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REVELAÇÃO
Era uma noite negra como breu. A lua estava nova como uma virgem intocada e o denso manto de nuvens ocultava as pálidas estrelas.
Apenas uma ténue, muito ténue, claridade permitia distinguir a longa língua negra sobre a qual caminhava, das bermas densas mais e menos escuras aqui e ali que a bordejavam.
Saíra do seu canto há já um bom par de horas em busca do sinal revelador que há anos procurava. Estava prenhe de fé. Duma fé absolutamente inabalável. Sentia que a revelação estava para breve. Para muito breve.
O cansaço fazia já efeito nas suas pernas, através duma dor aguda que descia por elas abaixo. Mas tentava não pensar nisso e continuava na sua caminhada.
Súbito, numa volta do caminho, viu o sinal. Finalmente! A tão ansiada revelação atingiu o íntimo do seu ser. Inundou-o como um oceano quente e doce.
O sinal, uma aura luminosa, cresceu desmesuradamente à frente dos seus esperançosos olhos e ele, acelerando o passo na sua direcção, gritou:
— EU VEJO A LUZ! EU VEJO A LUZ!
Não teve foi tempo para o relatar a ninguém.
O pesado camião TIR atingiu-o em cheio e continuou viagem, sem se deter.
Oeiras 14 Março 2009
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Este lugar regista INSTANTES, momentos do meu ser. É um oceano, por vezes turbulento, de coisas que aconteceram, que acontecem, que irão acontecer e de coisas que... invento. É um casebre, que poderá parecer um pouco lúgubre, invaginado no seio da triste e escura floresta da minha existência, construído para os arrumos do que anda perdido na gaveta do esquecimento.
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domingo, 15 de março de 2009
mau estar
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MAU ESTAR
O mau estar que se instalara na sala persistia e teimava em não desaparecer.
Nem a generosa porção de presunto serrano, delicadamente adormecida numa travessa de cristal da Baviera com pegas e minúsculos pés de prata, acompanhada dum excelente e genuíno queijo da Serra, docemente esparramado numa tábua de nogueira, dum saboroso, requintado, pão saloio e duma esplêndida garrafa de tinto da Vidigueira, colheita de 2001, quebravam o gelo e aliviavam a tensão opressiva acaçapada sobre todos.
A pesada e densa nuvem esmagava os presentes. Colara-se aos seus corpos como geleia.
Ninguém se denunciou nem acusou ou sequer se desculpou. E o cheiro fétido, grotesco, intestinal, permaneceu no ar por muito tempo.
Oeiras 10 Março 2009
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MAU ESTAR
O mau estar que se instalara na sala persistia e teimava em não desaparecer.
Nem a generosa porção de presunto serrano, delicadamente adormecida numa travessa de cristal da Baviera com pegas e minúsculos pés de prata, acompanhada dum excelente e genuíno queijo da Serra, docemente esparramado numa tábua de nogueira, dum saboroso, requintado, pão saloio e duma esplêndida garrafa de tinto da Vidigueira, colheita de 2001, quebravam o gelo e aliviavam a tensão opressiva acaçapada sobre todos.
A pesada e densa nuvem esmagava os presentes. Colara-se aos seus corpos como geleia.
Ninguém se denunciou nem acusou ou sequer se desculpou. E o cheiro fétido, grotesco, intestinal, permaneceu no ar por muito tempo.
Oeiras 10 Março 2009
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sexta-feira, 18 de julho de 2008
crónica dum inconfessável
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CRÓNICA DUM INCONFESSÁVEL
Quase todos os dias a via fugazmente. Ou na camioneta ou na gare da estação ou no comboio rápido saindo em Alcântara, segundo lhe tinha uma vez parecido. Eram curtos e breves momentos fugidios. Por vezes, quando esperavam a camioneta lá na rua, tinha um pouco mais de tempo para catrapiscar o olho enquanto ela se deslocava pelo passeio em direcção ao abrigo.
Achava-a interessante. Não particularmente bonita. Mas jovem e de rosto agradável. Olhos espelhando inteligência e profundidade de sentimento. Cabelo escuro quase negro cortado médio. Pequena, razoavelmente mais baixa que ele e sempre de calças e casaco escuros. A roupa pouco justa mas elegantemente vestida a deixar adivinhar, quiçá sonhar com, formas interessantes de uma mulher a amadurecer. Um dia viu-a de saia. Viu-a do joelho para baixo. Pernas a dar para magro, de musculatura bem recortada, saliente. Torneadas. Assentes sobre pés calçados com sapatos pretos de salto não muito alto. Pernas a fazerem sonhar com amores ambulatórios contra uma qualquer parede proibida, longe de vistas indiscretas. Gémeos excitantes.
