já conhecia bem.
O mocho a piar, os saxofones a tocar, o pião na mão, a canção a martelar-lhe o cérebro...

Também prosseguia, do outro lado da cidade, saltitando, l'Huomo diroxo.
Sem destino, resignado à sua condição de 'saltitão que apita'. Algures, l'Huomo diroxo saltitava. Ausente.
Foi subitamente que se apercebeu do silêncio. Parou bruscamente como se tivesse chocado contra uma parede invisível.
A sonoridade saxofónica que o acompanhara ao longo do seu deambular à deriva não se ouvia. Imobilizou-se. Completamente. A pés juntos. Apito suspenso entre os lábios. Respiração suspensa à entrada do apito.
Apurou os sentidos. Tentou ouvir... Nada! Não se ouvia nada. Nem os smorfles. Parecia que tudo tinha parado.
Então, no meio do silêncio, sem saber porquê ou como, ouviu uma canção bater-lhe no cérebro: eu tenho um pião...; um calafrio terrível percorreu-lhe o corpo amorfo.
Estremeceu. E olhou.


Olhou para o fundo escuro da rua, para as poças de água a reflectir a pouca luz dos poucos candeeiros acesos, tremeu com o frio, sentiu passar sobre si o zumbido de um smorfle, encheu-se de coragem vinda não sabia de onde nem porquê, tirou o apito da boca, colocou-o no bolso, e caminhou decididamente, inchando o peito, em direcção ao negrume, desaparecendo na escuridão dos becos.


Oeiras, 21 Abril 1993
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sexta-feira, 18 de Julho de 2008

crónica dum inconfessável

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CRÓNICA DUM INCONFESSÁVEL

Quase todos os dias a via fugazmente. Ou na camioneta ou na gare da estação ou no comboio rápido saindo em Alcântara, segundo lhe tinha uma vez parecido. Eram curtos e breves momentos fugidios. Por vezes, quando esperavam a camioneta lá na rua, tinha um pouco mais de tempo para catrapiscar o olho enquanto ela se deslocava pelo passeio em direcção ao abrigo.

Achava-a interessante. Não particularmente bonita. Mas jovem e de rosto agradável. Olhos espelhando inteligência e profundidade de sentimento. Cabelo escuro quase negro cortado médio. Pequena, razoavelmente mais baixa que ele e sempre de calças e casaco escuros. A roupa pouco justa mas elegantemente vestida a deixar adivinhar, quiçá sonhar com, formas interessantes de uma mulher a amadurecer. Um dia viu-a de saia. Viu-a do joelho para baixo. Pernas a dar para magro, de musculatura bem recortada, saliente. Torneadas. Assentes sobre pés calçados com sapatos pretos de salto não muito alto. Pernas a fazerem sonhar com amores ambulatórios contra uma qualquer parede proibida, longe de vistas indiscretas. Gémeos excitantes.

Apanharam o comboio lado a lado.
Costas encostadas ao separador da carruagem, lia um livro e apoiava-se, para se equilibrar, de pernas ligeiramente afastadas e rígidas, salientando os músculos num assomo de energia imperativa e categórica. Excitou-o mais do que habitualmente. Gravou-se-lhe na memória a fogo bruto. A fogo duro. Inundou-o um delírio de fantasias evocativas de ruas molhadas pela chuva fria do outono, luzes baças pingando no alcatrão estalado e velho, néons crepitando, bocas, lábios, línguas a saberem a mel de alfazema, odores a trigo molhado, sexo túrgido contra ventre em brasa.

Poucos dias depois voltou a vê-la. Surpreendeu-o surgindo de súbito apressada quando ele saía do prédio. Dirigia-se como habitualmente no rumo do abrigo das camionetas mas, sem se deter, passou por trás deste. Talvez uma boleia. Ele apanhou a camioneta que chegava, com aquela fugaz imagem no pensamento, pensando se voltaria a vê-la. Estava no quiosque a tomar a habitual bica quando ela surgiu novamente e se dirigiu também para o quiosque. Ia tomar o seu pequeno-almoço. Olhou-a e reparou como era baixa. A testa dela dava talvez pelo queixo dele. Acabou de tomar o café e dirigiu-se para a gare de embarque. Passado pouco tempo ela passou por ele. Apanharam o mesmo rápido.
Seguiam muito perto um do outro. Pelo vidro separador ao qual ele se apoiava via-a no corredor voltada para o mar perdida em contemplação aquosa. Desta vez observou-a um pouco mais, tentando fazê-lo o mais discretamente possível.

Não soube se percebeu que a observava. Pensou que sim. As mulheres não são indiferentes a um observador solitário. Geralmente dão por isso, apesar de procurarem transmitir o contrário. Ou o mais absoluto desinteresse. Hoje não tinha um ar tão 'executivo'. Estava mais desportiva e fresca. Talvez a adivinhar os 30° previstos para Lisboa.
Tinha também as mesmas pernas. bem torneadas a provocarem-lhe os mesmos desejos inconfessáveis...

Oeiras, 12 Outubro 2002
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sexta-feira, 11 de Julho de 2008

bate leve, levemente...

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BATE LEVE, LEVEMENTE...

— MAS QUE PORRA... QUE MERDA É ESTA? O QUE É ISTO?! — praguejou, piscando os olhos, vesgos de quem acaba de acordar dum sono estranho e doentio.

Olhou atónito o sítio onde se encontrava.
Torceu-se, retorceu-se como uma irós, e fez menção de se levantar, o que não conseguiu. Tinha os pulsos bem amarrados por uma corda grossa, presa ao cano do autoclismo. Estava sentado no tampo duma sanita, com as calças para baixo a prenderem-lhe as pernas, numa obscuridade que, apesar de intensa, lhe permitia perceber que estava numa minúscula casa de banho, sem janela, onde um cheiro fétido a fezes e urina se fazia sentir, entranhando-se pelas narinas sem pedir licença.
O coração acelerou e batia como um tambor. Ribombava na caixa torácica e martelava-lhe os ouvidos. Mas que raio era aquilo? Onde estava e o que fazia ali naquela situação?
A última e única coisa de que se lembrava era de caminhar calmamente pela rua na direcção de casa, do seu quarto.

Procurou fazer um flashback, recordar tudo o que tinha feito durante o dia.
Acordara por volta das 11h., com a algazarra que vinha da rua, mesmo por baixo da sua janela. O regabofe era de tal ordem, que não conseguira cair de novo no sono, e levantara-se para ir espreitar à janela a ver o que se passava, apesar de no seu íntimo ter já uma suspeita do que era.
Abrira a janela, debruçara-se e olhara para a rua, para confirmar o que sabia.
As suas vizinhas do prédio do lado, a Matilde e a Gertrudes tinham-se pegado outra vez uma com a outra, à porrada e aos gritos,
Agarradas uma à outra puxavam mutuamente os cabelos e gritavam insultos, indiferentes à pequena multidão que se tinha juntado à volta delas a gozar o prato e sem interferir, que nestas coisas é melhor deixá-las descansadas.

A história era antiga e as pegas useiras e vezeiras.
A Matilde acusava a Gertrudes de lhe andar a comer o homem, e que este a tinha emprenhado daquele aborto que ela fizera seis meses antes.
A Gertrudes defendia-se dizendo que a Matilde é que andava a abrir as pernas aos homens todos lá do bairro que toda a gente sabia que ela era uma grandessíssima putona e até na feira era com os fiscais e tudo e que nenhum dos cinco filhos dela era do marido pobre homem coitado do Mariano que era encornado e ceguinho com certeza porque não fazia nada.
Enfim, eram as tricas do costume entre vizinhas lá no bairro.
Aquelas não eram as únicas. De vez em quando lá havia alguém que se travava de razões com outro, pelos mais diversos motivos.

Aquele chinfrim tinha-lhe afugentado o sono para longe e já nada havia a fazer quanto a isso. Teria que esperar pela noite para ele voltar. O melhor era vestir-se e ir dar uma volta. Curtir um pouco.
Assim fizera. Fora à casa de banho mijar, dar o habitual traque e tirar as ramelas dos olhos, só tomava banho uma vez por mês, para poupar água dizia.
Voltara para o quarto e vestira-se. As calças de ganga e a mesma t-shirt com que andava há três dias e que mais dia menos dia teria que pôr para lavar. Como a mulher do padrasto, a Celeste, ainda não o tinha chateado a esse respeito, ia adiando.

Por falar em mulher do padrasto lembrou-se das belas coxas da gaja, e o calor inundou-lhe o baixo ventre.
A gaja, trinta e dois aninhos, era um portento. Um par de mamas que pareciam dois balões prontos a rebentar nas trombas dum mânfio, um cagueiro d'arrebenta e umas mocas boas como o milho.
Já uma vez em que ficara em casa sozinho com ela, o padrasto fora para Espanha por duas semanas trabalhar numas obras, ele tinha andado a arrastar-lhe a asa. Mas a puta dera-lhe uma grande nega.
Ele bem tentara. Falara-lhe sempre com voz meiguinha, o mais doce que conseguia por entre os dentes cariados, negros e a cair, fizera-lhe algumas festinhas na cara de vez em quando, dissera-lhe como era belo e bem cheiroso o cabelo dela, parecia um vasculho... mas um gajo tem que dizer estas coisas, deixara-a ver na televisão as telenovelas que ela queria, mais os programas do Goucha, da Fátima, da Rita e da Júlia, para se cultivar dizia ela, à conta disto para ver a bola, o seu amado Glorioso, tivera que ir para a tasca do Jeremias, até partilhara com ela uma garrafa de Gin que conseguira gamar no super do Reboredo, para a excitar andara só em cuecas ou calções pela casa, e era inverno e estava um frio de rachar, a fazer um esforço do caraças sempre que passava por ela para encher o peito de ar e encolher a barriga para lhe mostrar o caparro, as gajas gostam, sem ela topar friccionava a sarda para a pôr de pau feito por baixo das cuecas ou dos calções, e aparecia na sala com uma desculpa qualquer para ela ver que ele estava com tesão e que tinha um grande marzápio, capaz de a trespassar e fazer subir aos píncaros da Lua, mas... népias! NÉPIAS!

A cabrona da Celeste nunca cedera.
Resistira sempre aos seus avanços, sem dizer uma palavra, sem dar um sinal de que estivesse interessada numa boa queca. Certamente por temer as consequências, se o padrasto dele soubesse. Este era homem para os matar aos dois e o mais certo era ela não estar a fim de arriscar, devia ser só isso...
Ele, não tinha esse medo. Se o padrasto se armasse em parvo só por causa dum inocente par de cornos, era bem capaz de o enfrentar, enfiar-lhe umas chapadonas nas fuças para o deixar sossegado.
Também, depois de dar uma valente duma pranchada na Celeste queria lá saber do padrasto. Ele que se lixasse.

Lembrava-se bem de que se tinha vestido, que tinha passado pela cozinha, onde bebera uma cerveja fresca à maneira e comera um naco de presunto, pão e azeitonas, o seu habitual pequeno-almoço, acendera um cigarro e saíra para a rua no meu duma canícula tremenda pois o verão estava no pino.
Andara pela rua fora e a meio, lembrava-se, encontrara o Calita, que lhe devia uma cinquenta e que, encostado na soleira duma porta, tentara fazer que não o vira, assobiando para o ar, mas não conseguira evitá-lo quando ele parou e se virou mesmo à sua frente, o agarrou pelo pescoço e lhe pediu o cacau, o graveto, o pilim, os carcanhóis.

— MAN, O MEU GRAVETO?!

— PÁ, CALMA! COOL MAN! EU PAGO! NA BOA, MAN! JÁ TENHO QUASE A MASSA TODA PRA TE PAGAR. OLHA AQUI. — mostrara-lhe uma nota de vinte euros, outra de dez e duas moedas de dois euros, que ele olhara desdenhosamente.

— CAGUEI NESSA MERDA, CARALHO! DEVES CINQUENTA! SE NÃO PAGARES ATÉ AMANHÃ, JÁ SABES... TÁS FODIDO COMIGO!

Afastara-se e continuara o seu caminho, após dar um tabefe na cara do Calita, que ficou para trás a murmurar e a choramingar que lhe ia pagar tudo até ao último cêntimo, nem que tivesse que ir roubar - que era o mais certo... - que eram amigos desde putos, que era incapaz de trair um amigo que era como um irmão, que tinha a mãe doente no Francisco Xavier com um cancro na rata, que a irmã chavalinha tinha passado a noite na mata do Monsanto a trabalhar no oral e euros nicles, que o pólen que vendi ao Óscar moné inda não lhe vi a cor, que ai meu deus esta puta de vida é uma merda...

Recordava-se de ter saído do bairro para a avenida que descia em direcção à grande praça com a estátua moderna de cimento e chapa pintada às cores, na placa do meio, que ninguém percebia que merda era aquela, recordava-se de ir a caminhar pelo passeio da avenida abaixo, a fumar outra cigarrada e a apreciar as gajas que passavam apressadas, mais as estranjas descascadas.
Chegara ao largo, ainda sem saber muito bem onde se dirigir. Gostava de passear ao sabor do acaso. Até que tinha tido uma ideia que lhe iria tornar o dia mais agradável e o calor mais suportável.
Ir comprar uma ganzazita ao Pívias e ir para casa fumá-la, aproveitando pelo caminho para passar no snack do Santos e comprar meia dúzia de jecas fresquinhas para ajudar à festa.
Lembrava-se que assim fizera. Lembrava-se de se dirigir à casa do Pívias, era no prédio amarelo... mas a partir daqui as coisas tornavam-se nebulosas. Um nevoeiro denso, cerrado e escuro envolvia-o e não conseguia recordar mais nada.

— PORRA!

Tinha que fazer o ponto da situação, outra vez.
Remexeu-se no assento, suspirou e olhou em volta, semicerrando as pálpebras, atento aos pormenores.
Estava preso numa minúscula casa de banho, só com a sanita e um urinol à sua esquerda, às escuras, sem qualquer abertura, com a porta a escassos centímetros, sentado no tampo da dita sanita, com as calças em baixo, mas de cuecas.
Não lhas tinham tirado nem a t-shirt. Os pulsos estavam presos por uma corda ao cano do autoclismo, atrás de si e puxavam-o para trás. Olhou para baixo. Tinha os pés descalços mergulhados em água, cheia de mijo, beatas e pedaços de papel higiénico borrados, que inundava o chão, numa espessura de quase dois centímetros. O tecto nada tinha de assinalável, excepto por estar escamado e encardido e ter uma lâmpada apagada pendurada no suporte, sustentado por um pedaço do próprio fio eléctrico. Parecia a casa de banho duma qualquer baiuca do Cais do Sodré. O cheiro fétido, mesmo para ele, habituado a andar na merda, era insuportável, e as moscas que esvoaçavam à sua volta também o incomodavam.


Talvez fosse melhor, ao invés de tentar recordar o que fizera ao longo do dia desde que se levantara, fazer a coisa ao contrário, da frente para trás como se rebobinasse um filme ou uma cassete. Talvez assim conseguisse chegar a uma conclusão. Pelo menos a algo que o satisfizesse, que lhe desse uma ideia, mesmo que pálida, de como ali chegara. Mais tarde pensaria no que fazer para sair dali. Para se pisgar e pôr a salvo.
Concentrou-se no processo de rebobinar a película.
Acordara ali. Antes de acordar tinha estado inconsciente. Isto era óbvio. Mas... e antes disso?
Fez um tremendo esforço para se recordar da última coisa que vira, que sentira, que cheirara, que tocara, que saboreara, que estimulara os seus sentido enfim. Quase conseguia ouvir as cremalheiras do seu cérebro a rangerem do esforço.

Súbito, uma imagem surgiu. Um carapuço a ser enfiado na sua cabeça.
A partir desta imagem de forte pregnância, outras começaram lentamente a surgir do fundo lodoso da sua estilhaçada memória.
Fragmentos emergiram e foram-se juntando em pedaços maiores, formando um puzzle que crescia e que se ia tornando mais compreensível, à medida que ganhava cor e corpo, forma, estrutura.
A densidade das evocações aumentava com esforço, mas claramente.
A memória dos sentidos voltava.
Sentiu o nada sentir, o negrume, a inconsciência.
Sentiu o fugir do espírito para o vazio, o desmaio.
Sentiu de novo a forte pancada na nuca por cima do carapuço, quando este lhe tirou completamente a visão.
Viu as mãos fortes e peludas que saíam de punhos de camisas virginais e mangas de casacos negros, que o seguravam fortemente, acompanhavam no seu silêncio a mudez dos dois gigantes amarelos que saiam do carro que bruscamente travara ao seu lado.
Ouviu o carro travar e guinchar.

Agora recordava-se bem. Descia a avenida e o carro fizera uma travagem violenta ao seu lado, daquelas que deixam quilos de borracha no alcatrão. Dele tinham saído dois homens possantes de ar achinesado que, sem uma palavra, o tinham imobilizado, lhe tinham enfiado o garruço na cabeça, lhe tinham dado uma pancada na nuca. Depois, a escuridão absoluta.
Esta parte lembrava, mas e o antes?
Quem eram aqueles homens e porque carga de água o tinham prendido naquele lugar imundo?

Concentrou-se novamente nas fugazes memórias, que lhe escapavam como água por entre os dedos.
Conseguiu com esforço e tenacidade agarrar uma delas. Suspeitava que esta era um elo relevante e esforçou-se ainda mais.
Lembrou-se que enquanto caminhava pela avenida, vinha a pensar em qualquer coisa de importante. Vinha, vinha. Mas no quê?
O fotograma do filme que tentava rever bateu-lhe no espírito como se uma chapa de aço lhe tivesse caído em cima.
Estava a pensar, precisamente, que suspeitava que andava a ser seguido por agentes de... não recordava.
Recordava, sim, que eles tinham como missão eliminá-lo, um eufemismo para 'matá-lo'. Fazer-lhe a folha, mandá-lo para os anjinhos, para o jardim das tabuletas, por um motivo que ele desconhecia, disto estava seguro, por enquanto. Eles eram agentes duma potência estrangeira, tinha a certeza, e ele nunca se metera em políticas. Queriam matá-lo a propósito de quê?

Que potência era, não sabia. Mas foi rememorando a pouco e pouco o que sabia. o que lembrava. Era uma organização secreta, tão secreta que nem os próprios agentes sabiam que ela existia e que dela faziam parte.
Não tinha ideia de como ele próprio soubera da sua existência. Sempre tivera uma grande intuição para descobrir coisas a partir dos pequenos sinais que nos rodeiam, muitas vezes imperceptíveis. O que era de grande utilidade para cavar da bófia, mesmo antes dela aparecer.
Aflorou-lhe ao espírito, subitamente, o que sabia. A intenção dessa agência secreta era a clonagem de girafas para lhes extirpar os testículos e usá-los para confecção de hamburgueres através duma grande cadeia mundial de restaurantes muito conhecida, pac ou mac qualquer coisa!

Só que para levarem a deles avante era necessário eliminarem do mundo inteiro todas as pessoas que tivessem um especial carinho por girafas, para quando a coisa fosse tornada pública, como sempre acontecia, não haver oposição, manifestações e uma grande bronca de consequências incalculáveis, que poderiam pôr a frágil economia mundial em risco. Ah! Lembrava-se agora! Este era o caso dele.
Quando era carruchinho, praí com seis anos, o padrasto e a mãe, ainda era viva, tinham-no levado ao Jardim Zoológico para ver a bicharada, e o animal de que ele mais gostara fora a girafa, com aquele enorme pescaroço, as gâmbias altas e elegantes, as malhas espalhadas à ganância pelo lombo, o modo curioso de andar, ficara-lhe a atracção e o carinho para sempre. Adorava girafas!
Agora percebia. Ele era um dos que eles tinham que matar, pois claro! Ele nunca aceitaria que se fizessem hamburgueres com culhões de girafa!

Conseguira! Sabia como tinha chegado ali e o porquê!

Uma aguda dor de cabeça tinha-se entretanto instalado na sua mona. Talvez efeito do tremendo esforço de pensar para recordar. Valera a pena. Estava agora na posse de informações que o situavam naquele contexto e o ajudavam a perceber onde estava e porque estava. Era um enorme alívio.
Continuava no mesmo lugar, mas com a vantagem de já saber como ali tinha chegado, e porquê.
Esperava a todo o instante que um dos brutamontes, um dos chinas, aparecesse para lhe pôr o inevitável ponto final.
Contudo, para lá da porta, nada se ouvia. Nem um barulhinho ou um sussurro que indicasse que houvesse vivalma nas proximidades.

Decidiu, até porque se sentia terrivelmente cansado e agoniado com tudo aquilo, fechar os olhos e passar um pouco pelas brasas. Não evitaria que o matassem, mas ajudaria a passar o tempo e a suportar melhor o desconforto. Até chegar a hora.
Assim fez. Inclinou o tronco e a cabeça para trás até onde lhe foi possível. Cerrou as pálpebras, aumentando a escuridão dentro dos olhos, inspirou e expirou longa e profundamente, acalmou, sentiu que o coração batia mais regular e parava com a cavalgada anterior, o duro tambor abandonou-lhe os ouvidos e emudeceu, e ele deixou-se afundar na sonolência que sentia. Afundar-se e afogar-se.