Apanharam o comboio lado a lado. Costas encostadas ao separador da carruagem, lia um livro e apoiava-se, para se equilibrar, de pernas ligeiramente afastadas e rígidas, salientando os músculos num assomo de energia imperativa e categórica. Excitou-o mais do que habitualmente. Gravou-se-lhe na memória a fogo bruto. A fogo duro. Inundou-o um delírio de fantasias evocativas de ruas molhadas pela chuva fria do outono, luzes baças pingando no alcatrão estalado e velho, néons crepitando, bocas, lábios, línguas a saberem a mel de alfazema, odores a trigo molhado, sexo túrgido contra ventre em brasa.
Poucos dias depois voltou a vê-la. Surpreendeu-o surgindo de súbito apressada quando ele saía do prédio. Dirigia-se como habitualmente no rumo do abrigo das camionetas mas, sem se deter, passou por trás deste. Talvez uma boleia. Ele apanhou a camioneta que chegava, com aquela fugaz imagem no pensamento, pensando se voltaria a vê-la. Estava no quiosque a tomar a habitual bica quando ela surgiu novamente e se dirigiu também para o quiosque. Ia tomar o seu pequeno-almoço. Olhou-a e reparou como era baixa. A testa dela dava talvez pelo queixo dele. Acabou de tomar o café e dirigiu-se para a gare de embarque. Passado pouco tempo ela passou por ele. Apanharam o mesmo rápido.
Seguiam muito perto um do outro. Pelo vidro separador ao qual ele se apoiava via-a no corredor voltada para o mar perdida em contemplação aquosa. Desta vez observou-a um pouco mais, tentando fazê-lo o mais discretamente possível.
Não soube se percebeu que a observava. Pensou que sim. As mulheres não são indiferentes a um observador solitário. Geralmente dão por isso, apesar de procurarem transmitir o contrário. Ou o mais absoluto desinteresse. Hoje não tinha um ar tão 'executivo'. Estava mais desportiva e fresca. Talvez a adivinhar os 30° previstos para Lisboa.
Tinha também as mesmas pernas. bem torneadas a provocarem-lhe os mesmos desejos inconfessáveis...
Oeiras, 12 Outubro 2002
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CRÓNICA DUM INCONFESSÁVEL
Quase todos os dias a via fugazmente. Ou na camioneta ou na gare da estação ou no comboio rápido saindo em Alcântara, segundo lhe tinha uma vez parecido. Eram curtos e breves momentos fugidios. Por vezes, quando esperavam a camioneta lá na rua, tinha um pouco mais de tempo para catrapiscar o olho enquanto ela se deslocava pelo passeio em direcção ao abrigo.
Achava-a interessante. Não particularmente bonita. Mas jovem e de rosto agradável. Olhos espelhando inteligência e profundidade de sentimento. Cabelo escuro quase negro cortado médio. Pequena, razoavelmente mais baixa que ele e sempre de calças e casaco escuros. A roupa pouco justa mas elegantemente vestida a deixar adivinhar, quiçá sonhar com, formas interessantes de uma mulher a amadurecer. Um dia viu-a de saia. Viu-a do joelho para baixo. Pernas a dar para magro, de musculatura bem recortada, saliente. Torneadas. Assentes sobre pés calçados com sapatos pretos de salto não muito alto. Pernas a fazerem sonhar com amores ambulatórios contra uma qualquer parede proibida, longe de vistas indiscretas. Gémeos excitantes.
Apanharam o comboio lado a lado. Costas encostadas ao separador da carruagem, lia um livro e apoiava-se, para se equilibrar, de pernas ligeiramente afastadas e rígidas, salientando os músculos num assomo de energia imperativa e categórica. Excitou-o mais do que habitualmente. Gravou-se-lhe na memória a fogo bruto. A fogo duro. Inundou-o um delírio de fantasias evocativas de ruas molhadas pela chuva fria do outono, luzes baças pingando no alcatrão estalado e velho, néons crepitando, bocas, lábios, línguas a saberem a mel de alfazema, odores a trigo molhado, sexo túrgido contra ventre em brasa.
Poucos dias depois voltou a vê-la. Surpreendeu-o surgindo de súbito apressada quando ele saía do prédio. Dirigia-se como habitualmente no rumo do abrigo das camionetas mas, sem se deter, passou por trás deste. Talvez uma boleia. Ele apanhou a camioneta que chegava, com aquela fugaz imagem no pensamento, pensando se voltaria a vê-la. Estava no quiosque a tomar a habitual bica quando ela surgiu novamente e se dirigiu também para o quiosque. Ia tomar o seu pequeno-almoço. Olhou-a e reparou como era baixa. A testa dela dava talvez pelo queixo dele. Acabou de tomar o café e dirigiu-se para a gare de embarque. Passado pouco tempo ela passou por ele. Apanharam o mesmo rápido.
Seguiam muito perto um do outro. Pelo vidro separador ao qual ele se apoiava via-a no corredor voltada para o mar perdida em contemplação aquosa. Desta vez observou-a um pouco mais, tentando fazê-lo o mais discretamente possível.
Não soube se percebeu que a observava. Pensou que sim. As mulheres não são indiferentes a um observador solitário. Geralmente dão por isso, apesar de procurarem transmitir o contrário. Ou o mais absoluto desinteresse. Hoje não tinha um ar tão 'executivo'. Estava mais desportiva e fresca. Talvez a adivinhar os 30° previstos para Lisboa.
Tinha também as mesmas pernas. bem torneadas a provocarem-lhe os mesmos desejos inconfessáveis...
Oeiras, 12 Outubro 2002
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sexta-feira, 11 de julho de 2008
bate leve, levemente...
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BATE LEVE, LEVEMENTE...
— MAS QUE PORRA... QUE MERDA É ESTA? O QUE É ISTO?! — praguejou, piscando os olhos, vesgos de quem acaba de acordar dum sono estranho e doentio.
Olhou atónito o sítio onde se encontrava.
Torceu-se, retorceu-se como uma irós, e fez menção de se levantar, o que não conseguiu. Tinha os pulsos bem amarrados por uma corda grossa, presa ao cano do autoclismo. Estava sentado no tampo duma sanita, com as calças para baixo a prenderem-lhe as pernas, numa obscuridade que, apesar de intensa, lhe permitia perceber que estava numa minúscula casa de banho, sem janela, onde um cheiro fétido a fezes e urina se fazia sentir, entranhando-se pelas narinas sem pedir licença.
O coração acelerou e batia como um tambor. Ribombava na caixa torácica e martelava-lhe os ouvidos. Mas que raio era aquilo? Onde estava e o que fazia ali naquela situação?
A última e única coisa de que se lembrava era de caminhar calmamente pela rua na direcção de casa, do seu quarto.
Procurou fazer um flashback, recordar tudo o que tinha feito durante o dia.
Acordara por volta das 11h., com a algazarra que vinha da rua, mesmo por baixo da sua janela. O regabofe era de tal ordem, que não conseguira cair de novo no sono, e levantara-se para ir espreitar à janela a ver o que se passava, apesar de no seu íntimo ter já uma suspeita do que era.
Abrira a janela, debruçara-se e olhara para a rua, para confirmar o que sabia.
As suas vizinhas do prédio do lado, a Matilde e a Gertrudes tinham-se pegado outra vez uma com a outra, à porrada e aos gritos,
Agarradas uma à outra puxavam mutuamente os cabelos e gritavam insultos, indiferentes à pequena multidão que se tinha juntado à volta delas a gozar o prato e sem interferir, que nestas coisas é melhor deixá-las descansadas.
A história era antiga e as pegas useiras e vezeiras.
A Matilde acusava a Gertrudes de lhe andar a comer o homem, e que este a tinha emprenhado daquele aborto que ela fizera seis meses antes.
A Gertrudes defendia-se dizendo que a Matilde é que andava a abrir as pernas aos homens todos lá do bairro que toda a gente sabia que ela era uma grandessíssima putona e até na feira era com os fiscais e tudo e que nenhum dos cinco filhos dela era do marido pobre homem coitado do Mariano que era encornado e ceguinho com certeza porque não fazia nada.
Enfim, eram as tricas do costume entre vizinhas lá no bairro.
Aquelas não eram as únicas. De vez em quando lá havia alguém que se travava de razões com outro, pelos mais diversos motivos.
Aquele chinfrim tinha-lhe afugentado o sono para longe e já nada havia a fazer quanto a isso. Teria que esperar pela noite para ele voltar. O melhor era vestir-se e ir dar uma volta. Curtir um pouco.
Assim fizera. Fora à casa de banho mijar, dar o habitual traque e tirar as ramelas dos olhos, só tomava banho uma vez por mês, para poupar água dizia.
Voltara para o quarto e vestira-se. As calças de ganga e a mesma t-shirt com que andava há três dias e que mais dia menos dia teria que pôr para lavar. Como a mulher do padrasto, a Celeste, ainda não o tinha chateado a esse respeito, ia adiando.
Por falar em mulher do padrasto lembrou-se das belas coxas da gaja, e o calor inundou-lhe o baixo ventre.
A gaja, trinta e dois aninhos, era um portento. Um par de mamas que pareciam dois balões prontos a rebentar nas trombas dum mânfio, um cagueiro d'arrebenta e umas mocas boas como o milho.
Já uma vez em que ficara em casa sozinho com ela, o padrasto fora para Espanha por duas semanas trabalhar numas obras, ele tinha andado a arrastar-lhe a asa. Mas a puta dera-lhe uma grande nega.