Abriu bruscamente os olhos estremunhados, com o estampido dum escape dum motão.
À frente dos seus olhos o tecto enegrecido da humidade e sujo de cagadelas de mosca mirava-o implacável.
Soergueu o corpo sobre os cotovelos, apoiou-se nas mãos e fez força até conseguir ficar sentado, e olhou em torno de si, espantado.
Estava no seu quarto, semi-despido, descalço e esparramado na cama desfeita. Doía-lhe a cabeça e a barriga e sentia-se tonto. Tinha dificuldade em focar o olhar. Acabou por o conseguir.
Ao seu lado uma lata de cerveja tombada espalhara o conteúdo sobre o lençol.
Olhou de esguelha para o lado. Na mesa de cabeceira o chamon fitava-o vazio e desconsolado, soltando um intenso cheiro a queimado.
Atirou os braços ao ar, desengonçados, abrindo-os estupidificado e deixou-se cair para trás sobre a almofada com a súbita revelação.
Não estava preso em nenhum WC... estava no seu quarto!

Afinal sempre tinha conseguido chegar a casa do Pívias, tinha regressado a casa e ao seu quarto, não tinha sido raptado coisa nenhuma, GAITA!
Tinha bebido as jecas e tinha fumado a ganza.
Agora percebia tudo:

— PORRA, A MERDA DO AXE BATEU-ME MAL!


Oeiras, 30 Junho 2008
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sexta-feira, 4 de Julho de 2008

o guardador de porcos

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O GUARDADOR DE PORCOS

O guardador de porcos da aldeia serrana de Covaxisto, conhecido nas cercanias pelo Zé Reco, correu desabrido pelas fragas, exalando o seu típico cheiro nauseabundo a chiqueiro, que sabão algum do mundo conseguiria remover, seguido a curta distância por uma nuvem cinzenta de moscas e varejeiras.
Isto nada teria de extraordinário, ele fazia-o com frequência e já ninguém se surpreendia porque o tinham na conta de maluco, não fora o facto de. naquele dia o fazer como Deus o pusera no mundo, completamente nu, com as pendurezas a abanar, e com uma galinha depenada agarrada debaixo do braço, gritando desalmado:

— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !


— O POBRE DE CRISTO ENSANDECEU! — Exclamou o padre Luís, filho duma beata de Braga, acompanhando um rápido sinal-da-cruz e entrelaçando os dedos, como em oração, quando o sobrinho do ti Quim acorreu à sacristia em sua busca a contar-lhe o ocorrido.
Ele e os amigos tinham visto a excêntrica cena pouco antes enquanto andavam no monte a apanhar amoras, e correram todos para a aldeia a contar às famílias que o Zé Reco tinha apanhado sol na moleirinha, e lhe tinha entrado o demo no corpo.
A ele, Jaimito, o tio incumbira-o de ir dar a notícia ao senhor prior que era a pessoa mais avisada da terra, sabia latim e tudo, e saberia o que fazer.

A notícia espalhou-se pelo povoado como fogo em palha seca.
Pouco demorou para que todos os habitantes soubessem da estória e se juntassem em pequenos grupinhos, aqui e ali, a opinar e a dar sentenças.
Que o melhor era apanhá-lo, que se devia dar-lhe mas era um tiro, que o pai dele já era maluco e tinha sido apanhado a fazer porcarias com as galinhas, que era melhor falar com o Sr. prior, não isto é caso para o bispo, que a culpa era da mãe já falecida por causas nunca apuradas mas havia quem garantisse que fora o homem dela que se metia no vinho que lhe dera com uma garrafa na cabeça depois de lhe chegar a roupa ao pêlo com um varapau e depois tinha dito que ela caíra na escada de pedra de acesso ao poço velho, etc., etc.

Um deles, o compadre Gaudêncio, que tinha combatido nas áfricas, e tinha em casa numa caixa de fósforos um dente que, dizia ele, era dum turra que tinha matado à facada num combate feroz no meio do mato, e que estava na tasca do Patrício com os amigos a deixar correr o tempo à volta duma mesa com uns copos de vinhaça da boa, da adega do Américo, também presente, um valente chouriço feito pela Alice, mulher do Gaudêncio, mulher prendada como já há poucas, e uns bons nacos de pão de trigo, cozido no forno a lenha da aldeia, assim que tomou conhecimento do caso, correu a casa a buscar a caçadeira e a munir-se dum cinturão de cartuchos de chumbo grosso, que costumava usar na caça às lebres, perdizes e faisões.
Um doido à solta nas cercanias era uma boa razão para praticar tiro ao alvo e justificar à mulher a pipa de massa, a enorme despesa que fazia constantemente com a caçadeira e os cartuchos.

Outro habitante, a tia Celestina, velhota de 86 anos cristalizados num corpo franzino, seco e raquítico, enrugado e retorcido como uma oliveira milenar, correu a esconder-se ao fundo do galinheiro, com a navalha do seu saudoso Jerónimo, que se fosse vivo depressa resolveria aquela questão, como fizera uma dia ao Coentros quando com este se travou de razões por causa daquela courela que o malandro reclamava como sua e que toda a gente sabia era do Jerónimo, tinha-a recebido do pai que a tomara de herança do avô.
Ai que saudades do seu Jerónimo, que agora estava em paz e descanso numa campa no cemitério da aldeia, depois de sofrer os mil tormentos do calvário da tuberculose e duma gangrena numa perna.
Encolhida no fundo do galinheiro, a tia Celestina apertou com força o cabo negro da grande navalha que mantinha sempre bem afiada e fixou o olhar no portão do quintal, mantendo-se atenta e alerta, pronta para a temível batalha.
Um demónio preto e fedorento de olhos vermelhos raiados de sangue, à solta, com o penduralho sequioso de pecado... Nossa Senhora! Nunca se sabe do que é capaz! E Deus é testemunha de que em tais casos nem as velhas são poupadas por esses mafarricos. Ela saberia defender a sua honra!

Quanto ao Zé Reco, após ter corrido ao longo da meia encosta da colina a nascente da aldeia, sempre nos mesmos propósitos, ou despropósitos, lá se cansou e acabou por parar, desengonçado pela fadiga.
Sentou-se numa grande pedra sobranceira à aldeia, colocou a galinha no chão ao seu lado, inspirou fundo e devagar, e suspirou longamente.
Um longo suspiro.
Olhou plácido os telhados do casario lá em baixo.

Lá estava a casa do João Borrega, enteado do presidente da junta, com a horta nas traseiras cheia de enormes couves, repleta de alfaces, cenoiras, nabos, e muito mais, e ao lado a do Sebastião Bagulho, com as macieiras carregadas de belos pomos a pedirem para serem comidos.
Lá estava um pouco mais ao longe a velha ponte de pedra sobre o ribeiro seco onde já não corria água, alguns doutores da capital que às vezes arribavam à aldeia diziam que a ponte era romana ou lá o que era por causa duma porcaria dumas lajes velhas.
Ao longe os pinheiros, castanheiros, bétulas e acácias balouçavam docemente. Por sobre elas viam-se esvoaçar pardais, verdelhões, andorinhas, e demais passarada.
Na rua principal, principal porque era a única e não havia outra, corria desengonçado o Tarzan, o grande cão serra da estrela do Adérito Florido. Com certeza tinha conseguido soltar-se porque estava sempre amarrado por uma grossa corrente de ferro no quintal do Adérito.

Ante aquela conhecida e amada paisagem, cheia de boas recordações dos seus tempos de moço, sentiu uma funda tristeza, uma pesada nostalgia, invadi-lo. Um punhal aguçado cravou-se no seu coração fazendo-o sangrar.

Levantou-se lentamente, espreguiçando-se ao mesmo tempo, e soltando um sonoro traque.
Baixou-se e agarrou a galinha depenada, que continuava no mesmo lugar, imóvel, ou não estivesse morta, e colocou-a de novo sob o braço.
Impulsionou o corpo e recomeçou a desvairada corrida gritando sempre.

— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !

Numa longa e extenuante espiral desceu o monte até desembocar na aldeia, à entrada.
Parou por breves instantes para retomar o fôlego, cuspiu para o chão a saliva grossa e seca, e reatou a corrida ao longo da rua.
Não correu nem 50 metros. Dois guardas da GNR, entretanto chamada pelo pároco, interceptaram o seu percurso e forçaram a sua paragem, metendo-se à sua frente de braços abertos.
Zé Reco obedeceu à ordem de parar. Gostava muito da Guarda, tinham fardas bem bonitas, e de qualquer forma as espingardas tinham um ar ameaçador.

Os guardas agarraram-no com força pelos braços.
O cabo tirou-lhe a galinha agarrando-a pelo pescoço, olhou-a desconsolado por não a poder comer, e atirou-a sem modos nem cerimónia para a berma. Os cães vadios e os ratos tratariam dela.
O que o acompanhava, o Laurindo, filho da tia Cremilde, olhou o Zé Reco nos olhos, olhou-o fundo nos olhos e, sem querer ver viu. Viu-lhe a alma.

Viu tudo o que o Zé Reco tinha visto lá do alto e também ele sentiu de súbito ganas de se desnudar, agarrar uma galinha, depená-la, pô-la debaixo do sovaco, e começar a correr feito louco a gritar.
Mas tinha o cabo ao seu lado... o sargento e o capitão na esquadra... Deitou fora a ideia.

Com um cobertor que tinham no jipe, obrigaram o Zé Reco a cobrir-se, enquanto este chorava baba e ranho como uma criança, acometido dum inexplicável pranto, gemendo baixinho:

— AI MÃE! AI MÃEZINHA!

Cada um deles agarrou-o por um braço torcendo-os atrás das costas dele e conduziram-o para o jipes sob o olhar dos mirones, que às portas e às janelas silenciosamente assistiam à 'operação militar'.
Empurraram-o para o banco de trás, fecharam a porta, entraram na viatura, e partiram no meio duma nuvem de poeira.

Ouviu-se o Tarzan ganir lá ao longe. No seu ganido parecia que gritava:

— AQUI D'EL REI! AQUI D'EL REI!


Oeiras, 26 JUNHO 2008
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sexta-feira, 27 de Junho de 2008

o caixote de madeira

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Recriação dum instante cujo original data de 13 de Outubro de 2002.


O CAIXOTE DE MADEIRA

O caixote foi descarregado sem grande cuidado ou preocupação e arrumado a um canto onde ficou à espera que o fossem buscar. Era um caixote vulgar, de madeira, um pouco tosco sem pinturas ou etiquetas, de formato oblongo, com talvez 1,8 m. de comprimento e 70 cm. de largura por 50 cm de altura. Ninguém ali sabia quem o tinha enviado e quem era o destinatário ou o que continha. O que sabiam os que o tinham descarregado é que ele era incrivelmente pesado, como se estivesse cheio de chumbo. Tinham sido necessários oito homens robustos, dos mais fortes, para o retirar de cima da camioneta que o transportava e colocá-lo no chão no sítio onde se encontrava agora, já que o guincho que usavam para cargas e descargas estava avariado e tinham que trabalhar à força de braços.

Imóvel e silencioso estava o caixote a um canto, quando por ele passou o guarda Severino que fazia serviço de noite, conhecido no armazém pelos camaradas pelo "cornudo do Severino". O guarda Severino podia ser cornudo, o que até se percebia com a cara de cu à paisana e o ar seboso e permanente travo a cebola que ostentava, desagradável até para a própria mulher a qual achara que o vizinho do andar de cima, que por acaso até era possuidor dum Cortina vermelho, era melhor parceiro que o legítimo para o sexo oral, a julgar pelo que se ouvia comentar de quem garantia ter visto a dita com ele, ajoelhada num esconso do prédio. O importante é que o guarda Severino até podia ser cabrão, mas era um homem honesto e não tinha o hábito de mexer em nada no armazém. Fazia disso ponto de honra.

Naquela noite escura, quando passava uma ronda a altas horas, passou perto do caixote e casualmente apontou-lhe a lanterna e olhou-o. Ao olhar para ele uma brusca pressão cresceu-lhe no plexo solar e expandiu-se pelo corpo, pulsando nas têmporas, ribombando nos ouvidos. Sentiu um desejo irreprimível, irresistível de saber o que o caixote tinha dentro. Não conseguiu perceber o que lhe tinha provocado aquele desejo tão intenso. Não foi pelo aspecto do caixote que não tinha nada de estranho no meio de tantos similares, além de que, em doze anos de serviço naquele armazém, Severino tinha visto caixotes de todas as formas, cores e feitios, nunca tendo passado por uma situação daquelas. Nunca tinha sentido qualquer curiosidade em saber o que qualquer caixote, fosse qual fosse, pudesse conter, não era da sua conta, o que era uma forma de evitar tentações e problemas que lhe poderiam custar o emprego. Mas desta vez tinha acontecido.

Parecia-lhe que uma voz lhe falava ao ouvido e lhe sussurrava para abrir o caixote. Como se fazê-lo fosse uma obrigação moral, um imperativo. Estacou especado e assustado em frente ao caixote fixando-o hesitante. Da mão escorregou e caiu-lhe a lanterna que transportava e que bateu no chão de cimento com um som estridente, estilhaçando-se o vidro e apagando-se. Na súbita penumbra, Severino deu um pulo com o susto. Abanou a cabeça como para acordar. Não hesitou mais. Correu à sala das ferramentas, muniu-se de um forte pé-de-cabra e regressou rapidamente ao caixote. Introduziu a ponta do ferro numa greta no bordo da tampa e fez força, toda a força que podia. Nem acreditava no que estava a fazer. A tampa rangeu lugubremente e saltou com grande estrondo. O guarda Severino largou a ferramenta no chão, a qual provocou um sinistro ressoar metálico no silêncio do armazém, e acercou-se para mais perto do caixote para espreitar para o interior deste. Acendeu o isqueiro e, apesar da pouca luminosidade, conseguiu ter um vislumbre do que o caixote continha.

Perfeitamente arrumados, empilhados uns nos outros, centenas, talvez milhares, de pequeninos lingotes de chumbo cinzento enchiam completamente o caixote.


Oeiras, 26 Junho 2008
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sexta-feira, 20 de Junho de 2008

barca de Caronte

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Um instante de 19 de Outubro de 2005, com ligeiros toques na ortografia. Uma brincadeira pseudo-surrealista de inspiração mitológica.


BARCA DE CARONTE

Atrevi-me. Sem bem perceber porquê, talvez um apelo insolúvel do ser que não é, atrevi-me.
Eu sabia que tinha que ir e para onde ir. Sabia-o há muito tempo. Talvez desde a última glaciação que o sabia. E sabia também com uma funda convicção que era apenas uma questão de atrevimento. Por isso, apesar de eu ser pouco atrevido, atrevi-me.
Saí daquele cubo rochoso de granito e emoções reprimidas que tinha sido a minha morada durante os últimos trezentos anos, olhei ao redor para a floresta imponente de acácias e fiz-me ao caminho. Pelo único caminho possível. O de Sueste.

Avancei pela picada, apesar de a temer minada. Contudo, eu acreditava que os meus pés sentiam a presença do solo seguro e sabiam por si mesmos escolher os pontos seguros para se apoiarem. Afinal, ora gaita!, aquela mesma picada tinha sido usada por Zaratustra quando este desceu da montanha.
De qualquer forma, não teria graça nenhuma ouvir-se (ouve-se?) um grande estrondo de súbito e o meu corpo ser espalhado em dezenas de fragmentos em todas as direcções. Não me apetecia mesmo nada. Ainda por cima, ao que sei pelo que já vi de mim mesmo, os bocados do meu corpo destroçado assemelhar-se-iam a pedaços de carne crua de galinha. É feio e não tem estética nenhuma.

Cheguei já de noite muito nocturna. Estava frio e não havia brisa nenhuma. A margem era carregada de dor moliçada sobre a areia. Ouviam-se grilos restolharem as ervas ralas e secas e correrem esbaforidos, assustados por algum ser de outro tempo. Talvez eu.

A prancha de madeira escorregadia envaginava-se literalmente na água tal era a sua inclinação. A seu lado observava-se o tenebroso e negro vulto baloiçante da gigantesca barca. Ocorreu-me que nenhum ser deste mundo seria capaz, sem ajuda, de a manobrar. Apenas forças extraterrenas o conseguiriam fazer. Ou diabólicas.

Avancei pé ante pé, cuidadosamente, temendo escorregar e cair na água negra e escura, que eu sabia infestada de lagostas corticeiras. Seria o meu fim. E seria triste. Após ter vencido a perigosa e traiçoeira picada, acabar os meus dias diarreicamente embuchado, mesmo junto à meta.
Consegui não cair e agarrei-me à amurada da embarcação. Num atlético salto digno de um olímpico saltei por cima desta e aterrei no convés.
Assim pus pela primeira e última vez o pé na barca.

Logo que o fiz uma forte dor acometeu-me as entranhas. as vísceras revolucionaram-se-me como uma assembleia de anarquistas, agitados ante a excitação das bombas. Mas procurei acalmar-me. Consegui.
Levantei a cabeça e vi-o.

Caronte olhou-me nos olhos e sorriu. Detestei o seu sorriso. Pareceu-me cínico. Como se me quisesse dizer que algo estava fora do lugar. Mas eu sabia que o cometa continuava a sua excêntrica rota sem desvios.
Apesar do nome, cometa, o pobre astro não é dado a pandeleiragem. E por isso não se desvia da rota e segue o seu rumo como uma freira vestida de negro, que ama a Cristo e não cede às tentações da carne.
Hei-de um dia tentar definir esta relação entre 'tentação' e 'carne'.

Sentei-me à espera que Caronte fizesse alguma coisa. O bruto espetou a grossa e comprida estaca no fundo lodoso e empurrou com gana.
A barca começou a mover-se lenta. A água marulhou à proa.

Olhei em torno de nós.
A escuridão envolvia-nos como um nevoeiro negro, como se alguém tivesse derramado tinta de um milhão de chocos na atmosfera.
Não se via nada. Também nada havia para ver.


Oeiras, 12 Junho 2008
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sexta-feira, 13 de Junho de 2008

o banco de jardim solitário

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Onde se situa a fronteira entre o estar e ser e o não-estar e não-ser? Talvez num instante que passa por um banco de jardim...
Recriação dum original de 14 de Julho de 1999.


O BANCO DE JARDIM SOLITÁRIO

Sentada no banco de jardim, à sombra dum enorme plátano, confortavelmente recostada, as elegantes e bem torneadas pernas cruzadas, deixando entrever ligeiramente a pele clara, jovial e macia das coxas, a jovem mulher modestamente vestida com roupa fresca adequada ao Estio, olhava fixamente em frente, parecendo esperar algo ou alguém, tal era a intensa ansiedade denotada na constância do seu olhar.

O banco onde ela estava era um banco magnífico, esplendoroso, estratégica, inteligente e apetitosamente bem colocado num jardim maravilhoso, inigualável.
Todo em fibra de carbono 3.ª geração, tinha mecanismos internos, imperceptíveis, computadorizados, de ajuste ergonómico e adaptava-se fisicamente ao peso e à configuração do corpo de quem se sentava nele.
O vetusto e matusalémico presidente da câmara não se poupava a esforços, nem poupava o dinheiro dos contribuintes, para lhes proporcionar o que de melhor e mais avançado a tecnologia tinha concebido. Por muito que isso delapidasse o erário público.
Podiam não ter mais nada, mas tinham jardins e soberbos bancos de fazer inveja!

A jovem mulher, de um pacote colorido que segurava na mão, retirava palitos de batata frita que levava à boca com ar evidente de satisfação, e que mastigava e engolia sem pressas.
Continuava com o olhar fixo em paralelo, quase não se mexia, excepção para a mão com a qual tirava as batatas do pacote e para os lábios mornos que entreabria ligeiramente para as comer.
Ali estava naquela imobilidade de quem espera e não desespera. O tempo passou lentamente.

Foi sem qualquer sinal de aviso, sem qualquer grito de dor que o corpo da jovem mulher se começou a desfazer.
Amoleceu como se feito de cera e começou a abater sobre si mesmo. A sua carne e os seus ossos liquefizeram-se, transformando-se numa pasta escura de aspecto sanguinolento que escorreu pelos interstícios para o chão pingando e formando uma poça no pavimento debaixo do banco. A roupa, vazia de um corpo, tombou nas pranchas do banco e apodreceu desfazendo-se em pó rapidamente como se por ela de súbito tivessem passado vinte séculos e desapareceu levada por uma aragem fresca de sueste que tinha vindo com o entardecer.


Da jovem mulher que comia batatas fritas sentada no banco de jardim sobrou apenas aquela poça debaixo do sítio onde ela tinha estado, poça que mesmo ela não ficou ali por muito tempo.
O jardineiro tinha chegado arrastando uma comprida e pesada mangueira preta atrás de si para regar os canteiros, mantendo vivas as plantas.
Começou a regar os canteiros com grande cuidado e atenção, e reparando na poça avermelhada sob o banco dirigiu para ela o potente jacto de água, que arrastou aquela pasta, o que restava da jovem mulher que comia batatas fritas sentada no banco de jardim, para a sarjeta de mistura com batatas que tinham caído no chão e algum lixo que escapara à passagem da vassoura automóvel.