Ele bem tentara. Falara-lhe sempre com voz meiguinha, o mais doce que conseguia por entre os dentes cariados, negros e a cair, fizera-lhe algumas festinhas na cara de vez em quando, dissera-lhe como era belo e bem cheiroso o cabelo dela, parecia um vasculho... mas um gajo tem que dizer estas coisas, deixara-a ver na televisão as telenovelas que ela queria, mais os programas do Goucha, da Fátima, da Rita e da Júlia, para se cultivar dizia ela, à conta disto para ver a bola, o seu amado Glorioso, tivera que ir para a tasca do Jeremias, até partilhara com ela uma garrafa de Gin que conseguira gamar no super do Reboredo, para a excitar andara só em cuecas ou calções pela casa, e era inverno e estava um frio de rachar, a fazer um esforço do caraças sempre que passava por ela para encher o peito de ar e encolher a barriga para lhe mostrar o caparro, as gajas gostam, sem ela topar friccionava a sarda para a pôr de pau feito por baixo das cuecas ou dos calções, e aparecia na sala com uma desculpa qualquer para ela ver que ele estava com tesão e que tinha um grande marzápio, capaz de a trespassar e fazer subir aos píncaros da Lua, mas... népias! NÉPIAS!
A cabrona da Celeste nunca cedera.
Resistira sempre aos seus avanços, sem dizer uma palavra, sem dar um sinal de que estivesse interessada numa boa queca. Certamente por temer as consequências, se o padrasto dele soubesse. Este era homem para os matar aos dois e o mais certo era ela não estar a fim de arriscar, devia ser só isso...
Ele, não tinha esse medo. Se o padrasto se armasse em parvo só por causa dum inocente par de cornos, era bem capaz de o enfrentar, enfiar-lhe umas chapadonas nas fuças para o deixar sossegado.
Também, depois de dar uma valente duma pranchada na Celeste queria lá saber do padrasto. Ele que se lixasse.
Lembrava-se bem de que se tinha vestido, que tinha passado pela cozinha, onde bebera uma cerveja fresca à maneira e comera um naco de presunto, pão e azeitonas, o seu habitual pequeno-almoço, acendera um cigarro e saíra para a rua no meu duma canícula tremenda pois o verão estava no pino.
Andara pela rua fora e a meio, lembrava-se, encontrara o Calita, que lhe devia uma cinquenta e que, encostado na soleira duma porta, tentara fazer que não o vira, assobiando para o ar, mas não conseguira evitá-lo quando ele parou e se virou mesmo à sua frente, o agarrou pelo pescoço e lhe pediu o cacau, o graveto, o pilim, os carcanhóis.
— MAN, O MEU GRAVETO?!
— PÁ, CALMA! COOL MAN! EU PAGO! NA BOA, MAN! JÁ TENHO QUASE A MASSA TODA PRA TE PAGAR. OLHA AQUI. — mostrara-lhe uma nota de vinte euros, outra de dez e duas moedas de dois euros, que ele olhara desdenhosamente.
— CAGUEI NESSA MERDA, CARALHO! DEVES CINQUENTA! SE NÃO PAGARES ATÉ AMANHÃ, JÁ SABES... TÁS FODIDO COMIGO!
Afastara-se e continuara o seu caminho, após dar um tabefe na cara do Calita, que ficou para trás a murmurar e a choramingar que lhe ia pagar tudo até ao último cêntimo, nem que tivesse que ir roubar - que era o mais certo... - que eram amigos desde putos, que era incapaz de trair um amigo que era como um irmão, que tinha a mãe doente no Francisco Xavier com um cancro na rata, que a irmã chavalinha tinha passado a noite na mata do Monsanto a trabalhar no oral e euros nicles, que o pólen que vendi ao Óscar moné inda não lhe vi a cor, que ai meu deus esta puta de vida é uma merda...
Recordava-se de ter saído do bairro para a avenida que descia em direcção à grande praça com a estátua moderna de cimento e chapa pintada às cores, na placa do meio, que ninguém percebia que merda era aquela, recordava-se de ir a caminhar pelo passeio da avenida abaixo, a fumar outra cigarrada e a apreciar as gajas que passavam apressadas, mais as estranjas descascadas.
Chegara ao largo, ainda sem saber muito bem onde se dirigir. Gostava de passear ao sabor do acaso. Até que tinha tido uma ideia que lhe iria tornar o dia mais agradável e o calor mais suportável.
Ir comprar uma ganzazita ao Pívias e ir para casa fumá-la, aproveitando pelo caminho para passar no snack do Santos e comprar meia dúzia de jecas fresquinhas para ajudar à festa.
Lembrava-se que assim fizera. Lembrava-se de se dirigir à casa do Pívias, era no prédio amarelo... mas a partir daqui as coisas tornavam-se nebulosas. Um nevoeiro denso, cerrado e escuro envolvia-o e não conseguia recordar mais nada.
— PORRA!
Tinha que fazer o ponto da situação, outra vez.
Remexeu-se no assento, suspirou e olhou em volta, semicerrando as pálpebras, atento aos pormenores.
Estava preso numa minúscula casa de banho, só com a sanita e um urinol à sua esquerda, às escuras, sem qualquer abertura, com a porta a escassos centímetros, sentado no tampo da dita sanita, com as calças em baixo, mas de cuecas.
Não lhas tinham tirado nem a t-shirt. Os pulsos estavam presos por uma corda ao cano do autoclismo, atrás de si e puxavam-o para trás. Olhou para baixo. Tinha os pés descalços mergulhados em água, cheia de mijo, beatas e pedaços de papel higiénico borrados, que inundava o chão, numa espessura de quase dois centímetros. O tecto nada tinha de assinalável, excepto por estar escamado e encardido e ter uma lâmpada apagada pendurada no suporte, sustentado por um pedaço do próprio fio eléctrico. Parecia a casa de banho duma qualquer baiuca do Cais do Sodré. O cheiro fétido, mesmo para ele, habituado a andar na merda, era insuportável, e as moscas que esvoaçavam à sua volta também o incomodavam.
Talvez fosse melhor, ao invés de tentar recordar o que fizera ao longo do dia desde que se levantara, fazer a coisa ao contrário, da frente para trás como se rebobinasse um filme ou uma cassete. Talvez assim conseguisse chegar a uma conclusão. Pelo menos a algo que o satisfizesse, que lhe desse uma ideia, mesmo que pálida, de como ali chegara. Mais tarde pensaria no que fazer para sair dali. Para se pisgar e pôr a salvo.
Concentrou-se no processo de rebobinar a película.
Acordara ali. Antes de acordar tinha estado inconsciente. Isto era óbvio. Mas... e antes disso?
Fez um tremendo esforço para se recordar da última coisa que vira, que sentira, que cheirara, que tocara, que saboreara, que estimulara os seus sentido enfim. Quase conseguia ouvir as cremalheiras do seu cérebro a rangerem do esforço.
Súbito, uma imagem surgiu. Um carapuço a ser enfiado na sua cabeça.
A partir desta imagem de forte pregnância, outras começaram lentamente a surgir do fundo lodoso da sua estilhaçada memória.
Fragmentos emergiram e foram-se juntando em pedaços maiores, formando um puzzle que crescia e que se ia tornando mais compreensível, à medida que ganhava cor e corpo, forma, estrutura.
A densidade das evocações aumentava com esforço, mas claramente.
A memória dos sentidos voltava.
Sentiu o nada sentir, o negrume, a inconsciência.
Sentiu o fugir do espírito para o vazio, o desmaio.
Sentiu de novo a forte pancada na nuca por cima do carapuço, quando este lhe tirou completamente a visão.
Viu as mãos fortes e peludas que saíam de punhos de camisas virginais e mangas de casacos negros, que o seguravam fortemente, acompanhavam no seu silêncio a mudez dos dois gigantes amarelos que saiam do carro que bruscamente travara ao seu lado.
Ouviu o carro travar e guinchar.
Agora recordava-se bem. Descia a avenida e o carro fizera uma travagem violenta ao seu lado, daquelas que deixam quilos de borracha no alcatrão. Dele tinham saído dois homens possantes de ar achinesado que, sem uma palavra, o tinham imobilizado, lhe tinham enfiado o garruço na cabeça, lhe tinham dado uma pancada na nuca. Depois, a escuridão absoluta.
Esta parte lembrava, mas e o antes?
Quem eram aqueles homens e porque carga de água o tinham prendido naquele lugar imundo?
Concentrou-se novamente nas fugazes memórias, que lhe escapavam como água por entre os dedos.
Conseguiu com esforço e tenacidade agarrar uma delas. Suspeitava que esta era um elo relevante e esforçou-se ainda mais.
Lembrou-se que enquanto caminhava pela avenida, vinha a pensar em qualquer coisa de importante. Vinha, vinha. Mas no quê?
O fotograma do filme que tentava rever bateu-lhe no espírito como se uma chapa de aço lhe tivesse caído em cima.
Estava a pensar, precisamente, que suspeitava que andava a ser seguido por agentes de... não recordava.
Recordava, sim, que eles tinham como missão eliminá-lo, um eufemismo para 'matá-lo'. Fazer-lhe a folha, mandá-lo para os anjinhos, para o jardim das tabuletas, por um motivo que ele desconhecia, disto estava seguro, por enquanto. Eles eram agentes duma potência estrangeira, tinha a certeza, e ele nunca se metera em políticas. Queriam matá-lo a propósito de quê?
Que potência era, não sabia. Mas foi rememorando a pouco e pouco o que sabia. o que lembrava. Era uma organização secreta, tão secreta que nem os próprios agentes sabiam que ela existia e que dela faziam parte.