Solitário, ficou o banco de jardim. À espera...


Oeiras, 12 Junho 2008
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sexta-feira, 6 de Junho de 2008

o barracão abandonado

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Um instante cujo original está datado de 13 de Outubro de 2002, um daqueles textos escritos pelo puro gozo de escrever, sem esquecer algumas referências pessoais...


O BARRACÃO ABANDONADO

Era uma fria manhã de inverno português. O nevoeiro cerrado espalhava-se por todo o lado como uma mortalha branca e gelada dificultando a visão. O duro vento norte, frio e cortante, soprava com força abanando as ramagens das árvores e fazendo gemer algumas mais grossas e alguns troncos. Aquele campo estava abandonado há muito tempo, muito, muito tempo, o que era perceptível no espantalho caído, no muro meio destruído e nas plantas daninhas que cresciam por todo o lado, tomando conta do campo, dos muros, dos troncos. O ar de abandono fazia daquele campo, outrora vivo e belo uma coisa fria, desolada, triste e lúgubre.

Como desolado e sinistro era o barracão de madeira que se sentia numa das margens do campo. Fora abandonado juntamente com a terra quando os homens abandonaram para sempre a agricultura natural no período da Grande Crise, deixando os campos e partindo para as cidades de aço, vidro e plástico. As ervas trepavam loucas e livres pelas suas paredes apodrecidas de muitos invernos. A porta estava fechada com uma fechadura de ferro enferrujada, carcomida pelas intempéries, da qual de vez em quando se soltavam pedaços e lascas de óxido de ferro. Ninguém entrava nele há muito tempo. Nem entraria, pois não havia quem tivesse interesse em fazê-lo ou alguém para o fazer. Por isso não existia pessoa alguma que soubesse o que lá dentro se guardava.

Várias caixas de madeira cuidadosamente empilhadas umas sobre as outras enchiam quase metade do barracão. As etiquetas que identificavam as caixas tinham-se descolado havia muitos anos devido à humidade e estavam sujas, rotas e espalhadas pelo chão. Se alguém abrisse uma daquelas caixas teria a extraordinária surpresa de encontrar dentro dela velhas garrafas escuras de vidro, de secção quadrada, das que se usavam no século vinte. E se tirasse uma dessas garrafas para fora teria a surpresa de ler no rótulo o nome Jack Daniel's...

Um nome que só teria significado para algum expert, que reconheceria aquele que era naquele tempo, sem dúvida, o melhor whiskey do Tenessee.

Oeiras, 06 Junho 2008
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sexta-feira, 30 de Maio de 2008

desejo algarvio

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Quantas vezes desde pequeninos se traça o nosso destino, enovelado numa trama que nos lançaram como rede sobre pescado...


DESEJO ALGARVIO

Tinha um secretíssimo desejo desde criança de tenra idade - quando era tenrinho, quer-se dizer.
Sonhava, desejava ardentemente, ser um Corifeu.
Ouvira a palavra, na voz grave e rouca de tonalidades prenhes de escarro amarelado de tabaco de onça, do seu avô paterno, pela primeira vez, aos 6 anitos de idade e não lhe conhecia o sentido.
Mas desde logo se apaixonou pela bela e sublime sonoridade agreste dela:

— CO-RI-FEU!

Desde esse instante interiorizou que queria ser um corifeu, sem mesmo saber o que isso era. Teria muito tempo para aprender!
Sempre que pensava na palavra as entranhas vibravam-lhe como um carrossel, ou como as rodas da carroça da tia Anica.
E quando a mãe lhe perguntava:

— Anibalzinho, o que queres ser quando fores crescidinho?

De imediato da sua boquinha minúscula e desdentada saltavam as palavras como que cuspidas contra a brisa algarvia, contra o vento quente de Suão:

— Corifeu, mãezinha! Corifeu!

Imagine-se se o avô, ao invés, tive-se dito:

—EUNUCO...


Oeiras, 15 Abril 2006
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sexta-feira, 23 de Maio de 2008

o homem fragmentado

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Há sempre na vida de cada um de nós um instante, quiçá breve, mas que alguns seres que somos poderão sentir como toda uma existência, um instante como este em que o todo se transmuta em nada.
Recriação dum original de 12out2002.


O HOMEM FRAGMENTADO
recordando O Homem Demolido de Alfred Bester

Deitado na mais completa e dura escuridão, aqueles negrumes que doem como grito rasgado em noite de nevoeiro, mergulhado num silêncio atrozmente audível, o homem sentia no corpo nu o contacto áspero, quase obsceno, do lençol.
Não era o contacto habitual. Não era o toque doce, macio e suave dos lençóis da sua cama, onde repousava todas as noites da labuta diária.
Sentia que havia algo de estranho a envolvê-lo, a amortalhá-lo, Como se um espartilho o envolvesse e lhe reprimisse os movimentos. Sentia-se fortemente abraçado por um sudário. Invisível mas perceptível.
Procurou concentrar-se no seu próprio corpo, na sua imobilidade. Focou a atenção no tacto, o único sentido que naquelas circunstâncias lhe garantia alguma certeza no contacto com o real.
A pouco e pouco sentiu que o seu corpo se fragmentava em minúsculos pedaços que iam desaparecendo dele sem que o pudesse evitar, pedaços que se soltavam impossíveis de recuperar.
Pedacinhos que a pouco e pouco se transfiguravam em grandes bocados. Não havia dúvida! O seu corpo desintegrava-se!

Num esforço mental gigantesco, titânico, tentou integrar-se, reunir as peças, os fragmentos que se soltavam, aglutiná-los num só corpo, o seu corpo de sempre, de todos os instantes, de todos os dias, de todos os prazeres e desprazeres, corpo ao qual se habituara e com o qual vivera toda a vida, mas havia algo exterior a ele que o impedia.
Havia uma força terrível e tremenda superior à sua que não deixava!
O seu corpo fragmentava-se como se fosse uma peça de porcelana mal colada, cujos pedaços, por força da gravidade, vão escorregando.
Primeiro sentiu que ficava sem pernas, sentiu que elas se separavam do corpo, e deixou de as sentir por completo.
Depois sentiu que lhe desapareciam os braços, que deixavam de existir.
Ficou reduzido ao tronco e à cabeça. Cabeça onde já nem a dor cabia.
Mas o tronco não demorou a desaparecer também no nada, seguindo o caminho do resto de si.
Estava agora reduzido à cabeça, a qual se apoiava, grotescamente tombada de lado, na almofada, solitária.
Tentou gritar mas a falta de pulmões que lhe fornecessem ar às cordas vocais impediu de sair o grito desejado.
Assim continuou imóvel a sentir os pedaços de si evolarem-se como fantasmas que nunca tivessem existido.
Sem qualquer som caíram-lhe as orelhas.
Como estava escuro não se apercebeu quando os olhos se foram também.
E atrás deles os lábios logo seguidos pelas gengivas, os dentes e a língua.

Quando o despertador de césio tocou ao amanhecer, sincronizado que estava pelo Tempo Universal Coordenado, restava apenas um crânio branco descarnado a envolver o purulento e pútrido cérebro morto, esvaziado do ser.


Oeiras, 15 Maio 2008
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sexta-feira, 16 de Maio de 2008

os deuses jogam aos dados

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Disse Albert Einstein (1879-1955) que "Deus não joga aos dados"... Não o creio. Bem pelo contrário, estou convicto que é dos humores divinos e do acaso destes que se gera o tiquetaque que move os ponteiros do relógio. É o que este instante relata, numa recriação dum original de 13 de Outubro de 2002.


OS DEUSES JOGAM AOS DADOS

Um deus ingénuo e infantil já incomoda. Agora veja-se o que acontece quando se juntam quatro deuses ingénuos e brincalhões, a quem foi dado o poder de criar à sua imagem e semelhança, ou não fossem deuses!
Raios! Quão frágil é a nossa existência, quando tudo, afinal, depende dos humores divinos!

Tudo começa no nada absoluto, no vazio infinito e eterno. Naquele nada em que nem mesmo o nada existe. Os quatro deuses, o deus do ar, o deus da água, o deus da terra e o deus do fogo encontraram-se, por acaso, e sentaram-se junto uns dos outros, enfastiados e enxofrados, sem saberem o que fazer. Os seus olhares derivavam de uns para outros, enquanto a eternidade passava com a lentidão enfadonha que só a eternidade pode ter. Foi então que o deus do ar propôs aos outros um jogo. Um jogo divino, está claro, e assim foi...

Era o vazio infinito. Primeiro surgiu o ar. E os deuses viram que o ar era bom. E o ar se fez água. E os deuses viram que a água era boa. E a água se fez terra. E os deuses viram que a terra era boa. E a terra se fez fogo. E viram os deuses que o fogo era bom. E o fogo se fez nada. E os deuses regozijaram. E os deuses viram que o nada era bom. E os deuses riram. E dançaram. E o nada era o nada. E os deuses eram bons. E os deuses fizeram o ar, fizeram a água, fizeram a terra e fizeram o fogo, a partir do nada. E os deuses viram que era bom. E colocaram a sua obra numa singularidade do nada. E o nada se fez tudo. E o tudo se fez todo. E os deuses viram que o todo era bom. E chamaram ao todo cosmos e ao nada chamaram caos. E os deuses viram que o cosmos era bom e os deuses viram que o caos era bom. E os deuses viram que eram bons. E riram muito. Gargalharam. E fundiram o caos e o cosmos. E o ser, foi. E viram os deuses que era divertido, o ser. E riram de novo. E numa rambóia alucinante confundiram a água com o ar, a terra com o fogo, o fogo com a água e esta com a terra, e o ar confundiu-se com o fogo e o caos e o cosmos fundiram-se numa confusão indescritível... E os deuses riram. E viram que era bom. Rebolaram-se no chão como doidos.

E naquela confusão surgiu o homem. E os deuses riram e gargalharam por muito tempo, pois nunca tinham criado nada tão ridículo, insignificante e divertido como o homem nu! E o próprio homem viu os deuses. E viu que os deuses eram bons e divertidos. E o homem riu. Até lhe doer a barriga. E o homem gargalhou. Até às lágrimas.
Só parou de rir quando percebeu que não era perfeito como os deuses. Sofria de hemorróidas!


Oeiras, 17 Abril 2008
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sexta-feira, 9 de Maio de 2008

destino de insecto

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Diz a canção que "O destino marca a hora".
Diz Einstein que "Deus não joga aos dados".
Mas será mesmo assim, será verdade que o futuro está 'escrito', superiormente determinado, e a nossa vontade subjectiva, quiçá os nossos humores e convicções, nada podem fazer para o contrariar? Ou é o acaso que rege o devir?
Acaso ou necessidade? Acaso. Monod dixit... e eu concordo com ele.
Este instante é uma recriação dum original de 28 de Outubro de 2002.


DESTINO DE INSECTO
ensaio para um monólogo com uma imperial e uma mosca

Um homem vulgar e solitário, de aspecto algo encardido, está sentado a uma mesa de café.
Está a beber lentamente, com pequenos golos, um copo de cerveja e a comer tremoços dum pequeno pires.
Está distraído a traçar desenhos imaginários no tampo da mesa com a água que escorreu do copo, quando uma rápida e esvoaçante mosca pousa nela, a curta distância dos tremoços.
O homem observa curioso a mosca a andar desgraciosa sobre a superfície húmida da toalha de papel.
O homem apanha a mosca com um gesto rápido e certeiro.
Pega-lhe pelas asas, segurando-as juntas entre o indicador e o polegar, enquanto ela zine e se debate para se libertar, agitando furiosamente as minúsculas e frágeis perninhas.

Apoiando o cotovelo na mesa, segura a mosca à frente do rosto olhando-a fixamente enquanto pensa em alta-voz:

— TENHO O TEU DESTINO NA PONTA DOS MEUS DEDOS.

[ pequena pausa ]

— PODIA MATAR-TE AGORA MESMO. ACABAR COM A TUA EXISTÊNCIA !

[ pausa longa ]

— NÃO SEI COMO SERÁ A TERRA DAQUI A 500 MILHÕES DE ANOS. NEM SEQUER SE AINDA EXISTIRÁ UMA TERRA...

[ pequena pausa ]

— NEM SE A ESPÉCIE HUMANA CONTINUARÁ VIVA OU TERÁ DESAPARECIDO HÁ MUITO, PARA TODO O SEMPRE E, QUEM SABE ?, SIDO SUBSTITUÍDA POR UMA OUTRA ESPÉCIE INTELIGENTE.

[ pausa muito longa ]

— UMA ESPÉCIE INTELIGENTE DA QUAL TU, ESTÚPIDA MOSCA, PODES SER UM ANCESTRAL...

[ pequena pausa ]

— SIM, QUEM SABE ?! 500 MILHÕES DE ANOS É MUITO TEMPO...

[ pequena pausa ]

— POSSO TER ENTRE OS DEDOS UM ANCESTRAL DE UM FUTURO SÓCRATES, DE UM CRISTO, DE UM HITLER...

[ pausa mais longa ]

— TENHO O TEU, DELES..., DESTINO NA PONTA DOS MEUS DEDOS.

[ pequena pausa ]

— MAS HOJE É O TEU DIA DE SORTE ! PORQUE SOU UM DISCÍPULO DE NIETZSCHE.

[ pausa ]

"NÃO É A DÚVIDA MAS A CERTEZA QUE ENLOUQUECE !"

O homem abre os dedos soltando a insignificante mosca que rapidamente voa para longe, desaparecendo no meio do fumo denso, em busca dum destino ou duma vida....


Oeiras, 24 Abril 2008

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sexta-feira, 2 de Maio de 2008

o velho levantou-se lentamente...

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Este instante da vida de um velho foi originalmente manuscrito em 31 de Março de 2001. Foi desenvolvido a posteriori em 19 de Junho de 2001 e em 11 de Outubro de 2002.
É uma daquelas estórias que demoram a adquirir uma forma acabada e definitiva. Forma que apresento hoje aqui.
O mote foi-me dado pela minha experiência pessoal, pelo contacto com uma pessoa com quem trabalhei numa gráfica em Lisboa e que inspirou o personagem aqui representado.
Não é um retrato dessa pessoa, mas sim uma elaboração feita a partir da realidade.


O VELHO LEVANTOU-SE LENTAMENTE...

O velho, ossudo e de cabelo completamente branco, magro e alquebrado, levantou-se lentamente do seu lugar fazendo ranger a vetusta cadeira de braços de madeira e acento de cabedal escuro surrado pelo uso. Compôs a gravata grenat riscada, único toque de cor que trazia vestido, ajeitou agarrando-o pelas abas o casaco preto e compôs também o relógio de pulso agitando o braço. Olhou circunspecto o tampo da secretária de madeira escura, cheio de papéis que tinha acabado metodicamente de organizar em montinhos. Pegou na pasta de cabedal preto, levantando-a do chão sem indícios de pressa. Contornou a secretária, acercou-se da porta do gabinete. Rodou o puxador e abriu-a. Com a mão livre apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.
Caminhou na lentidão dos seus 78 anos ao longo do corredor com paredes brancas de tabique e soalho de tábuas, revestido por uma carpete marroquina, silencioso, de olhos fixos no chão.
Deu as boas-noites à hirta recepcionista, sentada à secretária no pequeno hall da entrada. Mulher de meia idade de grandes mamas excessivamente maquilhada, quase silenciosa na sua quietude gordurosa. Gritantemente explosiva nas cores berrantes do seu vestuário.
Não se cruzou com mais ninguém até chegar à rua, que ia ficando sombria com o aproximar da noite. Já todos tinham saído.

Caminhou ao longo do passeio estreito e irregular, evitando os transeuntes apressados e os buracos na calçada. Os carros passavam velozes, trepidantes nos paralelepípedos de granito da rua, buzinando e expectorando fumo espesso. Condutores e peões gritavam imprecações e protestavam uns com os outros.
Dirigiu-se à estação de Metro, a uma centena de metros dali. Na mão direita conservava bem segura a velha pasta de cabedal negro já muito gasta dentro da qual transportava... sabe-se lá o quê? Ilusões? Segredos? Mentiras? Paixões? Velhas memórias de ideologias caducas?
Após um trajecto difícil mas sem percalços chegou à entrada da estação de Metro e desceu vagarosamente as escadas apoiando-se no corrimão, no que foi acompanhado por dois ou três transeuntes.

Avançou pela gare, quase deserta apesar da hora do dia, até cerca de um terço do comprimento desta. A longa prática tinha-lhe ensinado qual o melhor ponto para esperar a composição, e entrar numa carruagem na qual ficasse perto da saída ao chegar à estação de destino.
Parou à espera na imobilidade cinzenta, apenas quebrada aqui e ali por alguma fraca luz amarelada. Sabia que não iria ter que esperar muito.
O tenebroso grito lancinante do comboio inundou de súbito o subterrâneo. Anunciou a sua chegada. O comboio, como um tiro, emergiu do túnel, estacou e abriu as portas.
O velho deixou sair os passageiros que ali terminavam a viagem e só depois avançou e entrou no comboio. Escolheu um lugar e sentou-se muito direito junto à janela com a pasta sobre os joelhos.
As portas fecharam ao som da buzina. O comboio arrancou estridente, trepidando numa aceleração crescente, e invaginou-se no túnel negro à sua frente, como uma serpente, perdendo-se sob a cidade palpitante, cardíaca.


Oeiras, 25 Março 2008
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sexta-feira, 25 de Abril de 2008

da vida de um cretino

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O governo e a Banca agradecem este instante...
Recriação dum original de 12 de Outubro de 2002.



DA VIDA DE UM CRETINO

Tinha parado o carrinho de compras, tristemente meio vazio — ou meio cheio?! —, naquele corredor, cansado de o empurrar e de não saber que mais comprar.
Tinha esgotado a lista de compras que laboriosamente fizera em casa, com a sua típica letra miudinha de escriturário, numa pequena folha de bloco.
Ao longo dos dias ia anotando as faltas que tinha em casa, além de outras coisas de que se ia lembrando, por vezes ocorrência do acaso, da inspiração súbita, ou apetites repentinos, anotações que posteriormente juntava e passava a limpo para uma daquelas folhas dum bloco adquirido propositadamente para o efeito.

— NÃO POSSO VOLTAR PARA CASA COM MEIA DÚZIA DE COMPRITAS... NEM PENSAR! - Cogitou, incomodado com a sinistra e confrangedora ideia. Um arrepio angustiante percorreu-o de cima abaixo.

Só vinha ao hiper duas vezes por mês e levava sempre doze ou treze sacos de plástico repletos de caixas disto, embalagens daquilo, rolos de não sei quê, pacotes de não sei que mais.
Tinha mesmo trocado de carro para um outro maior e mais espaçoso, no qual conseguia transportar os sacos todos, ao invés do que acontecia com o seu velhinho Fiat, que o obrigava a deixar guardados no snack-bar metade dos sacos e a fazer duas viagens.
Enfim, dois terços do seu parco vencimento lá ficavam todos os meses.
Assim era, assim tinha de ser.

Se não cumprisse essa meta como é que ia conseguir manter as contas em dia e o orçamento desequilibrado? Não sabia viver com um orçamento equilibrado!
Causava-lhe uma profunda e angustiante estranheza saber que gente havia que o conseguia. Um orçamento equilibrado era uma coisa do demo, de belzebu!
Tinha de o desequilibrar desse lá por onde desse, comprasse o que comprasse!
E enquanto os seus supliciados miolos fervilhavam à procura de uma solução olhou para o lado e viu-os.

Sob as muitas e bem recheadas prateleiras, que enchiam de alto a baixo a enorme estante, pendurados nos finos suportes de metal, os blisters multicoloridos, sinfonia esfuziante de matizes, cheios de letras enérgicas, vibrantes, e desenhos gritantes, olhavam sedutora, incisiva e apelativamente para ele. O supremo génio criativo dos designers tinha transmutado o singelo cartão e plástico num canto de sereia. Inebriante e irresistível.
A pregnância invadiu as suas pupilas e cravou-se-lhe no espírito com a força duma marretada.
Centenas de blisters! Lindos! Ali mesmo ao seu lado prontos a serem adquiridos!

Olhou à volta para avaliar as hipóteses de outros clientes deitarem a unha a algum.
Os que estavam perto estavam suficientemente longe da prateleira para não terem tempo de o ultrapassar. Tal como acontecia com a velhota coxa que apoiada numa bengala caminhava lentamente na direcção dele. Era a cliente que mais perto estava, mas àquela velocidade nunca conseguiria lá chegar primeiro.
Num salto rápido e atlético, como um gafanhoto, aproximou-se e começou rapidamente a tirar os blisters dos suportes. Dois a dois, três a três, às mãos cheias, atirou-os para dentro do carrinho a trouxe-mouxe.
Rapidamente esvaziou por completo a prateleira, respirou fundo, alegre, e aliviado, com ar triunfal, agarrou a pega e conduziu velozmente o carrinho até à caixa registadora.
Colocou as compras no tapete rolante olhando de soslaio para os outros clientes, numa atitude prenhe de orgulho e sentimento de vitória. Pagou com o cartão de crédito, como de costume. Ensacou as compras e saiu da grande superfície em direcção ao estacionamento. Colocou os sacos no porta-bagagens, entrou na viatura e foi para casa.