Não tinha ideia de como ele próprio soubera da sua existência. Sempre tivera uma grande intuição para descobrir coisas a partir dos pequenos sinais que nos rodeiam, muitas vezes imperceptíveis. O que era de grande utilidade para cavar da bófia, mesmo antes dela aparecer.
Aflorou-lhe ao espírito, subitamente, o que sabia. A intenção dessa agência secreta era a clonagem de girafas para lhes extirpar os testículos e usá-los para confecção de hamburgueres através duma grande cadeia mundial de restaurantes muito conhecida, pac ou mac qualquer coisa!
Só que para levarem a deles avante era necessário eliminarem do mundo inteiro todas as pessoas que tivessem um especial carinho por girafas, para quando a coisa fosse tornada pública, como sempre acontecia, não haver oposição, manifestações e uma grande bronca de consequências incalculáveis, que poderiam pôr a frágil economia mundial em risco. Ah! Lembrava-se agora! Este era o caso dele.
Quando era carruchinho, praí com seis anos, o padrasto e a mãe, ainda era viva, tinham-no levado ao Jardim Zoológico para ver a bicharada, e o animal de que ele mais gostara fora a girafa, com aquele enorme pescaroço, as gâmbias altas e elegantes, as malhas espalhadas à ganância pelo lombo, o modo curioso de andar, ficara-lhe a atracção e o carinho para sempre. Adorava girafas!
Agora percebia. Ele era um dos que eles tinham que matar, pois claro! Ele nunca aceitaria que se fizessem hamburgueres com culhões de girafa!
Conseguira! Sabia como tinha chegado ali e o porquê!
Uma aguda dor de cabeça tinha-se entretanto instalado na sua mona. Talvez efeito do tremendo esforço de pensar para recordar. Valera a pena. Estava agora na posse de informações que o situavam naquele contexto e o ajudavam a perceber onde estava e porque estava. Era um enorme alívio.
Continuava no mesmo lugar, mas com a vantagem de já saber como ali tinha chegado, e porquê.
Esperava a todo o instante que um dos brutamontes, um dos chinas, aparecesse para lhe pôr o inevitável ponto final.
Contudo, para lá da porta, nada se ouvia. Nem um barulhinho ou um sussurro que indicasse que houvesse vivalma nas proximidades.
Decidiu, até porque se sentia terrivelmente cansado e agoniado com tudo aquilo, fechar os olhos e passar um pouco pelas brasas. Não evitaria que o matassem, mas ajudaria a passar o tempo e a suportar melhor o desconforto. Até chegar a hora.
Assim fez. Inclinou o tronco e a cabeça para trás até onde lhe foi possível. Cerrou as pálpebras, aumentando a escuridão dentro dos olhos, inspirou e expirou longa e profundamente, acalmou, sentiu que o coração batia mais regular e parava com a cavalgada anterior, o duro tambor abandonou-lhe os ouvidos e emudeceu, e ele deixou-se afundar na sonolência que sentia. Afundar-se e afogar-se.
Abriu bruscamente os olhos estremunhados, com o estampido dum escape dum motão.
À frente dos seus olhos o tecto enegrecido da humidade e sujo de cagadelas de mosca mirava-o implacável.
Soergueu o corpo sobre os cotovelos, apoiou-se nas mãos e fez força até conseguir ficar sentado, e olhou em torno de si, espantado.
Estava no seu quarto, semi-despido, descalço e esparramado na cama desfeita. Doía-lhe a cabeça e a barriga e sentia-se tonto. Tinha dificuldade em focar o olhar. Acabou por o conseguir.
Ao seu lado uma lata de cerveja tombada espalhara o conteúdo sobre o lençol.
Olhou de esguelha para o lado. Na mesa de cabeceira o chamon fitava-o vazio e desconsolado, soltando um intenso cheiro a queimado.
Atirou os braços ao ar, desengonçados, abrindo-os estupidificado e deixou-se cair para trás sobre a almofada com a súbita revelação.
Não estava preso em nenhum WC... estava no seu quarto!
Afinal sempre tinha conseguido chegar a casa do Pívias, tinha regressado a casa e ao seu quarto, não tinha sido raptado coisa nenhuma, GAITA!
Tinha bebido as jecas e tinha fumado a ganza.
Agora percebia tudo:
— PORRA, A MERDA DO AXE BATEU-ME MAL!
Oeiras, 30 Junho 2008
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BATE LEVE, LEVEMENTE...
— MAS QUE PORRA... QUE MERDA É ESTA? O QUE É ISTO?! — praguejou, piscando os olhos, vesgos de quem acaba de acordar dum sono estranho e doentio.
Olhou atónito o sítio onde se encontrava.
Torceu-se, retorceu-se como uma irós, e fez menção de se levantar, o que não conseguiu. Tinha os pulsos bem amarrados por uma corda grossa, presa ao cano do autoclismo. Estava sentado no tampo duma sanita, com as calças para baixo a prenderem-lhe as pernas, numa obscuridade que, apesar de intensa, lhe permitia perceber que estava numa minúscula casa de banho, sem janela, onde um cheiro fétido a fezes e urina se fazia sentir, entranhando-se pelas narinas sem pedir licença.