Com cento e cinquenta blisters, cada um com cinco pequenas borrachas escolares coloridas, cada qual da sua cor.
Era agora o possuidor de setecentas e cinquenta estúpidas borrachinhas que não lhe serviam para nada. Mas conseguira!!
Este mês ia ficar outra vez com dificuldades económicas. Ia ficar outra vez endividado e com a corda ao pescoço.
Viver não custa...


Oeiras, 17 Abril 2008
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sábado, 19 de Abril de 2008

Russell Edson em Coimbra [ ovni ]

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recebido por email:

CLIQUE PARA AMPLIAR

"O Espelho Atormentado"
Russell Edson
- Coimbra -

É já na próxima quarta-feira, dia 23 de Abril, às 21h, que regressamos aos encontros OVNI, com a apresentação de O ESPELHO ATORMENTADO, de Russell Edson, na livraria Almedina do Estádio Cidade de Coimbra.

O encontro enquadra-se na celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor e contará com intervenções do grupo Camaleão, que já encenou textos de Edson em Coimbra, e de Graça Capinha, professora da Faculdade de Letras de Coimbra e directora do Instituto de Estudos Norte-Americanos da Universidade e da revista Oficina de Poesia. O tradutor, Guilherme Mendonça, tem participação ainda por confirmar.
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Instante MIL

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Hoje, 19 de Abril de 2008 pelas 02:38:43 am. atingimos a fasquia dos

1000
visitantes

com um leitor de Redwood City, Califórnia, USA.

A TODOS os que nos têm visitado o nosso MUITO OBRIGADO!!

CLIQUE PARA AMPLIAR
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sexta-feira, 18 de Abril de 2008

falta de ar

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Um instante um pouco kafquiano, mas possível.
Afinal, quem pode dizer de modo absoluto quais os contornos da realidade? Do possível e do impossível?

Original de 17 de Outubro de 2001.



FALTA DE AR

— CHEGA DE TELEVISÃO POR HOJE! — Pensou, ao mesmo tempo que se levantava a custo do sofá de napa, excessivamente mole, onde estava afundado, piscava os olhos cansados, a requerer uma ida ao oftalmologista, estendia o braço e desligava o aparelho catódico, do qual a imagem se sumiu como que sugada por uma palhinha invisível e sôfrega.

Olhou atentamente ao derredor da sala agora penumbrosa, espreguiçando-se e verificando se havia mais alguma coisa ligada além da ténue iluminação do tecto, iluminação, aliás, constituída apenas por uma lâmpada fraca e amarelada cujo suporte estava pendurado pelo próprio fio de corrente, há muitos anos. Fora adiando e continuava a adiar para o dia seguinte a compra e instalação dum candeeiro ou um abat-jour.
O computador Macintosh, máquina de eleição e estimação, apoiado em cima da secretária, ao canto, estava em standby como de costume.
Tinha estado a finalizar um texto sobre as agressões ao património histórico e cultural que estavam a acontecer na sua freguesia, muitos deles da responsabilidade da própria autarquia, texto este que pretendia publicar num blog do qual era colaborador, acompanhando o mesmo com algumas fotografias ilustrativas. Amanhã trataria de o fazer.
Desligou também o Mac. Não ia precisar dele pela certa, visto que se ia deitar.

Saiu da sala apagando a luz, deixando a dependência numa escuridão apenas entrecortada pelo clarão que vinha dos candeeiros de iluminação pública da rua e os flashes que varriam as paredes, causados pelos faróis dos automóveis que passavam.
Deixou a porta da sala aberta para trás.
Era um apologista do open space e, à falta dele, tinha por hábito ter todas as portas dentro de casa abertas de par em par.
Isto dava-lhe uma sensação de espaço e liberdade, da casa ser maior, além da vantagem de a arejar.
Ia ao extremo de ter sempre a porta da varanda aberta, mesmo no Inverno, mesmo em dias e noites em que chovia torrencialmente, fazia frio e trovejava.
Gostava desse contacto com os elementos.

Claro que pagava o preço... a água da chuva molhava o chão da sala junto à porta da varanda e os tacos do soalho já não tinham um aspecto lá muito saudável...
Mas era agradável e recompensador, sobretudo em noites de grande temporal e trovoada. Aquela dicotomia fazia-o sentir-se bem e confortável.
Estar dentro da sala no conforto, debaixo da asa protectora, ao mesmo tempo que ouvia os trovões e a chuva, via o relampejar e sentia o frio que vinha da rua pela porta aberta!
Era uma sensação única! Sentia-se vivo!

Dirigiu-se ao quarto para se deitar e entrou pela porta aberta.
Acendeu a luz, avançou o corpo na direcção do leito e o seu coração deu um pulo!
Sentiu um estranho arrepio na nuca e um baque rasgou-lhe o coração acelerando-o.
No lugar habitualmente ocupado pela cama estava um enorme tanque de vidro translúcido e levemente azulado cheio de água clara e transparente!
Sentiu uma terrível falta de ar tomar conta do seu ser. Não conseguia respirar!
Por mais que se esforçasse para encher o corpo do desejado oxigénio, não o conseguia. Asfixiava!
Libertou-se rapidamente da roupa que o atrapalhava, largando-a a trouxe-mouxe no chão, e num fantástico salto mergulhou no tanque esparrinhando água pelo chão e pelas paredes.
Abriu a boca sofregamente e sorveu com força a água salvadora.
A água entrou na sua boca, passou célere pela garganta e pelas suas guelras cujos opérculos abriram e fecharam rápida e violentamente, e libertou o necessário, urgente, oxigénio!
Acalmou, moderou a respiração borbulhando docemente na água do tanque, serenou, e sentindo-se mais tranquilo estendeu o braço e apagou a luz, fechou os olhos e adormeceu no silêncio da noite calma.


Oeiras, 27 Março 2008
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domingo, 13 de Abril de 2008

"Os Jardins do Éden" de Carlos Bueno

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CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR


OS JARDINS DO ÉDEN


Peça de Teatro Narrativa em sonetos Erótico-satíricos em 3 Actos,
da autoria do poeta oeirense

Carlos Santos Bueno
que por sua livre iniciativa, numa edição de autor, em boa hora deu esta obra à estampa para fruição de todos os que amam a boa poesia e o teatro.

Estivemos hoje na agradável festa de apresentação e lançamento do livro, na aprazível esplanada do pub Beer Hunter, em Oeiras.
Do texto de introdução da obra, lemos: "Peça em três actos que nos conta uma fantasia erótico satírica de uma imaginação profícua, mas delirante, cujo alter ego se projecta em Jesus Cristo criando fantasias transbordantes de ironia e sátira em que história e fantasia se cruzam e confundem num torvelinho louco e inesperado. (...)"

imagens:
CAPA - Gentilmente cedida para este post. Agradecemos.
FOTO: © josé antónio / comunicação visual.

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sexta-feira, 11 de Abril de 2008

hemorróida hodierna

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O mundo pode ser diferente substancialmente, para melhor... com se vai ver.
Já o acreditava em 22 de Abril de 2005, quando escrevi esta expirada prosa, e continuo a acreditar.

Este é um curto instante polvilhado duns pózinhos de metafísica, e algum delirium tremens já agora, pois a existência, que segundo o Jean-Paul precede a essência, a existência dizia não se escreve apenas com tinta de choco em papel caiado.



HEMORRÓIDA HODIERNA

A manhã acordara nublada, fria e ventosa. O tecto de nuvens escuras, que ocultava o habitualmente inclemente Sol, acachapava-se a pouca altitude sobre o ritmo trepidante de mais um dia de trabalho. Ou de labuta, como alguns preferem dizer, vá-se lá saber porquê.
Os objectos, equipamentos, motores, máquinas, veículos, entes contra-natura feitos para apressar a pressa de chegar depressa ao fim, acelerar o gume da gadanha, pulsavam, crepitavam, guinchavam, cuspiam, roncavam, trepidavam, gemiam, grilavam, bufavam, vibravam, numa orgia matinal costumeira e useira, como estúpidas baratas tontas.
Mas as baratas tontas mesmo, não eram os objectos. Eram as pessoas. Baratas enfarpeladas e fétidas a exalar falsas essências matinais. Enxame de sexos envergonhados. Tesões escondidos nos almíscares de marca.
As baratinhas cheirosinhas cirandavam como loucas. Há que cumprir os horários. Mesmo que não se faça nada. Não é o trabalho que o patrãozinho paga. É a assiduidade... o resto que se foda!

Foi neste clima cinzento e com este estado de espírito merdoso que saí de casa e cheguei à rua. Estranhamente, ou talvez não, veio-me ao espírito o nome Afrodite.
Senti o súbito impulso de voltar para casa, despir-me, deitar-me na cama, talvez ainda estivesse docemente morna, e deixar-me mergulhar no sono e no sonho. Sonhar com outro mundo. Um mundo mutável, realmente. Um mundo em que cada vez que eu olhasse para o lado, as coisas tivessem mudado de sítio e o espaço fosse diferente. Ou nem sequer houvesse espaço... Em que me deitasse e a mesa-de-cabeceira estivesse ao lado da cama, mas quando acordasse ela estivesse, por exemplo, na cozinha ou sobre o bidé.

Porque é que a merda do Sol há-de pôr-se e nascer todos os dias?! Porque carga d'água é que o filho dum cabrão não varia, e um dia põe-se e não nasce no dia seguinte, e noutro dia nasce mas não se põe, etc., e por aí afora?!
A vida teria muito mais interesse num mundo em permanente mutação! Todos os dias, a todo o instante, tínhamos uma coisa nova para dar alegria à nossa existência lúbrica e escorregadia. Viveríamos um mundo realmente gaio!
Mas não. Vivemos num mundo estuporado onde as mudanças são tão lentas, que demoram milénios, milhões, e nem as conseguimos percepcionar.
A impressão de mudança e movimento que temos não passa duma ingénua ilusão.

O mundo não teria muito mais graça se um cro-magnon se deitasse hoje com uma 'cro-magnona', desse uma queca cavalar, transpirada e bem peluda, adormecesse, e amanhã acordasse ao lado duma sapiens? Ou um gajo, escriturário, sair às 18 h. da empresa, ir para casa, no dia seguinte ir de novo trabalhar, e o porteiro dizer "Bom dia, como está Sr. Director?" Ou, para quem gosta de carros, estacionar o Fiat Uno à porta da pastelaria, e ao sair ter lá um Testarossa? Era do caneco, porra!
Sobretudo porque neste mundo de evolução rápida, de ultra-mutação, qualquer mudança seria sempre para melhor. Uma determinada lei física impediria qualquer forma de regressão.

Acordei das minhas divagações idiotas com o barulho ensurdecedor da travagem da camioneta, que arrimava a paragem, sonolenta. Olhei para a bandeira da mesma, para saber o destino. Em garrafais letras amarelas, ao lado do número da carreira, pude ler:

— IMPERATIVO CATEGÓRICO!


Oeiras, 06 Abril 2008
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quinta-feira, 3 de Abril de 2008

o restaurante da Jaquina

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Este instante foi escrito na sua versão original em 16 de Março de 2004.
Agora vê a luz do dia reescrito numa versão mais desenvolvida e, espero, mais divertida.
É um clássico, pelo menos nas três palavras com que começa a estória: "Era Uma Vez..."


O RESTAURANTE DA JAQUINA

Era uma vez... Uma menina muito feiinha.

Era tão feia, tão feia, que todos lhe chamavam 'cagona'.
Não que fosse uma criança pedante ou convencida, casos em que se costuma utilizar tal adjectivação. Não, nada disso. Era mesmo e só por ser muitíssimo feia.
Estatura um pouco baixa para a idade, gorda numas zonas do corpo e magra noutras, com braços demasiado curtos e pernas gordas, cambadas, os joelhos eram estranhamente ossudos. As suas nádegas eram grandes como duas melancias, acima das quais, um pouco abaixo do pescoço, uma giba dava os primeiros sinais de vida. Tinha cabelo amarelado, terroso, e rebelde que, mesmo depois de lavado, parecia sempre sujo, a enquadrar um rosto acnoso preenchido por um par de olhos de carneiro mal-morto, um nariz largo e adunco com uma verruga na aba direita, um par de orelhas das chamadas 'de abano', e uma boca de lábios grossos e carnudos cor de figo, lascivos, invulgares em alguém tão jovem. A sua pele, sempre vermelhusca, contribuía grandemente para lhe dar um ar de saloia e andava sempre cheia de mazelas e nódoas negras.
Afrodite estava certamente ocupada com outros afazeres - os deuses são gente muito trabalhadeira - no instante em que o desabrido espermatozóide paterno cravou a cabecita no pudente óvulo materno.

— CAGONA! CAGONA! CAGONA! JAQUINA CAGONA, CAGALHONA! CARA DE CU, CARA DE CONA! — apupavam na escola primária as outras crianças. As bem educadas porque o que diziam as outras, os filhos dos campónios, escusamo-nos de referir...

Ela reagia com se calcula. Reagia à pedrada! Dentro do possível, que os seus bracinhos curtos e corpo desequilibrado não lhe permitiam grande pontaria.
Mas lá ia conseguindo de vez em quando partir uma ou outra cabeça, cujo legítimo proprietário desatava numa correria danada em direcção a casa, a pingar sangue da moleirinha, e num berreiro que parecia de cabrito perdido, a gritar pela progenitora. E muitos deles, de facto, tinham umas mães que eram umas cabras...
Depois? Bem, depois lá vinha um valente par de bofetadas - por só ter acertado uma pedrada naqueles filhos da puta...

O nome verdadeiro dela era Maria Joaquina Simões da Purificação Abreu e a mãe dela era a dona Manuela Evangelista da Purificação, a 'Nela Maneleira das Fífias', que tinha uma banca de frutas na Praça de Oeiras, e que também vendia castanhas assadas e tremoços nas épocas. O pai era o sor Manuel Simões Abreu, o Manel Abreu "ABRE O CU QUE LÁ VOU EU", como diziam os catraios, o que o fazia perder as estribeiras e, no meio duma tremenda expectoração e insultos, atirar na direcção deles tudo o que tivesse à mão, nem que fossem as verrumas, os formões ou os martelos, serrotes e tábuas, e que era marceneiro de madeiras e similares com carteira profissional e tudo.

A menina cresceu e fez-se mulher.
Acontece a todas as meninas. Crescem e fazem-se mulheres.
Feia que nem um cu à paisana, mas mulher! Mulher feia. Feita.
Melhor dizendo, na verdade os amigos dela, e alguns camionistas que paravam na bomba do Sebastião para abastecer e petiscavam no tasco da Rata, é que a fizeram mulher.
E o quanto eles se esforçaram para isso! Empenharam-se esforçadamente nessa tarefa, às vezes até em grupo e à vez. Aliás, ninguém como os amigos dela para lhe gabarem as beiças generosas, as tetas vivazes, a badófia gordurosa - que ganhou o epíteto de 'três cus' - e outros atributos que muito contribuiram para que esses amigos passassem a acreditar que existia um Deus.

Um dia ela, com dinheiro que ganhara a ajudar a mãe na banca da praça e na venda das castanhas, tremoços e amendoins, abriu um pequeno restaurante - talvez por ter tomado o gosto de abrir alguma coisa...
Numa velha casa térrea a cair aos pedaços e que já ninguém habitava, porque a velhota que lá morara tinha morrido há muito e a casa era usada como abrigo por drogados e gente sem abrigo que nela pernoitava. Casa que um dia um herdeiro da velhota, um advogado a viver no Fundão, tinha posto à venda.
Ela ia a passar e viu na casa o cartaz pendurado que anunciava a venda e decidiu aproveitar a oportunidade.
Telefonou para o número de telefone que estava no cartaz, falou com o vendedor, acertaram o preço, fizeram a escritura e ela ficou proprietária da casa.
Claro que foi só o começo. Foi preciso tratar dum monte de papelada e gastar mais uma montanha de dinheiro e tempo, até a casa estar arranjada em condições e o modesto restaurante pronto para ser inaugurado e entrar em funcionamento. Mas lá aconteceu.
Jaquina, fazendo jus ao seu passado e ao jeito de homenagem a todos os seus amigos pôs ao restaurante um nome bem bonito:

"RESTAURANTE JAQUINA CAGONA - VINHOS E PETISCOS".


Oeiras, 22 Março 2008
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sexta-feira, 28 de Março de 2008

tomate desgraçado

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Este instante da vida de um tomate, que me foi contado na primeira pessoa numa noite em que ao balcão dum bar de alterne trocava confidências com o desconhecido do lado, aquecidos que ambos estávamos pelo uísque de 12 anos, marado, foi escrito às 03:04 do dia 10 de Outubro de 2002.
Quando releio a estória e reflicto sobre o assunto, surpreende-me sempre o paralelismo existencial entre a vida de um desgraçado de um tomate e as nossas próprias vidas.
Concluo que afinal todos somos tomates...


TOMATE DESGRAÇADO

Aquele coitado daquele tomate tinha uma vida desgraçada.
Ao nascer tinha sido logo mal fadado.
Fora um pequeno e indefeso tomatinho verdinho, pendurado pelo seu pedúnculozinho no tomateiro, no meio daquele tomatal imenso, carregado de irmãos e primos seus. Eram uma grande família!
De dia ali ficava pendurado, protegendo-se do duro sol abrasador debaixo das folhas, passando o tempo a olhar em volta apreciando a paisagem, conversando com a família (telepaticamente claro, pois como toda a gente sabe os tomates não têm boca e falam uns com os outros por telepatia).
O tempo ia correndo e ele ia aguardando serenamente o dia em que, quando quase todos estivessem mais vermelhinhos, viessem até eles as mulheres de mãos grossas e calejadas com unhas sujas de terra. Uma delas arrancá-lo-ia do pezinho, atirá-lo-ia para uma caixa com os seus irmãos.
Levariam caixas e caixas cheias de tomates para cima de uma galera puxada por um tractor para os levarem para a fábrica do alemão, onde eram submetidos a terríveis humilhações até, por fim, serem enlatados.
Mas aí, em trânsito, é que estava a chance!
Não se podendo soltar sozinhos do tomateiro, aguardavam esse dia em que as boas mulheres os libertavam para, durante o transporte, aproveitando uma distracção do trabalhador, os mais afoitos saltarem para a estrada e fugirem da escravidão eterna rumo à liberdade.
Os que não queriam arriscar, claro que acabavam nas prateleiras dos supermercados, esmagadinhos e muito apertadinhos dentro de latinhas com rótulos multicoloridos que quase invariavelmente diziam “polpa de tomate”.

Mas ele tinha sido mal fadado.
Um dia um garoto descuidado que brincava com os colegas da escola passara a correr no tomatal pelo meio dos tomateiros e dera-lhe uma porra dum encontrão com a perna que ele ficara logo com uma mossa de lado. Ficou marcado com essa cicatriz para sempre!
Numa outra ocasião fora uma cobra que andava a passear pelo tomatal que se enroscara nele e quase o esmagara. Passou a sofrer de asma!
Já para não falar nos mosquitos devido aos quais apanhara sezões e quase morrera. As marcas lá estavam na sua pele! Mas enfim, apesar dos percalços crescera, avermelhara. Além disso a mulher que o colheu não estava para ter muito trabalho a escolher senão, com tantas marcas, não o teria colhido. A verdade é que o retirou do tomateiro e o atirou para uma das caixas. Assim teve a sua chance.
E aproveitou-a seguindo o exemplo dos outros. Numa curva da estrada saltou da caixa e deixou-se cair e rolar para a berma. Por uma unha negra não foi esborrachado por um automóvel que seguia atrás do tractor!
Mas safou-se e lá se pisgou e fez à vida.

Arranjou um emprego num escritório, alugou um T0 num bairro de subúrbio, fez amigos, frequentou cafés, bares e discotecas, arranjou uma namorada, ou deixou-se ‘arranjar’ por ela, casou pela igreja e teve filhos.
A princípio tudo ia bem, mas... ele tinha sido mal fadado!
A tomata abandonou-o e partiu para parte incerta com um tomate muito mais maduro que ele. E também muito mais cheio de bago.
Assim ficou sozinho com os tomatinhos, ainda pequeninos, ainda verdinhos.
Era pai e mãe ao mesmo tempo, o que não era nada fácil. Eram dois, um casalinho de tomatinhos pequenitos, muito verdinhos, tenrinhos e de pele muito macia.
O tomatito prometia. Era bom estudante, deitava-se e levantava-se cedo, alimentava-se bem, talvez viesse a ser deputado no Parlamento Europeu.
A tomatita é que era um caso um pouco, talvez muito, bicudo. Tinha más notas porque não estudava nada, usava roupas extravagantes, estava magríssima pois não comia em condições, andava sempre em festas e ele tinha-a mesmo apanhado a fumar! Indisciplinada e rebelde, não augurava nada de bom.