O coração acelerou e batia como um tambor. Ribombava na caixa torácica e martelava-lhe os ouvidos. Mas que raio era aquilo? Onde estava e o que fazia ali naquela situação?
A última e única coisa de que se lembrava era de caminhar calmamente pela rua na direcção de casa, do seu quarto.
Procurou fazer um flashback, recordar tudo o que tinha feito durante o dia.
Acordara por volta das 11h., com a algazarra que vinha da rua, mesmo por baixo da sua janela. O regabofe era de tal ordem, que não conseguira cair de novo no sono, e levantara-se para ir espreitar à janela a ver o que se passava, apesar de no seu íntimo ter já uma suspeita do que era.
Abrira a janela, debruçara-se e olhara para a rua, para confirmar o que sabia.
As suas vizinhas do prédio do lado, a Matilde e a Gertrudes tinham-se pegado outra vez uma com a outra, à porrada e aos gritos,
Agarradas uma à outra puxavam mutuamente os cabelos e gritavam insultos, indiferentes à pequena multidão que se tinha juntado à volta delas a gozar o prato e sem interferir, que nestas coisas é melhor deixá-las descansadas.
A história era antiga e as pegas useiras e vezeiras.
A Matilde acusava a Gertrudes de lhe andar a comer o homem, e que este a tinha emprenhado daquele aborto que ela fizera seis meses antes.
A Gertrudes defendia-se dizendo que a Matilde é que andava a abrir as pernas aos homens todos lá do bairro que toda a gente sabia que ela era uma grandessíssima putona e até na feira era com os fiscais e tudo e que nenhum dos cinco filhos dela era do marido pobre homem coitado do Mariano que era encornado e ceguinho com certeza porque não fazia nada.
Enfim, eram as tricas do costume entre vizinhas lá no bairro.
Aquelas não eram as únicas. De vez em quando lá havia alguém que se travava de razões com outro, pelos mais diversos motivos.
Aquele chinfrim tinha-lhe afugentado o sono para longe e já nada havia a fazer quanto a isso. Teria que esperar pela noite para ele voltar. O melhor era vestir-se e ir dar uma volta. Curtir um pouco.
Assim fizera. Fora à casa de banho mijar, dar o habitual traque e tirar as ramelas dos olhos, só tomava banho uma vez por mês, para poupar água dizia.
Voltara para o quarto e vestira-se. As calças de ganga e a mesma t-shirt com que andava há três dias e que mais dia menos dia teria que pôr para lavar. Como a mulher do padrasto, a Celeste, ainda não o tinha chateado a esse respeito, ia adiando.
Por falar em mulher do padrasto lembrou-se das belas coxas da gaja, e o calor inundou-lhe o baixo ventre.
A gaja, trinta e dois aninhos, era um portento. Um par de mamas que pareciam dois balões prontos a rebentar nas trombas dum mânfio, um cagueiro d'arrebenta e umas mocas boas como o milho.
Já uma vez em que ficara em casa sozinho com ela, o padrasto fora para Espanha por duas semanas trabalhar numas obras, ele tinha andado a arrastar-lhe a asa. Mas a puta dera-lhe uma grande nega.
Ele bem tentara. Falara-lhe sempre com voz meiguinha, o mais doce que conseguia por entre os dentes cariados, negros e a cair, fizera-lhe algumas festinhas na cara de vez em quando, dissera-lhe como era belo e bem cheiroso o cabelo dela, parecia um vasculho... mas um gajo tem que dizer estas coisas, deixara-a ver na televisão as telenovelas que ela queria, mais os programas do Goucha, da Fátima, da Rita e da Júlia, para se cultivar dizia ela, à conta disto para ver a bola, o seu amado Glorioso, tivera que ir para a tasca do Jeremias, até partilhara com ela uma garrafa de Gin que conseguira gamar no super do Reboredo, para a excitar andara só em cuecas ou calções pela casa, e era inverno e estava um frio de rachar, a fazer um esforço do caraças sempre que passava por ela para encher o peito de ar e encolher a barriga para lhe mostrar o caparro, as gajas gostam, sem ela topar friccionava a sarda para a pôr de pau feito por baixo das cuecas ou dos calções, e aparecia na sala com uma desculpa qualquer para ela ver que ele estava com tesão e que tinha um grande marzápio, capaz de a trespassar e fazer subir aos píncaros da Lua, mas... népias! NÉPIAS!
A cabrona da Celeste nunca cedera.
Resistira sempre aos seus avanços, sem dizer uma palavra, sem dar um sinal de que estivesse interessada numa boa queca. Certamente por temer as consequências, se o padrasto dele soubesse. Este era homem para os matar aos dois e o mais certo era ela não estar a fim de arriscar, devia ser só isso...