Certamente ia acabar comida!


Oeiras, 10 Outubro 2002
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quarta-feira, 26 de Março de 2008

Menina Marota - boas novas!

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recebido por e-mail:
a todos os que partilharam comigo os meus blogues, especialmente com os seus trabalhos, os mesmos ficarão para memória futura, em vossa honra.
Um abraço carinhoso

Em meu nome pessoal e, porque não, em nome de todos os que AMAM a LITERATURA e a POESIA, um grande OBRIGADO.

BEM HAJAS !!
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sábado, 22 de Março de 2008

Menina Marota

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Caros Visitantes
Lamentamos informar que os diversos blogs da
Menina Marota,
maioritariamente dedicados à Poesia,
por decisão da sua autora,
já não existem na blogosfera.

Por esse motivo, os respectivos links foram removidos do banner lateral deste blog.

À Menina Marota os nossos sinceros Votos de FELICIDADE
e que BONS VENTOS a tragam de novo ao nosso convívio!


Já estamos com saudadinhas...
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sexta-feira, 21 de Março de 2008

Hora da Janta

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Há dias assim, em que as coisas parecem estar a correr iguais a si mesmas como se o devir fosse uma ilusão, mas em que de súbito o dia muda de rumo sem aviso prévio, como uma greve selvagem em época revolucionária.
A qualquer momento o inesperado pode acontecer. Pode surgir, por exemplo, à hora da janta...



HORA DA JANTA

A Lucinda, dita 'a dos marzápios', também há quem a chame 'das chotas', segundo a vizinhança pelo gosto oral que por elas tem e não esconde de ninguém, gabando-se até de ninguém saber "resolver o assunto tão bem como ela, que o faz desde a Primária a troco de rebuçados e pastilhas"... A Lucinda, mulher gordurosa e feia como um carro de bois, com um cabelo a lembrar um vasculho, desgrenhado e emporcalhado, abana a peidola balofa e gelatinosa no banco em que vai sentada, acompanhando os balanços e a trepidação do autocarro. As manchas, nódoas e alguns remendos na roupa puída denunciam a sua origem e condição.
Entre as pernas sardentas, espessas e varicosas, joelhos encostados, irmanados num estranho acto inverosímil de pudor, entala numa atitude quase lasciva dois sacos plásticos do supermercado Mini Preço, a transbordar de legumes. Couves, alfaces, chicórias, cenouras, tomates, nabos e nabiças, enchem o saco impossibilitados de fugir.
Pela janela do seu lado direito vê os chuviscos que caem lá fora. Chuvisca na cidade escura.
O autocarro pára, imobiliza-se na paragem, alguém carregou no botão de parar, coisa que ela já esperava que acontecesse. Costuma ficar à coca a ver se alguém toca poupando assim a si própria a trabalheira de o fazer. Habitualmente tem sorte e resulta. É raro ter que ser ela a carregar no botão. Os outros que se dêem a esse trabalho, porra!

Lucinda agarra pelas orelhas os sacos das compras, levanta-se e dando encontrões aos passageiros que estão de pé, sem se desculpar, praguejando entre dentes dando a entender que a culpa dos safanões e pisadelas é dos outros que não se desviam pois são uns cabrões ordinários, chega à porta e desce para a rua molhada e escorregadia, no pardo anoitecer outonal.
Continua a chuviscar, agora mais intensamente, ou não fosse ela uma azarada do caralho! Pragueja de novo, desta vez contra o São Pedro, que a olha lá do alto, escondido atrás duma nuvem cinzenta quase negra, que exclama:

— Puta dum cabrão! Se chove é porque chove, se está sol é porque faz calor! Porra, vá um gajo perceber as gajas! Santa paciência! Não há pachorra!


Lucinda, procura escapar da chuva e corre agora na direcção do prédio onde mora e que fica ali quase em frente da paragem. Os sacos balanceiam nas suas mãos e batem-lhe nas coxas.
Ocorre-lhe um pensamento:

— Gosto mais quando as pancadas são na parte de dentro das minhas pernas!


Finalmente, após a curta corrida desengonçada, alcança esbaforida e ensopada a velha porta de ferro pintada de verde, do prédio onde mora, edifício de 5 pisos degradado e caduco, com a pintura da fachada de cor já indefinida a cair e com pedaços de argamassa a esboroarem-se para a calçada.
Ao entrar, não repara e pisa um cagalhão de cão, o que quase a faz escorregar e cair. Grita impropérios contra a Alzira, a vizinha do 3.º esquerdo, que é viúva e vive sozinha, e tem um canzarrão preto enorme que passeia todos os dias em frente ao prédio, e que até há quem jure a pés juntos que ela faz porcarias com o cão, a badalhoca! Ainda se o fizesse para ganhar dinheiro, vá que não vá...

Colocando-se de lado, com o ombro empurra a porta, que chia lugubremente a pedir óleo nas dobradiças, entra no átrio húmido e escuro revestido de tristes azulejos estampados dos anos 40, e evita pisar a enorme poça de água da chuva que vem da rua e passa sob a porta aproveitando o piso inclinado. Contorna a poça, roçagando um dos sacos pela parede.
Sobe a escada de degraus de madeira suja e carcomida e desengonçados até ao 1.º andar, habita no direito, onde pára. Coloca os sacos no chão com um suspiro de alívio, tira com alguma dificuldade a chave do bolso do blusão de plástico, deixando cair no chão o lenço ranhoso que veio agarrado às chaves e que apanha e mete de novo no bolso, abre a porta e, pegando novamente nos sacos, entra em casa, empurrando a porta com a biqueira do sapato. O sapato do presente canino, por acaso, que de imediato deixa uma pequena nódoa acastanhada no tapete da entrada.

A casa, como seria de esperar, dizer 'modesta' é pouco...
Os móveis são velhos e carunchosos. Nota-se que é conveniente não lhes tocar. Um aparador, logo após a entrada, tem uma porta segura com uma corda de nylon cuja ponta, engenhosamente, enrodilha num prego, genialmente pregado ao bordo, a fazer de fechadura.
A carpete, fixa ao chão com sinistras tachas de cabeça negra, que devia poupar o soalho, nem a si própria se consegue poupar, a julgar pelos buracos que apresenta espalhados aqui e ali nas zonas de mais frequente passagem e pela cor que já nada tem a ver com a original. A prateleira meio inclinada pregada à parede do lado direito, inundada de molduras com fotografias antigas e descoradas, cheia com pequenas figurinhas de toda a espécie e origem, talvez memórias de feiras e romarias, bibelots de gosto duvidoso, objectos inidentificáveis e proveniência desconhecida, contribuem para dar à dependência um ar de bazar marroquino. Assim como o cheiro a mofo.
A imagem, daquelas que brilham no escuro, duma Na. Sra. de Fátima numa prateleirinha fixa à parede oposta, a esquerda, ao lado dum enorme quadro multicolor com o emblema do Benfica, não deixa margem para dúvidas. Ali respira-se santidade e idolatria!

Lucinda segue em frente e passa pela sala, único caminho para a cozinha, assim como para a casa de banho e para o único quarto da casa. Sala onde está o marido, o Orlindo, um homem espesso e cabeludo com ar de labrego, barba por desfazer, ainda de pijama, que de vez em quando trabalha nas obras - que de vez em quando trabalha... - espojado ao comprido no sofá a beber cerveja duma lata, rodeado de latas vazias e amachucadas, e a ver futebol na RTP1.
Jogam o Benfica e o Porto. Pela cara dele o resultado não lhe está a agradar nada:

— Foda-se, caralho! Não me digam que estes cabrões vão perder o jogo! Ao menos empatem, porra, que estão a jogar em casa!


Ela pára, olha a televisão, olha para ele, que quase não lhe liga, trocam algumas palavras, mas ela nem refere o jogo para a conversa não azedar. Ela sabe o que a casa gasta e ainda não se esqueceu do último olho negro...

O Orlindo é um lampião ferrenho e "quem não é do Benfica não é bom chefe de família" segundo ele. E assim ela limita-se praticamente a dizer-lhe que vai fazer o jantar e dirige-se para a cozinha com os sacos.

Tira os legumes dos sacos, os quais colocou sobre a bancada, e enfia um deles na cabeça, começando a cantarolar "Eu tenho dois amores" de Marco Paulo, ao mesmo tempo que coloca duas pequenas cenouras nas narinas e dois rabanetes nos ouvidos.
Abre uma custosa gaveta que lhe deixa o puxador na mão, o qual volta a enfiar nos parafusos, escolhe uma faca bem afiada, uma das poucas coisas que ainda funcionam bem lá em casa, e começa a preparar os legumes continuando a cantarolar.
O casal de canários que está na gaiola pendurada por sobre o tanque de lavar a roupa na marquise acompanha-a, trilando. A um canário tanto se lhe dá que a cantora seja a Lucinda ou a Edith Piaf, que o mote seja Marco Paulo ou Jacques Brel...
Está a boa da Lucinda a lavar as folhas de couve debaixo da água fria que corre da torneira, quando um urro horrível e lancinante acompanhado dum estrondo surdo, vindo da sala, a faz dar um pulo de susto e atirar pelo ar as folhas de couve.

— AI, MEU DEUS! AI, NOSSA SENHORA! PUTA QUE PARIU!

Limpa rapidamente as mãos ao trapo e corre para a sala, rezando para que o seu Orlindo não se tenha passado à conta do maldito jogo, a merda da bola, e não tenha partido a televisão.
À conta dos passanços com as derrotas das Papoilas Saltitantes, só nos dois meses anteriores tinham substituído três televisores... A sorte é que o primo do Orlindo, o Nelo Tocabaixinho, anda no 'trabalhinho' e desenrasca umas televisões Sony baratuchas, senão não tinham dinheiro que chegasse para aquele 'filme'.

Chega à sala e o que vê enche-a-a de pavor.
Um horror indescritível toma conta dela e quase a faz mijar-se pelas pernas abaixo com o choque.
O Orlindo está completamente nu, como veio ao mundo, com a gorda e branca pança a abanar para cima e para baixo, e os penduricalhos a balouçar, em cima da mesa... a dançar o Kalinka!

— A MESA QUE A MINHA SANTA MÃE QUE DEUS TENHA EM DESCANSO NOS DEU DE PRENDA DE CASAMENTO Ó ORLINDO!! —grita, horrorizada.

— KA LIN... KA KA LIN... KA KA LIN... KA KA YA! — canta e dança Orlindo.

— Quê, o Benfica meteu golo? Ganhou o jogo? — pergunta Lucinda, um pouco a medo e receosa da resposta e da reacção.

— QUAL BENFICA QUAL CARALHO, MULHER! — explode Orlindo sem interromper a pantomima — Interromperam o jogo para uma notícia importante, qualquer coisa do estado, para dizerem QUE O BOIZANAS FOI CORRIDO, QUE JÁ NÃO É PRIMEIRO-MINISTRO E QUE O GOVERNO CAIU !!

— KA LIN... KA KA LIN... KA KA LIN... KA KA YA !
!!!


Oeiras, 21 Março 2008
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sexta-feira, 14 de Março de 2008

soldadinhos de plástico

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Este instante foi escrito em 17 de Outubro de 2003, a partir de uma ideia original de Dezembro de 1995 desenvolvida posteriormente em 30 de Abril de 1996. Ei-lo na sua forma definitiva, após uma revisão e pequenas correcções e aperfeiçoamentos.
O teatro de operações é muito diferente das consolas de jogos.
Além de que na guerra não são só os projécteis que matam...


SOLDADINHOS DE PLÁSTICO

Acocorado atrás de um bidão de lixo tombado, numa esquina de um cruzamento de duas estreitas ruas, ladeadas de casas de adobe semi-destruídas, pejadas de destroços dos últimos combates, sentindo nas mãos o contacto morno da espingarda automática, o soldadinho observava, através da cortina de lágrimas causada pelos fumos, que lhe velavam os olhos, atento como um predador, a rua e as casas à sua frente procurando localizar o ponto donde tinha partido o disparo que tinha vitimado mortalmente o camarada caído um pouco mais atrás, trágica e grotescamente deitado de costas na terra esburacada, os braços abertos em cruz como querendo abraçar uma vida que não voltaria, o olhar para sempre baço fixo no céu cinzento, envolvido num lago de sangue espesso e escuro. Na posição em que ficara fazia lembrar um cristo descido da cruz.
O soldadinho limpou os olhos com as costas da mão suja de pó. O silêncio parecia ter solidificado à sua volta. O silêncio parecia amortalhá-lo naquela rua agora fria, naquela cidade onde falavam uma língua estranha que ele não compreendia, naquele país tão distante e tão diferente das imagens virtuais das consolas computadorizadas, dos simuladores 4D de combate que, no quartel, usavam para os treinos de guerra.

O soldado, emboscado atrás de uma parede, espreitava a rua atento a qualquer movimento, qualquer modificação no padrão de imobilidade fotografado pelos seus olhos duros, registado no seu cérebro.
Tinha vivido muitas guerras. Aquela era apenas mais uma.
Podia ser a última, mas isso acontece com qualquer guerra. Todos os soldados sabem isso. E de certa forma todas as guerras são sempre a última guerra. Pois todas são o começo do fim. Por mais treinado e experiente que se seja. Em qualquer uma, em todas elas, um pedaço de nós fica lá para sempre.
E esse pedaço que sempre nos é arrancado, por ser apenas um pedaço é sobretudo um todo. Atrás dele é todo o nosso espírito, toda a nossa alma que desaparece. Que se desfaz no ar como uma nuvem de fumo. Até que um dia não só nos arrancam o espírito mas levam junto com ele o corpo.

Tinha visto o movimento dos soldadinhos. A progressão deles entrou no seu campo visual manchando ostensivamente o espaço.
Estava pronto há algum tempo. O seu camarada caído no chão ao seu lado era o resultado da entrada dos soldadinhos na rua.
Tinham entrado de rompante a disparar como loucos em todas as direcções e um dos projécteis ricocheteara e atingira o seu companheiro, quando este vigiava a rua empoleirado na janela. Caíra para trás com um baque surdo explodindo-lhe o sangue pela boca.
O soldado, que descansava sentado de costas apoiadas na parede, levantara-se de um salto. Espreitara cautelosamente e vira-os. Apoiou a arma no peitoril da janela. Apontou ao que vinha um pouco mais à frente, tirou a folga ao gatilho, suspendeu a respiração por um instante e disparou.
O projéctil saiu e fendeu o ar silvando. Já ninguém o podia parar. Foram avos de segundo até tocar o soldadinho.
Penetrou-lhe o camuflado, atravessou-lhe a camisola, violou-lhe o peito rasgando-lhe as costelas, trespassando-lhe o coração jovem que nascera longe, que imediatamente parou, e saiu pelas costas perdendo-se algures ao fundo da rua. Ninguém o iria procurar.

Agora aguardava.
Ao seu disparo, o outro soldadinho tinha saltado para trás de um bidão. Vira-o, pelo canto do olho, atirar-se ao mesmo tempo que aquele que atingira caía no chão. Sabia que devia ficar atento. O soldadinho escondido estava com certeza a rezar-lhe pela pele e ele não fazia tenções de a deixar por aquelas bandas. Não se queria expor. Era melhor deixar que os nervos levassem o outro a tomar a iniciativa e a colocar-se em desvantagem.
Assim, mantendo sempre a atenção sobre o local onde o soldadinho estava abrigado, levou a mão ao bolso e tirou o maço de tabaco que a logística tinha distribuído a todos. Tabaco de merda, diga-se de passagem.
Tirou um cigarro. Acendeu-o e deu uma baforada. O fumo de má qualidade fê-lo tossir:
— Porra! Esta merda ainda me mata!

O soldadinho continuava agachado atrás do bidão.
Perscrutava atentamente o espaço à sua frente. Sabia que o tiro tinha saído daquele quarteirão cerca de cinquenta metros mais à frente, do lado esquerdo da rua. O atirador devia ainda estar emboscado no seu covil. Certamente à espera que ele se expusesse. Era o que faria se estivesse no lugar do outro. Talvez, se esperasse, o outro perdesse a paciência e descuidado se mostrasse.
No entretanto, levou a mão ao bolso e tirou um pequeno frasquito metálico, desenroscou-lhe a tampa e deu um gole. Um grande gole daquela aguardente que a logística tinha distribuído a todos eles. Aguardente de merda, diga-se de passagem.
O álcool queimou-lhe a garganta, engasgou-o e tossiu:

— Foda-se! Esta merda ainda me mata!


Oeiras, 17 Outubro 2003
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sexta-feira, 7 de Março de 2008

a picada

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Este instante foi escrito em 1996. Memória duma possibilidade, para muitos uma realidade, para outros o futuro talvez. Fantasia, ficção ou futurologia?


A PICADA

O fresco da madrugada penetrava-lhe no corpo, profundamente. Através do crepúsculo matinal, e através do óculo de visão nocturna fixo ao capacete negro de plástico endurecido, concentrou o olhar na picada que, com um ar simples e inocente, se desenrolava à sua frente. Sabia que essa inocência podia ser, talvez fosse, uma armadilha e que ali, precisamente ali, podia estar o seu pior inimigo. A traiçoeira mina. Como se os inimigos pudessem ser melhores ou piores! Um inimigo é um inimigo.

E a sua tarefa era destruí-lo. Sem fazer perguntas. Para isso treinara. Dia e noite. Para isso sofrera. Debaixo da chuva mais torrencial, com trovões e relâmpagos a fustigarem sem dó nem piedade o ar à sua volta, ou debaixo do sol mais tórrido e impiedoso, que fazia valer o seu peso em ouro a pouca, e quente, água do indispensável cantil! Rastejando e esfolando o corpo na terra mais dura e ressequida ou metido em lama até à cintura, em lamaçais que fariam feliz o mais exigente dos porcos! Sentira no corpo o que era estar abaixo dos cães. Mas ganhara! As divisas nos ombros e a boina, cuidadosamente guardada no bolso, eram prova disso.

Os primeiros raios de sol rasgavam já o horizonte que se adivinhava para lá das árvores. O céu, antes negro, acinzentava-se. Como se um véu transparente tivesse pousado sobre a floresta. Era a hora. Semi-ergueu-se, mantendo-se curvado para a frente, segurando nas mãos, com firmeza e destreza, a sua arma. Sabia que teria que ser o primeiro a avançar ao longo da picada. Como graduado tinha que dar aos seus homens o exemplo de coragem e destemor que os faria seguirem-no. Como sempre o tinham seguido. Com o olhar firme deu o primeiro passo em frente. Ao pousar o calcanhar no chão sentiu como que um baque no peito e na boca o sabor da inevitabilidade. Teve a brusca noção de que já não podia voltar atrás, acontecesse o que acontecesse. Começou assim a avançar, cuidadosamente, pé ante pé, como se pisasse ovos, tal como tanta vez fizera nos treinos.

Toda a secção o seguiu usando dos mesmos procedimentos. Olhos atentos a qualquer coisa que destoasse do piso irregular de terra, pedras, ramos e folhas. O local, de onde tinham partido, foi ficando para trás, cada vez mais para trás, desaparecendo como uma miragem que se evola no ar, como se nunca tivesse existido. Pé ante pé, passo a passo, lá seguia com o cuidado possível. À medida que o dia clareava, com o sol que finalmente nascera e a temperatura subia, o calor juntava-se ao temor para lhe encharcar o corpo em suor. Mas mantinha o medo perfeitamente controlado. Assim tinha que ser. Sabia que não podia parar. Já não podia parar. Não podia voltar atrás. Mais um passo. CLIC!

O filho da puta do clic traiçoeiro que sempre temera tinha-o apanhado! Não teve tempo para pensar! Foi tudo tão rápido, a partir dali! O estrondo, a explosão tremenda debaixo dele! O braço e a perna que, rasgados como papel, arrancados, voaram para algures, levados pelo sopro mortífero!

A picada estava minada!


Oeiras, 17 Junho 1996
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sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

o telefone glutão

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Esta estória foi escrita em 1999. É uma tentativa de fundir o humor negro com o non-sense, dois estilos que me são caros.


O TELEFONE GLUTÃO

A campainha do antiquado telefone negro soou estrídula na entrada do Instituto.
Este era num velho edifício fin de siècle com um hall amplo abrindo numa larga escadaria de madeira, com belos corrimãos escuros envernizados, lajeado a mármore preto e branco e contornado por altas paredes de estuque decoradas com pinturas trompe-l’oeil, de traço rigoroso a imitar outros mármores, coloridos.
Devido à imensidão do hall o toque soou, ressoou, ecoou profundamente, penetrando em todos os buracos, fendas, ranhuras e gretas da construção. Invaginou-se na estrutura do edifício como um fluído. Era impossível não o ouvir.

O homem de camisa, engravatado, sentado à secretária sobre a qual estava o telefone, deu um pulo com o susto. Concentrado no seu trabalho, interrompeu o que estava a fazer, pousou à sua frente a caneta com a qual estava a escrever e estendeu a mão para o telefone. Levantou o negro auscultador e levando-o à orelha atendeu:
— Estou sim?!
Falava parando de vez em quando para ouvir a pessoa do outro lado. Por vezes esbracejava com o braço livre, agitado, e subia a voz. A discussão engrossou. O homem agitava-se imenso e soerguia-se, por vezes, com a raiva. Já gritava, cuspindo gafanhotos, saltando na cadeira, cujas pernas guinchavam com gritos estridentes no mármore do lajedo como se alguém estivesse a riscar com giz uma lousa. Era tal a distracção do homem com a discussão que estava a travar que não se apercebeu do que começava a acontecer.

O negro auscultador agarrou-se ao seu rosto pela orelha com força como um parasita e o homem sentiu que a sua cabeça estava a ser sugada para dentro do telefone, o que obviamente lhe pareceu impossível. Gritou:
— Que merda é esta?!
Mas não havia dúvida de que se sentia a ser puxado para dentro do auscultador. O seu rosto contraiu-se e contorceu-se. Transformou-se numa máscara de horror. Urrando, gemendo e insultando, com a dor estampada no rosto, agarrou o auscultador com as duas mãos procurando arrancá-lo da cara e impedi-lo de o sorver. Mas este, qual monstro saído de um mundo de terror sorvia, chupava com cada vez mais força. Com tanta força que o homem, num esgar, sentiu o tímpano rasgar-se explodindo dentro do seu ouvido:
— Aaaai!
Um fio de sangue escorreu-lhe para o lóbulo. Como uma serpente o auscultador inchou e envolveu a cabeça do homem. Este caiu de bruços sobre a secretária contorcendo-se e esperneando. A pouco e pouco a cabeça do homem desapareceu dentro do auscultador até ao pescoço. O homem debateu-se ainda um pouco no seu sufoco e com violência esticou os braços e as pernas, ficando bruscamente imóvel. O auscultador continuou a chupar e a pouco e pouco todo o resto do corpo desapareceu como que engolido por uma jibóia.

Fez-se silêncio absoluto e o auscultador ali ficou pendurado a tocar o chão. Até que um empregado também de camisa e engravatado, que por ali passou, parou. Olhou em redor à procura do colega e não vendo ninguém, com um encolher de ombros inclinou-se, pegou no auscultador e levantou-o. Ia levá-lo à orelha para ouvir, hesitou e recolocou o auscultador negro no descanso, afastando-se em largas passadas. Não tinha ainda percorrido meia dúzia de metros quando a campainha do telefone, atrás de si, soou. Parou, voltou-se e olhou para o telefone, que continuava a tocar num apelo desesperado. Pensou em cagar no assunto, até porque tinha mais para fazer. Mas nunca se sabe da importância de uma chamada até a atendermos. Voltou atrás e dirigiu-se à secretária. Deitou a mão ao auscultador e levou-o à orelha:
— Está lá!?...


Oeiras, 19 Novembro 1999
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segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Concurso de Poesia 2008

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CONCURSO DE POESIA 2008

Vai decorrer de 1 a 31 de Março de 2008, o CONCURSO DE POESIA 2008, organizado e promovido pelo site Ora, vejamos...

Inscreva-se e participe !
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sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

sete voltas

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SETE VOLTAS

Estava um gélido frio de rachar naquela noite escura negra talhada em ébano nevoenta e triste de Setembro, prenúncio de folhas caídas nas calçadas, empedrados de pequeninas pedras calcárias brancas diligentemente colocadas nos passeios por calceteiros de mãos calejadas pagos pela autarquia patrocinadora de familiares emigrados que a oposição acusava de corrupta, quando na areia da praia sempre, a do costume de todos os dias que outra não havia, onde eu vagueava de mãos nos bolsos como um tonto à falta d'outra ocupação, me cruzei com ela.
Sorriu quando passou por mim embrulhada num blusão espesso em cujos bolsos escondia as mãos que eu adivinhava promissoras quando na agitação do gozo nocturno a dois. Os seus maravilhosos dentes brancos duma regularidade delfínica rebrilharam e reluziram à luz da Lua.
Senti-me entontecer, faltou-me o líquido rubro anímico e vital no cérebro, o chão fugiu por breves instantes debaixo das minhas palmilhas podres, e correspondi-lhe, ofertando-lhe o meu melhor sorriso com a minha boca desdentada que mais se assemelhava ao esgar da boca de um xarroco fora de água e mergulhado em ácido sulfúrico.
Continuou o seu caminho em direcção a um algures que só ela sabia onde, em passo ligeiro levantando pequenas nuvenzinhas de areia.
Eu fiz o mesmo, num passo pesado de camionista beirão ébrio que procura o vomitorium.

De súbito senti uma terrível vontade de me dirigir à tasca do Jacinto Picareta.
Senti-me com fome. Não aquela fome vulgar que temos a toda a hora em que nos assola o apetite e o desejo de dar umas trincas em qualquer coisa, mas aquela fome que provoca uma dor lancinante no ventre e nos leva a comer paus e pedras...
Tinha que ir à tasca! Assim fiz e lá chegado, depois de me sentar numa cadeira frente a uma mesa de pau, forrada com uma toalha de plástico com bonitas mimosas impressas, presa ao redor do bordo com pioneses já enferrujados do muito vinho em que diariamente se banhavam, regalei-me com uma travessa de batatas fritas em palitos mergulhadas em toneladas de sal grosso. Não das congeladas, de plástico, mas das verdadeiras, batatas mesmo, pómas-da-terre como diz um primo meu emigrante em França que sabe falar francês como nem os franceses sabem, descascadas e cortadas à mão com uma faca de gume bem afiado por mãos diligentes. Acompanhei-as duma tacinha de tinto do barril. Sim, que não vou em modernices...

Apenas uma coisa me incomodou. O ter tido que pedir o paliteiro para palitar os dentes antes de pagar e me vir embora. Tinha-me esquecido dos palitos em casa. Ando sempre munido com uma meia dúzia deles, embrulhada em papel celofane azul, para as emergências. Mas esquecera-me completamente de os meter no bolso.
Não são uns palitos quaisquer! São feitos por mim mesmo, a partir de pauzinhos que apanho do chão, como paus de fósforo, paus de gelado e gravetos, e que descasco e afio com um canivete que achei num contentor do lixo.
É um canivete bem baril de que nunca me separo. Tem desenhada no cabo, ou pintada ou estampada, sei lá, uma fotografia duma gaja toda nua! Uma gaja branca, branquinha, como as artistas de cinema! Até dá calores apertá-lo na mão!
Um dia também achei um bocado partido duma pedra de amolar, ao lado dum cagalhão dum cão, no jardim. Não sei o que é que ele estava a fazer ali, não o cagalhão mas o pedaço de pedra, claro, mas é com ele que amolo o fio do meu canivete, que até dá para fazer a barba!

Saí da tasca. Arrotei o vinho. Invulgarmente soube-me um pouco a azedo, Estava escuro como breu, ainda a noite era uma criança, e tinha começado a pingar fininho. A merda da chuva caía miudinha alfinetando em cima da minha tola. Não me preocuparia se eu tivesse guarda-chuva. Mas o subsídio de desemprego do mês passado tinha ido para substituir o colchão de palha da cama e o que sobrara apenas dera para comprar um garrafão de vinho, depois de pagar o quarto à D. Augustina. Este mês estava nas lonas, como aliás todos os meses.
Raios parta o povo, que insistira em votar para o governo um gajo que nem estudos tinha e que era um cínico com nome de filósofo pedófilo! Agora estamos todos a pagá-las! E eu que nem tinha votado, porque quando me disseram que se punha o voto nas urnas, decidi logo não pôr lá os butes. Tenho muito medo da morte. Borro-me todo só de pensar!
Mas nada disto ia fazer desaparecer a chuva que aumentava de intensidade.

Levantei o mais possível a gola da encardida e puída gabardina bege que um amigo, o Cândido, que já não a queria usar, me tinha dado de presente de aniversário, num belo embrulho feito com os restos do papelão duma saca de cimento e com um laçarote feito com um pedaço de serapilheira desfiada. Tenho bons amigos que nunca deitam fora a roupa e o calçado quando já está gasto. Oferecem-mos de presente em ocasiões especiais!
Andei vagarosamente, evitando as poças de água, pois os sapatos com a sola esburacada que tinha calçados, se pisasse uma delas, seriam inúteis e equiparavam-se a trazer calçadas duas esponjas.
Tinha que esperar que algum amigo, talvez o Laurindo, se desfizesse dumas botas e mas oferecesse. Talvez nos meus anos.

Sem rumo, como era meu costume, quando dei por mim encontrava-me no centro da Vila. O silêncio era quase absoluto. Não se via vivalma. Apenas um gato vadio teimava em tentar abrir um saco de lixo. Certamente em busca de alguma postinha de bacalhau que tivesse sobrado do jantar de alguém mais abastado.
Dei sete voltas à praça. Sou supersticioso e tinha aprendido com uma velha vendedeira de castanhas que quando se passeia numa praça se deve sempre dar sete voltas à mesma, pela direita, para não termos azar para o resto da vida e, se nos enganarmos, temos que voltar ao princípio e recomeçar as voltas.
Nunca percebi o porquê, até porque, apesar de dar sempre sete voltas fosse ao que fosse, nunca a minha sorte mudou. E a da velha também não. Tinha morrido atropelada por um camião do lixo ao sair à rua para ir apanhar uma peça de roupa, acho que um par de cuecas do marido, que caíra e voara do estendal.
Uma mulher toxicodependente com quem vivi durante cinco dias, por exemplo, para verem como a minha sorte não mudava. Sempre que dávamos a queca, fazíamos sete posições diferentes e nos intervalos dávamos sete voltas à barraca. Isso não me trouxe sorte nenhuma. A única coisa que nessa altura mudou na minha vida foi uma camada de chatos e um esquentamento...

Tinha acabado a sétima volta ao largo quando, de súbito, a vi de novo. Estaquei bruscamente.
Era ela sem dúvida. A mulher da praia, a do sorriso lunar. Ainda envolvida no mesmo blusão grosso, caminhava lesta através da praça cruzando-a em diagonal.
Ai Jesus! Ocorreu-me de súbito o perigo que isso poderia representar para ela, ocorreu-me falar-lhe nas sete voltas e recomendar-lhas. Acelerei o passo na sua direcção, recordando o seu simpático sorriso que me incitava a fazer algo por ela. Lembrei-me da velha das castanhas. Até me pareceu ver a cara dela à minha frente a olhar-me com um ar estranho, recortada contra as paredes escuras dos edifícios.
O camião do lixo bem guinchou no esforço de travar no asfalto molhado... mas não. Se a minha noite já estava escura a escuridão adensou-se ainda mais.


Oeiras, 22 Fevereiro 2008
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sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

o cota

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O COTA

Era velho. Apenas um velho. Carcomido pelo tempo e alquebrado pela semi-vida. Tez escura, tisnada dos muitos sóis, gretada e enrugada por muitas luas. As suas mãos eram talhadas em madeira nodosa e o seu rosto rasgado com um gume afiado. A sua face de papiro era abraçada e emoldurada por farta, doce e comprida neve ondulada. Percebia-se também que tempos idos o seu corpo tinha sido talhado num bloco de granito. Todos os miúdos, todos os moços, todos os jovens, mesmo todos os adultos, a ele se referiam pelo cota.
Já nem ele próprio sabia a idade que tinha. Nem se ainda tinha idade. Sabia que tinha nascido há muito, muito, muito tempo. Quando havia tempo. Pois lembrava-se...


Lembrava-se de andar de calções a jogar ao pião com os parceiros da escola no adro da igreja na aldeia. lá no alto da serra. onde moram os velozes e faiscantes falcões, as matreiras raposas pilha-galinhas e os temíveis lobos carniceiros... do sussurro das asas das andorinhas, pardais, verdelhões, tentilhões, canários, cucos, melros, águias, cegonhas... do restolho dos furões, toupeiras, fuinhas, coelhos, ratazanas, cobras, lagartos, sardões... do mugir das vacas, do berrar dos toiros cobridores, do zurrar dos burros, do coaxar das rãs nos charcos... dos besoiros rebola-cagalhões, do zumbido das varejeiras, dos mosquitos, das melgas, das abelhas, das vespas... de pôr terra molhada com mijo nas picadelas de abelha... do murmurar das faias, das azinheiras, das bétulas, dos chorões, dos carvalhos... até do cheiro a maresia quando ia passar uns dias de férias de Verão na praia longe com sabor a sal...

Lembrava-se de como a água do ribeiro era fresca e transparente como o vidro... do próprio ribeiro que já não é... de ensebar as botas cardadas e dos trambolhões que elas provocavam nas correrias pelas calçadas... dos guelas que vinham nas garrafas de pirolito... do grande abafador campeão de berlinde com o qual enchera o saco com os guelas dos amigos a jogar às três covinhas... era o berlinde, a carica, o pião, o salto ao eixo... de jogar à 'mãe' e como literalmente voava pelo ar a grande velocidade para cair esparramado em cima dos amigos que formavam a equipa oposta que devia aguentar o peso da equipa dele... de como ao trocar de equipas lhe calhava fazer de 'mãe' e como isso enrijava os abdominais à custa da muita porrada que a cabeça do amigo que ficava à frente lhe dava no abdómen... do sabor das nêsperas da árvore onde ia à chinchada... dos joelhos esfolados e a sangrar dos trambolhões durante as correrias, brincadeiras e jogos... do cheiro e da cor da tintura de iodo e do mercúrio-cromo... da crosta que se não caía, arrancava com as unhas encardidas... do cheiro, do sabor, do lodo do canal de rega onde tomavam banho quando chegava o calor... do sabor das favas cruas chinchadas à socapa no faval... do pinhal à beira da estrada e das mãos cheias de resina e dos barquinhos à vela ou a motor feitos com casca de pinheiro. Que bem que andavam no tanque! e os de motor, com um pequeno elástico a propulsionar a pá feita com um pedaço de pau de gelado, que velocidade!

Lembrava-se do despertar e do espreitar os namorados no pinhal... das noites de calores e suores que as memórias das coisas vistas lhe causavam... do assombro que sentia quando via as artistas a preto e branco na tv... de sonhar com elas a noite toda... do aroma a relva acabada de cortar na boca dela naquele dia em que dançaram juntinhos ao som da filarmónica aprumada no coreto... da primeira vez com a velha com idade para ser sua avó que morava no casebre na berma da estrada que levava 5$00 para satisfazer os moços com a boca desdentada... e 15$00 para os que queriam coisa mais funda...

Lembrava-se de lhe chamarem parolo quando ia com o pai à cidade grande visitar as tias. Diziam-lhe que era a capital e tinha tamanho para isso! Lembrava-se do chiar do eléctrico nos carris cravados nos paralelepípedos de granito... do tlim-tlim quando se puxava o cordão para dar sinal de paragem... da imensa altura dos grandes prédios... das igrejas com campanários a ameaçar furar o céu... dos espantosos autocarros verdes de dois andares, verdade!, que trepidavam como se a terra estivesse sempre a sofrer um terremoto... do odor das pessoas, da naftalina, da brilhantina e da graxa nos bigodes negros e afilados.... do aroma dos deliciosos bolos alinhados no balcão da pastelaria...

Lembrava-se de tanta, tanta coisa!
Coisas que já não lhe serviam para nada, agora que era cota.


Oeiras, Fevereiro 2008
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sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

atracção

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O original deste curto instante foi escrito em 28 de Outubro de 2002 e tinha como título original "Velho Navio Velha Puta", e era apenas um esboço, um apontamento, a pedir para ser trabalhado. Apresento-o agora numa versão com maior desenvolvimento.


ATRACÇÃO

Havia naquele lugar cinzento e sombrio um velho muito velho e exaurido cais daqueles onde se chega e donde se parte. Às vezes parte-se chega-se.
Havia naquele lúgubre cais um velho velhíssimo e decrépito navio. Um barco que chegara há muito. Há tanto que ninguém o sabia dizer. Já não havia pessoa viva que se recordasse da chegada. Parecia que ele sempre estivera ali. E quem sabe se não se sim? Talvez o cais só tivesse sido construído depois da chegada do navio para aplacar a tristeza daqueles que ali o viam amarrado ao nada fundeado no vazio. Há construtores de cais assim com tal feitio e imaginação.
O ancoradouro era um velho cais de madeira gasta e encardida com muitas tábuas já podres e muitas outras soltas.
A embarcação era um velho navio de ferro sujo esclerosado e oleoso.

O velho cais de madeira estava cravejado de fundas cavilhas de ferro. Enormes pregos de cabeça castanha enferrujada que se esforçavam gloriosamente em segurar as tábuas teimosas em resistir. Manchas negras gordurosas e de origem desconhecida e indeterminada esparramavam-se pelo tabuado como uma doença de pele num idoso.
O velho navio de ferro tinha os espessos costados cravejados de redondos e viris rebites de aço. Milhares de cabecitas redondinhas bem alinhadas ao longo dos bordos das grossas e gordas placas de ferro com a pintura gasta e escamada como a de um lagarto gigante à espera do fim.

Adoçando o navio as águas lodosas bafientas corriam plácidas imparáveis arrastando detritos de montante.
Mas apesar da calma com que devinham as águas a velha puta enjorcada e esfarrapada que deambulava no cais - no navio? - não as conseguia acompanhar.
As ratas mortas pretas inchadas e fedorentas que flutuavam de pança para cima à tona d'água deslocavam-se bastante mais rápido que a rata viva relaxada e malcheirosa abaixo da enorme pança da puta que deambulava para trás e para a frente num vaivém sinistro nas tábuas ferrosas com passo vacilante trôpego com odores a álcool.

O navio mantinha-se quase imóvel. Apenas um ligeiro muito leve quase imperceptível ondear para cima e para baixo revelava a sua tensão o temo o terror e o seu desejo e impulso fóbico de partir.
A sua origem era clara apesar da escuridão da noite sem luar nem estrelas.
A foice e o martelo no pavilhão rubro eram inconfundíveis. Iniludíveis.
Era um navio perdido. Sem destino. Sem rumo. Sem porto de abrigo.

Por isso a atracção mútua entre o navio e a velha puta. Putas velhas que ambos eram afinal!


Oeiras, Fevereiro 2008
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sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

o velho cais de madeira

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O VELHO CAIS DE MADEIRA

Os contentores frigoríficos de plástico branco e fechos metálicos, assinalados com símbolos vermelhos, amontoavam-se a um canto do velho cais de madeira junto de uma pequena barraca de chapa enferrujada, aparentemente abandonados.

O cais bordejava um pequeno e estreito, mas profundo, rio de águas escuras, lodosas. Um rio que ninguém sabia onde começava ou acabava. Ninguém sabia de onde vinham e para onde seguiam aquelas águas. Águas que nunca paravam de correr e mantinham sempre a mesma altura. Também nunca ninguém tentara saber de onde e para onde corriam. Apenas sabiam, e isso bastava-lhes, que o rio passava ali. E por isso, um dia um presidente da junta, cujo nome entretanto caira no esquecimento, mandara um grupo de operários com boas ferramentas construir aquele cais. Houvera festa, fora um acontecimento. O presidente discursara, a mulher do presidente chorara, a amante do presidente desmaiara, o povo aplaudira e embebedara-se. Deitaram foguetes e tudo!

De início, enquanto fora novo, o cais era local de romaria. Vinham-se sentar nele para entardecerem a ver passar a água. Ficavam longas tardes sentados na borda, pés descalços a balouçar, olhando hipnotizados a corrente esverdeada que fluía. Os garotos tinham mesmo inventado uma estória na qual acreditavam cega e piamente e que nem o brutamontes do chefe da guarda se atrevia a contestar: rapaz que, à meia-noite, na terceira noite de lua cheia a contar a partir do primeiro equinócio, esfregasse a cabeça da pila na sétima tábua do cais a contar da borda, nunca perderia a virilidade por mais anos que vivesse. E era vê-los! A garotada toda de pila de fora a esfregar, esfregar...

Nunca nenhuma embarcação tinha sido vista a acostar ao cais. Ou sequer a passar no rio. Eles próprios não tinham barcos nem nada que se parecesse com tal e permitisse navegar. Os únicos veículos de que dispunham eram alguns carros de madeira e fibrocimento, motorizados com motores eléctricos alimentados a baterias solares para o dia e baterias lunares para a noite. Em dias nublados recorriam aos pedais. Era nestes veículos que se transportavam e faziam transportar cargas e bagagens. Podiam nunca ter visto uma embarcação no cais, mas a verdade é que se queriam despachar alguma mercadoria levavam-na até ao cais, descarregavam-na disciplinadamente, arrumavam-na cautelosamente, preenchiam criteriosamente os documentos de despacho e no dia seguinte a mercadoria já lá não estava. Não achavam estranho. Afinal o cais estava lá para isso mesmo.

Entretanto o tempo tinha passado, o cais envelhecido. As águas corroeram os pilares enlaçados pelos limos, a barraca de folha de flandres novinha ganhou um melanoma e acastanhou, primeiro em pintinhas dispersas, depois em grandes manchas que alastraram por toda a superfície. Nas suas paredes apareceram alguns buracos. No próprio tabuado tinham aparecido fendas e era agora possível, nalguns sítios, ver a água correr lá por baixo. A famosa sétima tábua tinha-se despregado e desaparecera, talvez tragada e levada pela corrente.

Aqueles contentores eram talvez a última mercadoria, a última carga que ali tinha sido colocada para despacho. Alguns estavam rebentados, por descuido na descarga. O seu conteúdo espalhava-se pelo chão de madeira à sua volta. Braços, mãos, pés, pernas, dedos, frutos de amputações, uns brancos caucasianos, outros mais escuros, morenos, outros sem dúvida negróides, todos eles indubitavelmente humanos. Era possível perceber que alguns daqueles membros eram de homens e outros de mulheres, sendo todos eles de pessoas jovens. O que se tornava difícil perceber era a sua origem e o seu destino.

Também ninguém estava preocupado com isso. Quando chegasse a altura o seu dono apareceria para os reclamar e levar. Apareciam sempre. Sempre tinha sido assim. Portanto, eles ali estavam no velho cais de madeira, velho local de chegada e de partida mas sobretudo velho local de esperança para aqueles que o utilizavam.


Oeiras, 10 Outubro 2002
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sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

uma ponte

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Esta estória foi escrita às 02:05 h. do dia 10 de Outubro de 2002.
Tem uma particularidade que talvez já tenham observado noutras prosas. Uso algum vocabulário que escusam de procurar no dicionário porque... não existe! não existia? antes de eu o usar?!
A razão é simples. O que me agrada na escrita é também e muito a sua sonoridade, e sabemos que quando se lê, 'ouvimos' o som das palavras dentro da nossa cabeça.
Essa é uma das coisas belas da Língua Portuguesa. A sua musicalidade. A sua sonoridade. O fraseado, que transmite sentimentos e emoções. A forma como as palavras cantam, gritam, suspiram ou murmuram aos nossos ouvidos, como ressoam no nosso espírito.
Muitas vezes 'atrevo-me' à invenção de palavras, pelas razões expostas. Mesmo para traduzir conceitos para os quais existe já vocabulário.
Mas quando essas palavras não me agradam por algum motivo (sonoridade, p.ex.) invento outras. Às vezes simplesmente grafando palavras já existentes com uma outra grafia ou fazendo transmutações, colagens, trocadilhos, etc., que geram palavras novas que pela sua sonoridade me são agradáveis e que traduzem o conceito que quero transmitir.
É assim que aqui aparecem palavras como: ordenador (computador), extranet (Internet cósmica), emaranhantes (que emaranham) ou estremudo (brincadeira elaborada a partir do verso da canção Vampiros de Zeca Afonso, na qual se diz "sob o astro mudo", mas que a mim sempre me soou como 'sob o ar estremudo'; adoptei este vocábulo como sinónimo de cinzento, escuro, nebuloso, pesado, sinistro, e gosto imenso dele).
Mas vamos à estória:


UMA PONTE

Acordou, com a brusquidão de uma explosão. Estremeceu e abriu os olhos estremunhado, rameloso. Olhou o tecto claro manchado de nicotina e cagadelas de mosca, à sua frente. Na claridade do dia, imaginou. Mas não. Tudo continuava na mesma. A nostalgia gritava e urrava nos cones altifalantes da sala. Não havia nada de novo, pelo menos que se visse.

Espreguiçou os corninhos e ajeitou a concha listada e surrada que libertou alguns flocos de cotão. Calçou um sapato roto, a pedir meia-sola, por sobre a peúga branca. Com um arrepio, os pêlos da nuca eriçaram-se. Uma imensa galáxia tinha colapsado num buraco negro, algures a anos-luz. Ou seriam dias? Ao longe, alguém cantava um fado. Um velho fado da Amália. Tábuas de caixão e coisas que tais. Havia um bote a ondular no rio. Um bote vazio, só tábuas molhadas cheirando a mofo. Foi até à janela. Passavam alguns carros auto móveis, conduzidos por lesmas peçonhentas. Algumas de olhos e lábios pintados. Eram umas putas!

Voltou-se lentamente. Foi até ao ordenador e, pela extranet, ligou-se com Deus. Havia no éter um odor intenso a alfazema. O momento convidava à meditação. E à inquisição... Os monges arrastavam-se numa lentidão estudada em bicha de pirilau. Cada um fixando as costas daquele que o precedia e expondo as suas próprias àquele que o seguia. O fogo ardia purificante. Fogo fátuo. A cruz era imensa e pesava. Retorcia-se milenar como um velho carvalho. Havia anjos no ar.
Mas eram pretos, os cabrões! Olhos de fogo em rostos de carvões. Alguns, poucos, eram brancos como neve. E estavam com erecção. O sexo dos anjos é masculino.


No lajedo os calos doíam. As sombras eram poucas e o chão fervia debaixo da fornalha solar. A vida e a morte eram indistintas uma da outra. O mundo avermelhou e as aves calaram-se. Imobilidade, intemporalidade. Um clique! E a pantalha enegreceu. Temporariamente? Olhou em torno de si mesmo. Afinal, estava no centro do universo para quê? O infinito; a eternidade; visivelmente, sentia-os na pele rugosa, tisnada. Era uma sensação estranha. Quente e doce.
Deslocou-se com dificuldade.


Havia um mar de águas lodosas e negras. Águas densas de emaranhantes plantas vivas, pegajosas. Cheias de enormes lagartos púrpura revirando os olhos, retorcendo as escamas. Os edifícios elevavam-se, imensos, arranhando o céu.
Toneladas de vidro reflectindo o céu cinzento e o ar estremudo. A jangada de madeiras velhas balouçava suavemente. Gemia... Assim como gemia o gato negro. Acercava-se da beira; olhava tristemente o lodo; regressava ao centro da jangada. Esperava. O monge olhou fixamente, uma vez mais, o horizonte longínquo. O seu rosto era uma calote hemisférica que reflectia o sol. Havia uma ponte.

Uma longa ponte de pedra granítica. Uma ponte sobre o quê?

Oeiras, Outubro 2002
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domingo, 20 de Janeiro de 2008

Escritores da Liberdade

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O excelente blog
MENINA MAROTA, um espaço de eleição dedicado à Poesia, recebeu merecidamente o prémio Escritores da Liberdade, que dedica como se lê:

"... E porque quero continuar a acreditar que o sonho comanda a Vida, gostaria que todos os que assim o entendessem, levassem para colocar nos seus blogues, o selo do Prémio Escritores da Liberdade e o dedicassem a quem lutou e deu a Vida por essa Liberdade.

A todos vós..."

Aqui fica o convite para a leitura integral do post, o qual recorda o grande lutador e activista Martin Luther King, e para aceitar a sugestão da Menina Marota para usar o 'selo'. Clique AQUI.
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sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

atrasado, nunca !

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Este instante foi escrevinhado tecla a tecla, letrinha a letrinha, numa monótona tarde de quarta-feira, em 17 de Outubro de 2001. Reli-o e reescrevi-o agora, para vosso divertimento.


ATRASADO, NUNCA !

Levantou-se cedo, à hora habitual. Era um ser muito metódico, disciplinado, rigoroso e regular no modus vivendi. Funcionava quase como uma máquina. Podia dizer-se dele, sem correr o risco de exagerar, que a sua vida era um tiquetaque cadenciado. Podia acertar-se o relógio por ele, como se fora um pequeno kant moderno.
Abriu os olhos meio vesgos e afastou o edredão para o lado, pôs os pés ossudos fora da cama e içou o tronco energicamente num baloiço estudado. Atirou as pernas de gafanhoto pelo ar numa rotação perfeita e ficou sentado na borda da cama.
Logo de seguida esticou os braços magricelas, brancos e escanzelados, e espreguiçou-se como um cristo, soltando um grande bocejo.
Piscou os olhos cinzentos com a intensidade da luz diurna e arrastando as pantufas pelo soalho de tacos envernizados foi até à janela como de costume, ver como estava o dia. Tinha um minuto para o fazer.
Os manda-chuvas tinham dito na televisão, na véspera, que iria ser um belo e aprazível dia de sol e calor, bom para a praia.
Praia, pois, pois... para quem não tem que trabalhar! — Pensou.

Veranear era um luxo a que não se podia permitir. Nem nas férias, as quais aproveitava para pôr em ordem a muita papelada e os assuntos pendentes relacionados com a casa, entre outros.
Ao longo do ano guardava certas tarefas precisamente para o período das férias, para que elas não interferissem com a sua rotina diária. Coisas como arquivar facturas, cartas e documentos variados, realizar pequenas obras em casa, pôr uma prateleira aqui, trocar um interruptor ou tomada ali, trocar alguma peça de mobília velha ou electrodoméstico por outro novo, etc. Pequenas coisas que tornavam a sua casa habitável e ao seu gosto durante mais um ano até às férias seguintes.

Pela janela do quarto, olhou para fora, para a rua três pisos mais abaixo. Uma rua normalíssima e igual a muitas outras, diferindo apenas no pormenor de ao contrário do habitual ter passeios muito largos, um deles com talvez uns 10 metros, o que dava à rua uma largura de cerca de 22 metros, e isto tinha como consequência, agradável, os prédios de ambos os lados distarem muito uns dos outros, evitando a comum invasão de privacidade que ocorre em ruas estreitas, nas quais o vizinho da frente facilmente nos 'entra pela casa adentro' através das janelas.
Esperava ver o costumeiro cenário de uma 2.ª Feira: gente apressada na direcção dos carros, estacionados nos parques, nos passeios, por todo o lado; carros a buzinar e camionetas repletas de passageiros passando velozes, como dardos lançados pelo ar na direcção de um alvo invisível; mães a puxarem pelo braço crianças sonolentas e cambaleantes; maridos a gritarem para as esposas "Despacha-te, porra!". Mas não!
O que viu gelou-lhe o corpo e o espírito. Paralisou-o. Sentiu-se como se de súbito o tivessem transportado, completamente nu, para o interior dum armazém frigorífico ou para a Antártida.

Lá em baixo, vagas gigantes levantavam-se fustigando as paredes dos prédios com estrondo e enchendo o ar de espuma densa e escura.
Toda a rua estava transformada num mar. Água escura, suja e lodosa, vinda não sabia de onde, porque não tinha sequer chovido, enchia a rua à altura das janelas dos primeiros andares dos prédios. Destroços, móveis e toda a espécie de objectos acompanhavam os corpos meio despidos, muitos em pijama ou camisa de noite, outros nus, que saiam pelas portas e janelas, revolteando nas ondas castanhas como bonecos de trapo.
Ouvia-se gente gritar de terror às janelas dos andares mais altos que, como o dele, tinham escapado àquela inaudita hecatombe.
Enquanto, literalmente siderado, assistia a este trágico e impossível espectáculo, incapaz de o racionalizar e compreender, ouviu um ronco forte troar no ar reverberando nas paredes dos edifícios. Assustou-se e estremeceu, apesar do som não lhe ser estranho e ter algo de familiar.
Estendeu a cabeça para fora da janela e olhou para o fundo da rua, na direcção de onde lhe parecia ter vindo o som.

Um imponente cacilheiro fumegando da chaminé, deixava uma gigante nuvem negra atrás de si e entrava na rua vindo de uma outra perpendicular, roçagando com esforço gemente o casco nas esquinas e paredes dos prédios, arrastando à sua frente, afastando-os com a negra e possante proa, destroços flutuantes, contentores de lixo, carros, caixotes, detritos, cadáveres de gente afogada que continuavam a sair pelas aberturas dos andares mais baixos, completamente inundados, e aproximava-se pesadamente do seu prédio.
Pensou rapidamente, apelando à sua lógica de sobrevivência apreendida ao longo dos anos: Não os podes vencer junta-te a eles!

E num rompante vestiu a roupa que tinha ali à mão, sem se preocupar com as lavagens matinais, pegou na pasta cinzenta de plástico a imitar pele de cobra e correu escada abaixo para apanhar aquele oportuno transporte e não chegar atrasado ao emprego!


Oeiras, Janeiro 2008
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quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Isolino

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O original deste instante data de 28 de Outubro de 2002, e foi escrito numa segunda-feira de madrugada, pelas 03:30, o que aliás não é raro acontecer.
É uma coisa que gosto de fazer. Perder-me na solidão da madrugada, a escrever, ou a desenhar, acompanhado apenas por jazz, cigarros e uma garrafa de bourbon.
Esta estória é mesmo apenas um instante. Duma vida que pode ser a de qualquer um. Pode ser a sua, ontem, hoje ou amanhã.


ISOLINO

Isolino acorda, esvaído no torpor costumeiro. Esperta cedo como habitualmente.

Olha de fininho com os seus olhinhos estremunhados de rato sodomizado, o velho relógio despertador acoitado na semi-obscuridade da mesa de cabeceira.

06:24 da manhã, foda-se!

Mais um dia de labuta. Sente ganas de matar o filho-da-puta que inventou o trabalho. Essa merda dessa estória de ganhar o pão com o suor do rosto.

Do rosto uma porra! Nas obras, onde é pedreiro, é com o suor do rosto, dos pés, dos sovacos, do cu, dos tomates, dos entrefolhos.... é com o suor do corpo todo!

Olha de novo o estúpido relógio.

06:35!

O cabrão do relógio ri-se! Ouve-o às gargalhadas, a rir que nem um boi charolês, enquanto os ponteiros avançam. Apetece-lhe pegar no relógio e atirá-lo contra a parede. Ou, melhor ainda, pegar numa marreta e transformá-lo em puré; uma espécie de batido de laranja mecânica.

06:46!!

Porra, agora está mesmo atrasado!

Salta da cama num ápice. Coça os tomates enquanto, ao mesmo tempo, solta um sonoro traque. Corre como uma barata tonta para a exígua casa-de-banho, revestida de azulejos verde-ranho nas paredes, cheios de rachas, e humidade no tecto pintalgado de cagadelas de mosca. Lava o lúbrico rosto de sacristão rapidamente.

Não se barbeia. Sempre é uma forma de ganhar uns bons 5 minutos. Também já não se barbeia há cerca de 3 dias.

Mais um dia menos um dia não vai fazer grande diferença e no emprego que tem ninguém liga importância a um rosto bem escanhoado.

Tal é, aliás, um mau sinal. Só alguns engenheiros e arquitectos mais novatos, que gostam de armar em pipis, é que têm esse hábito de aparecerem de rosto bem barbeado a condizer com as gravatinhas paneleiras que normalmente ostentam. Coisa de chefes!

A malta só se barbeia, toma banho e põe colónia, à sexta à noite. É a altura de ir às putas mudar o óleo, e passar uma noitada de copos e encavanço. E, por causa das gajas, convém ir mais ou menos bem amanhado.

Não que elas liguem muito a isso. Não, qu'elas querem é o papel, o bago, o pilim, o well-contado!

Mas um homem qu'é homem tem um certo brio. Mesmo quando está atascado nos becos lamacentos até aos gorgomilos.

06:57.

Ainda vai conseguir apanhar a camioneta das 07:10.

Veste-se rapidamente, sai de casa, a porta troveja, cruza-se com a boazuda da mulata do 1º esquerdo, corre escada abaixo a saltar os degraus três a três, como um gafanhoto, e sai para a rua fria, molhada e cinzenta...


Oeiras, Janeiro 2008
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sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

o sonho

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Nem todos os dias estamos com disposição para falarmos dos nossos sentimentos mais fundos e para revelarmos o nosso íntimo. Mas como não temo os juízos alheios, sou um homem sem medo, e isto é para mim um divertimento, eis um instante - verdadeiro - da minha vida. Este texto foi escrito em 28 OUT 2002. Reli-o e melhorei-o um pouco, sem trair o original.


O SONHO

Hoje, pelo telefone, contei-lhe a estranha coincidência de me ter telefonado precisamente no dia em que acordei de um sonho em que sonhei com ela.

Contei-lhe apenas o 1º capítulo do sonho.

Contar a história toda é estragar a surpresa de quem vai ver o 'filme'.


Tínhamos combinado um encontro.

Talvez pelo telefone, fiquei de me encontrar com ela na empresa onde está empregada.

Uma empresa de contabilidade, especializada em 'escrita feminina'.

Um tipo de firma que faz escritas apenas para empresas-cliente geridas por mulheres.

Chego cedo.

Ela só sairá às 6.

Talvez me tenham conduzido, talvez tenha chegado lá sozinho.

De súbito vejo-me no gabinete dela.

Uma sala ampla e arejada, de dominante rosa nas paredes.

Há uma espécie de brilho, de glow, em toda a cena.

Entro e paro ao lado de um sofá blue marine à minha esquerda.

Na outra extremidade, obliquamente está a secretária.

E ela.

Sobre a secretária a parafrenália habitual: computador, telefone, papéis, canetas.

Ela está sentada e levanta-se de imediato assim que me vê.


Sorri e diz-me "Sent'aí um bocadinho".

Sento-me no sofá blue marine, cruzo as pernas e fico a observá-la.

Está linda como sempre!

Consigo vê-la da cintura para cima.

Veste uma camisola rosa muito justa a revelar o relevo de um magnífico e generoso par de mamas.

Duas colinas perfeitamente convexas maravilhosamente colocadas ao lado uma da outra, absolutamente de um rosa puro.

Sinto-me hipnotizado por aquela visão maravilhosa que me transmite a mais soberba sensação de calor acolhedor e de doçura.

Sinto-me perante a mais fascinante visão do Sublime.

Compreendo Kant.


De vez em quando ela olha para mim e sorri.

Sorri com todo o rosto.

Sorri com a boca, com os olhos, com o cabelo... E fala.

Não recordo o quê.

Mas trocamos algumas frases.

Apenas consigo recordar que a sua voz soa como o mar.

Aquele mar que marulha nos nossos ouvidos com maciez quando nos deitamos na praia de olhos fechados sob o sol.

Aquele baloiço aquoso que nos embala enquanto mergulhamos no entorpecimento voluntário.


De súbito, a cena muda (talvez o capítulo 2).

Estou em pé e por mim passa um pequeno grupo de pessoas conduzido por uma senhora que me parece ser a dona da empresa.

Pelos diálogos, é um grupo de estrangeiros, supostamente do mesmo ramo, em visita à empresa.

Recordo que param todos a observar, eu também observo, um placard de vinyl com um tipo qualquer de informações sobre a empresa.

Talvez um organigrama.

Param no corredor a olhar o placard, ouvem as explicações da patroa, fazem alguns comentários (estranhamente no grupo há algumas crianças, parecem um grupo de turistas americanos) e seguem através de uma porta lateral com vidro.


A cena muda novamente e encontro-me no capítulo 3!

Estou de novo no gabinete dela, em pé.

Ela levanta-se e caminha na minha direcção.

Pára muito perto de mim.

Sempre a sorrir.

Trocamos algumas palavras.

Quando dou por mim estamos abraçados.

Os nossos corpos colados um ao outro.

Os nossos rostos ao encontro um do outro.

Os nossos lábios juntam-se num beijo doce e carnudo.

Beijo-a com alguma sofreguidão mas ao mesmo tempo com a calma de quem sabe que não vale a pena correr.

Abraçamo-nos e beijamo-nos com a meiguice e a ternura de dois amantes que se adoram e sentem que vale a pena não desperdiçar aquele momento pois momentos destes são únicos e irrepetíveis.

Sinto entre nós a promessa de mais qualquer coisa.

De algo que ambos desejamos e que não queremos adiar mais.

É neste instante que 'a fita parte' e o 'filme é interrompido'...


Acordo e saio do 'cinema'.


Contei-lhe (só o 1º capítulo) e ela achou montes de graça e riu.

Ouvia-a rir com prazer do outro lado do telefone.

Gosto de lhe dar prazer.

Afinal sempre sirvo para qualquer coisa!


Oeiras, Janeiro 2008
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sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Agostinho e o espelho de Alice

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Esta 'brincadeira', "O Espelho e o Pé-de-Cabra" na versão original, data de 12 de Outubro de 2002. Após reler o texto, senti vontade de pegar nele e desenvolvê-lo um pouco mais. Torná-lo mais apetitoso para o leitor.


AGOSTINHO E O ESPELHO DE ALICE

Agostinho, piscando os seus olhinhos de rato sodomizado, olhou a superfície lisa e espelhada à sua frente na qual a sua imagem reflectida olhava para ele.

Aquela superfície que era e não era um espelho, como se verá.

Era um espelho na medida em que reflectia imagens mas não era um espelho, de acordo com os terríveis acontecimentos que iriam acontecer.

Era um espelho de grande dimensão e Agostinho comprara-o há uns anos num vidraceiro de Xabregas, por uns cobres valentes, apesar de se estar a cagar para espelhos, mas na altura vivia com uma gaja em casa, a Alice caolha, uma putéfia que sacara nas docas, e as gajas gostam de se ver ao espelho.

Queres mamada... compra um espelho!

A Alice caolha, um dia, acabara por basar, levando com ela um coelho branco de estimação e um baralho de cartas espanholas, pois arranjara um gajo com mais bago, mas o espelho ficara.


Agostinho fixou a sua imagem na superfície do dito.

O espelho, mais ou menos do tamanho de uma porta, estava fixo à parede do quarto com o bordo inferior muito perto do chão o que permitia a uma pessoa de estatura mediana ter nele uma imagem de corpo inteiro.

No fundo, era um espelho baril e Agostinho já se tinha habituado a ele.

Contudo havia algo de estranho na imagem reflectida pelo espelho que não era espelho.

Via-se a si próprio e o quarto onde estava.

Mas tinha a sensação de que a imagem que via no espelho tinha algo de errado.

Pôs-se a olhar atenta e fixamente.

Olhou o seu rosto gordo de labrego.

Era o rosto largo e generoso de um homem de vinte e oito anos.

Um rosto cheio, com maçãs rosadas que herdara do seu pai que tinha sido taberneiro e proxeneta em Alfama.

Os olhos azuis herdara-os da mãe, transmontana raiana, criada-de-servir em casa dos avós dele, donos de uma pequena quinta nos arredores de Lisboa, ali para as bandas de Oeiras, onde aliás todos tinham vivido depois de ele nascer fruto das aventuras nocturnas de seu pai no quarto da criadita então com apenas uns frescos e saborosos dezasseis anos e cheia de ingenuidade serrana face ao jovem belo e fogoso de dezoito anos, que fora o seu pai, ainda por cima filho dos patrões.

Assim ele nascera e os pais foram obrigados a casar porque a avó, mulher barbuda e de calibre, não admitia poucas-vergonhas em casa e com os garotos casados não havia motivo para falatórios.


Olhou-se de alto a baixo.

A roupa com que estava vestido era modesta, nunca fora de grandes luxos.

Umas calças de fazenda cinzentas a ficarem puídas nos joelhos, uma camisa azul aos quadrados com as mangas arregaçadas pelos antebraços, gravatas nem pensar, nunca usara, nem sabia fazer o nó.

Na cabeça usava um boné castanho de tecido inglês que herdara também do pai e que tinha seguramente mais de vinte anos.

Nos pés calçava botas de couro tipo 'bota alentejana'.

Sem dúvida fazia jus ao seu eterno ar de campónio!

Mexeu uma das mãos e viu a correspondente no espelho mover-se.

Estendeu a mão para tocar o espelho e a mão reflectida no espelho avançou sincronizada ao encontro da sua.

Viu os dedos tocarem-se quando os seus dedos tocaram a superfície do espelho.

O contacto foi frio como gelo gelado.

Não foi isso que o admirou.

Afinal os espelhos são feitos com vidro.

O que o deixou atónito e atemorizado foi que metade dos seus dedos desapareceram para além da superfície.

Puxou a mão bruscamente, assustado.

Pensou que os seus olhos o tivessem enganado.

Voltou, com muitas cautelas, a aproximar a mão da superfície do espelho e de novo tocou-lhe, ou melhor, tentou tocar-lhe.

Viu os dedos penetrarem a superfície do espelho e desaparecerem.

Retirou a mão rapidamente.

Não havia dúvida, acontecera mesmo!

Recuou aterrado, de olhos esbugalhados e pêlos do pescoço ouriçados, a olhar para o espelho.

Que fazer?!

O melhor era talvez destruir aquela coisa demoníaca.


E para isso saiu decidido do quarto, correu para a despensa e muniu-se de um valente pé-de-cabra.

Voltou ao quarto, chegou-se ao espelho e empunhando o pé-de-cabra com as duas mãos, levantou-o e desferiu uma pancada violenta no espelho, onde outro Agostinho realizava precisamente a mesma acção na direcção oposta...

Mas não se ouviu o característico som de vidros a partirem-se.

O pé-de-cabra penetrou a superfície do espelho, como se esta fosse líquida, com o impulso soltou-se das mãos de Agostinho e desapareceu sem que um som se ouvisse.

Agostinho sentou-se sobre a cama emudecido, terrificado, e sem saber o que fazer.

Ali ficou durante muito tempo, tentando perceber o que acontecera e o que poderia fazer para se desfazer do espelho e pôr termo aquela coisa horrenda.

Subitamente apercebeu-se de um movimento do lado do espelho e olhou na direcção daquele.

O pé-de-cabra, o seu pé-de-cabra, saia do espelho e vinha lançado a grande velocidade na sua direcção.

Bem tentou, mas... não conseguiu fugir a tempo de evitar ser atingido e levou com o ferro em cheio na cabeça caindo para trás a sangrar abundantemente e desmaiou tombando no chão.

Na superfície do espelho, vinda do outro lado, emergiu espreitando a cabeça de um ser de aspecto vagamente humano, olhar sinistro, cabeça essa cheia de ligaduras presas com largos adesivos.

O ser olhou Agostinho caído no chão, sorriu-se piscando os olhos e disse na sua língua incompreensível:

— Toma lá ó cabrão p'ra ver se gostas! Vai dar com o ferro nos cornos do teu pai!


Oeiras, Dezembro 2007
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sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

recordações de um velho viajante das estrelas

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Esta estória foi escrita em Dezembro de 1995. Ela reflecte o meu púbere interesse e o meu entusiasmo pela Ficção Científica - 'Antecipation' pour les français - e a minha paixão pela Filosofia. Os personagens fazem parte de algumas das minhas referências filosóficas.


RECORDAÇÕES DE UM VELHO VIAJANTE DAS ESTRELAS

Hoje, cada vez mais perto do fim da vida, a pele antes lisa e brilhante agora enrugada e flácida, os olhos esforçados começando a falhar, vergado pelo peso dos anos, cansado, velho viajante das estrelas, recordo com saudade, por vezes mesmo com um pouco de amargura, o tempo em que descer num qualquer planeta desconhecido era algo que eu fazia com um frémito de emoção a percorrer-me o corpo como se de um encontro de adolescente se tratasse.

A descida, por vezes violenta, em solos desconhecidos e traiçoeiros, a saída da nave encerrado no meu escafandro, simultaneamente prisão e protecção, felizmente para mim até hoje nunca esquife, o corpo a tremer, os primeiros movimentos, lentamente, tacteando, passo a passo, com grande cuidado, procurando identificar qualquer perigo mas apreciando também as visões maravilhosas que muitas vezes se desenrolavam diante dos meus olhos, padrões e movimentos inacreditáveis, cores fantasticamente inimagináveis, infernos imensos, fornalhas abrasadoras, autênticas fontes de vida cósmica.

A sensação grandiosa e assustadora, o privilégio, de estar a assistir ao nascimento de universos, a big-bangs, eternos recomeços da grande roda do existir, visões da eternidade, encontros com Ele.

Assim percorri desbravando durante uma vida inteira toda a Galáxia para que hoje os seus caminhos sejam conhecidos e seguros para os viajantes actuais, e para os milhões de colonos que saídos da Terra se espalharam pelos planetas mais promissores, novos mundos, novas índias e novas américas.

De entre todas as descidas que fiz ao longo da minha vida de explorador estelar recordo com prazer mas sempre com um gélido arrepio de estranheza pelo que teve de fantástico, de irreal, de surrealista, a descida que fiz em Hermes.

Ainda hoje me interrogo sobre o que verdadeiramente aconteceu, e que guardei para mim não tendo comunicado nada nos relatórios, até porque o Governo Terrestre desinteressou-se completamente em relação a Hermes não tendo efectuado nenhuma acção posterior para a sua colonização, ficando o seu segredo guardado para sempre.

Não se sabia nada a respeito desse planeta pois um manto permanente de nuvens impedia a observação visual directa e os seus forte campos magnéticos causavam enormes interferências nos instrumentos das sondas pelo que a solução era efectuar uma descida directa no planeta.

Foi essa a ordem que recebi quando me encontrava a meio caminho de Aldebaran e assim dirigi-me rapidamente para Hermes.

Posta a nave em órbita estacionária, instalei-me no módulo de descida e accionei os comandos.

O computador entrou em funcionamento e o módulo soltou-se entrando em queda livre em direcção à superfície ainda desconhecida de Hermes.

As nuvens de vapor sulfuroso envolviam o módulo e tornavam-se cada vez mais densas à medida que vertiginosamente descia com a estranha sensação de que nesta descida havia algo que a ia tornar bastante diferente das outras e que eu iria ficar para sempre marcado.

Contudo, não era uma sensação de tragédia mas antes uma sensação de ir penetrar noutra dimensão existencial.

Noutro universo.

Os travões foram automaticamente accionados pelos sistemas de navegação e o módulo pousou suavemente na superfície de Hermes, não sem antes se ter inclinado ligeiramente a bombordo fruto de uma provável cedência do terreno sob o peso das sapatas de aterragem.

Feitas e registadas as primeiras análises e medições à atmosfera e ao solo pelos sistemas automáticos chegou a altura de sair.

Abri a escotilha pela qual nuvens de vapor voltearam e penetraram no módulo e sai para o exterior.

O vapor amarelo formava um nevoeiro cerrado à minha volta envolvendo-me como uma estranha mortalha.

Decidi em que direcção iria avançar após analisar as imagens sobre a topografia do terreno em que me encontrava.

Uma cadeia de altas montanhas a poucos quilómetros, destacada da imensa planície pedregosa despertou o meu interesse e foi nessa direcção que resolvi avançar.

Guiava-me por instrumentos pois a visibilidade era praticamente nula.

Ao chegar às faldas da montanha piramidal deparei com um túnel imenso que penetrava profundamente na montanha e afoitamente entrei pelo túnel pois este certamente iria conduzir-me a algum lado e eu estava cheio de curiosidade.

A iluminação do meu capacete permitia-me avançar, e os instrumentos iam-me fornecendo informações constantes.

A minha surpresa começou com a diminuição da densidade da névoa à medida que eu avançava pelo túnel e com as informações dos instrumentos que me indicavam que a composição da atmosfera se ia também modificando assemelhando-se muito à atmosfera da Terra numa região temperada, sendo assim perfeitamente respirável para mim.

O receio e a cautela contudo fizeram com que eu conservasse o meu escafandro vestido.

Tinha já avançado bastante pelo túnel quando este acabou bruscamente e a intensa luz do sol local me envolveu e momentaneamente me cegou.

Quando consegui de novo ver, o meu espanto foi indescritível.

A imagem que me rodeava parecia uma impossibilidade.

Encontrava-me num jardim verdejante pleno de relva e árvores floridas como se estivesse de novo na Terra.

Mas eu sabia que estava em Hermes e aquilo tinha que ter uma explicação.

Talvez a montanha envolvente provocasse uma bolsa atmosférica do tipo terrestre em que espécies vegetais do mesmo género se tivessem desenvolvido num estranho processo evolutivo e selectivo paralelo, a milhares de anos-luz do planeta azul.

A verdade é que eu estava ali e era uma testemunha privilegiada da existência daquele local idílico, que certamente algumas pessoas mais crentes não hesitariam em considerar o Céu.

Percebendo que não existia qualquer perigo despi o meu escafandro e resolvi explorar aquele estranho, impossível jardim, aquele verdadeiro éden.

Assim fui caminhando ao longo de um ribeiro que suavemente murmurava por entre moitas verdejantes e margens de deliciosa relva, envolvido em nuvens esvoaçantes de belamente coloridas e grandes borboletas como eu nunca imaginara que pudessem existir.

Em redor a paisagem pouco mudava, árvores por todo o lado proporcionavam magníficas sombras.

Foi com uma grande surpresa, que me fez de súbito estacar, que me apercebi que ao longe e na minha direcção vinha uma figura indubitavelmente humana.

Um homem de aspecto idoso.

Ligeiramente curvado para a frente, de mãos atrás das costas, vestido com roupas como eu nunca tinha visto mas que me recordavam vagamente imagens dos séculos XIX e XX aprendidas nos livros de história e em alguns velhos filmes de cinema com histórias passadas nesses séculos, caminhava calmamente, com ar meditativo.


Quando chegou ao pé de mim parou e fixou-me com um olhar penetrante e interrogativo.

Em dinamarquês, eu tinha comigo o meu tradutor universal AppleTranslator, cumprimentou-me apresentando-se:

— Bom dia senhor, permita-me que me apresente. Søren Aabye Kierkeggard. Sabei que Deus existe e está em toda a parte. A prova é que nos encontramos neste local que está em todo o lado e em parte nenhuma. Só lamento não ter ainda encontrado a minha muito amada Regina Olsen, apesar do que tenho caminhado.

E afastou-se, andando ao longo do regato e desaparecendo ao longe.

Eu, pela minha parte, fiquei sem saber o que pensar.

Que raio de sítio seria aquele? Existiria de facto? Pelo menos eu tinha a certeza que podia nomeá-lo: Hermes, o mensageiro.

Sentia a sua essência envolver-me.

Vencendo a imobilidade que o espanto causara no meu corpo retomei a marcha.

Alguns passos andados eis que novo vulto se aproxima de mim.

E de novo, desta feita em alemão, apresenta-se:

— Bom dia senhor, sou Martin Heidegger. Sabei que estou profundamente preocupado com o Dasein, o “ser-aí”. E ainda não o encontrei, nem mesmo aqui. Esse lugar onde o ser se desenvolve e pode ser atingido. A aparência é ocultamento.

E afastou-se, não sem antes me ter recomendado que meditasse bastante sobre a metafísica.

Continuei a caminhar completamente estupefacto, e vi sentado na relva à sombra de uma árvore um homem que não precisou de se apresentar pois reconheci-o facilmente pelo seu ar grave, extasiado, de contemplação divina.

Era Immanuel Kant.

Cumprimentei-o com um aceno de cabeça.

Num alemão perfeito dirigiu-me a palavra:

— Estou convencido que a electricidade causa uma doença generalizada nos gatos. E não se atreva a vir-me falar de Lampe!

Ao afastar-me, ainda o ouvi murmurar:

— ... o céu estrelado por cima de mim e a lei moral em mim.

Andei um pouco mais, inebriado que me sentia.

Sentia-me como num sonho.

Olhava à volta, via com nitidez as ervas, o regato, as árvores, as frescas sombras, mas...

Aqueles personagens pareciam-me absolutamente reais, contudo...

— Absolutamente! Diz muito bem! — trovejou outra voz em alemão, atrás de mim.

Sobressaltei-me, voltei-me de um pulo e deparei com Hegel, pois assim se identificou:

— Georg Wilhelm Friedrich Hegel, qual é o espanto? Já que vos atrevestes a devir até aqui, ficai sabendo que tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real! — e, virando-se bruscamente, afastou-se em largas passadas.

Eu, fiquei literalmente a olhar o Infinito!

Depois de todos estes encontros, com a cabeça a rodopiar como uma nave caída num vórtice, rapidamente regressei pelo mesmo caminho à minha nave partindo para outro lugar e não tendo até hoje regressado a Hermes.

Será que tudo aquilo foi real ou terei eu sido vítima de alguma alucinação?

E tendo sido real como me pareceu, que local seria aquele?

Onde está a Prova Ontológica?

Ainda hoje não sei a resposta a nenhuma das questões, mas fiquei convencido duma coisa:

A EXISTÊNCIA PRECEDE A ESSÊNCIA!


Oeiras, Dezembro 1995 .

segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

OVNI na Fábrica

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Recebemos hoje, via e-mail, uma comunicação/convite que recomendamos a todos aqueles que se interessam por boa literatura.




APRESENTAÇÃO NA FÁBRICA


Na próxima quinta-feira 20 de Dezembro, a OVNI fará uma festa de apresentação na Fábrica de Braço de Prata, a partir das 21.30h.

Nesta longa noite de solstício, haverá avistamentos, livros, música e imagem.

Vamos aproveitar para falar do último livro, O ALIENISTA E OUTRAS RARIDADES, uma selecção de contos de Machado de Assis levada a cabo por João Camilo, que também assina o prefácio. Duzentas e trinta páginas com alguns dos melhores contos do mestre brasileiro. E, claro, falaremos de todos os outros livros já publicados, dos autores e do projecto OVNI.

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sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

coleccionava singularidades

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Caros Leitores, esta estória, escrita em 22 NOV 2001, tem um fundo profundamente autobiográfico, como notarão aqueles que me conhecem bem. É um pedaço, uma partícula, um instante de mim.


COLECCCIONAVA SINGULARIDADES

Coleccionava singularidades. Começara ainda miúdo com um pequeno fóssil de turritela terebralis (A) que encontrara numa escarpa rochosa da praia onde passava as quentes e doces férias de verão.

Apanhou-o do chão com os seus pequenos dedos, rolou-o e observou-o com atenção fascinada. Uma pequena rosca de rocha dura. Um milhão de anos na ponta dos seus dedos juvenis. Um frémito percorreu o seu corpo.

Um tiranossaurus rex rugiu ao longe. Apertou a pequena rocha fusiforme na palma da mão e forçou as pernas a moverem-se. Era difícil mover os pés, mergulhados no lodo jurássico. Mas conseguiu. E caminhou seguro sobre a areia quente da praia, sob o sol escaldante e inclemente, até ao chapéu de sol onde a família estava abancada.

Quando as férias terminaram levou para casa aquele objecto precioso, aquele tesouro singular, e guardou-o bem guardado no seu quarto. O tempo passou e regularmente pegava no objecto e observava-o com paixão e fascínio, pensando "onde este estava há mais e vou recolhê-los!"

E recolheu. Mais turritelas. Não só naquele local mas em muitos outros onde as encontrava. Não só turritelas mas tudo quanto fosse fóssil, pedra curiosa, cristal, pedaço de madeira, objecto curioso, singularidade...

Por todo o lado, em casa, no sótão, na arrecadação, nas gavetas, sobre os móveis, em caixas velhas de cartão, aqui e ali, havia objectos da sua colecção. Mas sentia-a sempre incompleta. Não conseguia considerá-la terminada, completa e finita. Sentia que 'cabia sempre mais um'. Havia sempre mais um objecto a acrescentar. Aparecia. Encontrava-o. Achava-o. Não o podia desperdiçar e deixar a colecção incompleta! Assim, juntava, juntava, juntava...

O miúdo tinha crescido. Fizera-se homem adulto. E a colecção crescera desmesuradamente. A maioria dos objectos, para os outros, era apenas 'tralha'. Não tinham valor nenhum. Quanto muito haveria um ou outro mais 'giro' ou 'curioso'. Apenas isso. Mas para ele era bem diferente. Eram valiosíssimos. Eram a Sua Colecção! E valiam pela singularidade. Não se conseguia desfazer deles, de nenhum deles. Não conseguia sequer imaginar-se sem eles.

Sonhara um dia organizá-los numa espécie de mini-museu caseiro. Organizados e dispostos em belas prateleiras de vidro, iluminados com arte e com pequenas etiquetas identificadoras. Mas via cada vez mais longínquo esse sonho. Razões económicas, já se vê. O que não o impedia de continuar a coleccionar. A colecção infinita.

Por vezes olhava um ou outro objecto da sua colecção, que descobria ao abrir uma gaveta ou a porta de um móvel. Uma velha lupa de vidro da qual sobrara o aro e a lente e desaparecera a pega ou um pequeno canivete suíço ao qual faltava o palito, a sua primeira máquina fotográfica para a qual já não havia rolos, um dente de cavalo achado na praia e metido numa caixinha plástica com um algodão no fundo, a ocular da máquina fotográfica que se avariara, desmontara e 'lixara', o passe de estudante da CP de Oeiras a Cascais com o velho bilhete mensal de 47$50, uma lente de óculos com função de godé suja de gouache, uma lanterna que há anos não funcionava, um isqueiro a gasolina trucidado por um carro e todo amachucado, uma pequena válvula de combustível de um avião T7, parafusos, porcas, pedras, conchas, pedaços disto, pedaços daquilo, pedaços de tudo e pedaços de nada, porções, completudes, singularidades..., e pensava "para que quero eu esta merda?" Mas não conseguia deitar o objecto fora. Sentia-o como único no cosmos. Podia haver muitos parecidos, mas nenhum rigorosamente igual. O que o tornava singular. E lhe dava um valor inestimável. E lá voltava o objecto para a gaveta ou caixa de onde tinha saído.

Chegou a pensar em organizar os objectos em colecções temáticas: moedas, selos, postais, fósseis, fotografias, rochas, búzios e conchas, desenhos, navalhas, livros, miniaturas, isqueiros, óculos, canetas... Uma Colecção de Colecções! Mas não funcionou. Apareciam sempre novos objectos a abrir novas rubricas e outros que 'voavam' de rubrica em rubrica. A carteira profissional da avó ou a certidão de nascimento do pai entravam na rubrica 'documentos', na rubrica 'história', na 'família' ou em 'testemunhos do período fascista'? Que confusão! Assim continuou, como sempre. A juntar. Juntando, juntando, juntando...

Coleccionava singularidades.<