Ele, não tinha esse medo. Se o padrasto se armasse em parvo só por causa dum inocente par de cornos, era bem capaz de o enfrentar, enfiar-lhe umas chapadonas nas fuças para o deixar sossegado.
Também, depois de dar uma valente duma pranchada na Celeste queria lá saber do padrasto. Ele que se lixasse.
Lembrava-se bem de que se tinha vestido, que tinha passado pela cozinha, onde bebera uma cerveja fresca à maneira e comera um naco de presunto, pão e azeitonas, o seu habitual pequeno-almoço, acendera um cigarro e saíra para a rua no meu duma canícula tremenda pois o verão estava no pino.
Andara pela rua fora e a meio, lembrava-se, encontrara o Calita, que lhe devia uma cinquenta e que, encostado na soleira duma porta, tentara fazer que não o vira, assobiando para o ar, mas não conseguira evitá-lo quando ele parou e se virou mesmo à sua frente, o agarrou pelo pescoço e lhe pediu o cacau, o graveto, o pilim, os carcanhóis.
— MAN, O MEU GRAVETO?!
— PÁ, CALMA! COOL MAN! EU PAGO! NA BOA, MAN! JÁ TENHO QUASE A MASSA TODA PRA TE PAGAR. OLHA AQUI. — mostrara-lhe uma nota de vinte euros, outra de dez e duas moedas de dois euros, que ele olhara desdenhosamente.
— CAGUEI NESSA MERDA, CARALHO! DEVES CINQUENTA! SE NÃO PAGARES ATÉ AMANHÃ, JÁ SABES... TÁS FODIDO COMIGO!
Afastara-se e continuara o seu caminho, após dar um tabefe na cara do Calita, que ficou para trás a murmurar e a choramingar que lhe ia pagar tudo até ao último cêntimo, nem que tivesse que ir roubar - que era o mais certo... - que eram amigos desde putos, que era incapaz de trair um amigo que era como um irmão, que tinha a mãe doente no Francisco Xavier com um cancro na rata, que a irmã chavalinha tinha passado a noite na mata do Monsanto a trabalhar no oral e euros nicles, que o pólen que vendi ao Óscar moné inda não lhe vi a cor, que ai meu deus esta puta de vida é uma merda...
Recordava-se de ter saído do bairro para a avenida que descia em direcção à grande praça com a estátua moderna de cimento e chapa pintada às cores, na placa do meio, que ninguém percebia que merda era aquela, recordava-se de ir a caminhar pelo passeio da avenida abaixo, a fumar outra cigarrada e a apreciar as gajas que passavam apressadas, mais as estranjas descascadas.
Chegara ao largo, ainda sem saber muito bem onde se dirigir. Gostava de passear ao sabor do acaso. Até que tinha tido uma ideia que lhe iria tornar o dia mais agradável e o calor mais suportável.
Ir comprar uma ganzazita ao Pívias e ir para casa fumá-la, aproveitando pelo caminho para passar no snack do Santos e comprar meia dúzia de jecas fresquinhas para ajudar à festa.
Lembrava-se que assim fizera. Lembrava-se de se dirigir à casa do Pívias, era no prédio amarelo... mas a partir daqui as coisas tornavam-se nebulosas. Um nevoeiro denso, cerrado e escuro envolvia-o e não conseguia recordar mais nada.
— PORRA!
Tinha que fazer o ponto da situação, outra vez.
Remexeu-se no assento, suspirou e olhou em volta, semicerrando as pálpebras, atento aos pormenores.
Estava preso numa minúscula casa de banho, só com a sanita e um urinol à sua esquerda, às escuras, sem qualquer abertura, com a porta a escassos centímetros, sentado no tampo da dita sanita, com as calças em baixo, mas de cuecas.
Não lhas tinham tirado nem a t-shirt. Os pulsos estavam presos por uma corda ao cano do autoclismo, atrás de si e puxavam-o para trás. Olhou para baixo. Tinha os pés descalços mergulhados em água, cheia de mijo, beatas e pedaços de papel higiénico borrados, que inundava o chão, numa espessura de quase dois centímetros. O tecto nada tinha de assinalável, excepto por estar escamado e encardido e ter uma lâmpada apagada pendurada no suporte, sustentado por um pedaço do próprio fio eléctrico. Parecia a casa de banho duma qualquer baiuca do Cais do Sodré. O cheiro fétido, mesmo para ele, habituado a andar na merda, era insuportável, e as moscas que esvoaçavam à sua volta também o incomodavam.
Talvez fosse melhor, ao invés de tentar recordar o que fizera ao longo do dia desde que se levantara, fazer a coisa ao contrário, da frente para trás como se rebobinasse um filme ou uma cassete. Talvez assim conseguisse chegar a uma conclusão. Pelo menos a algo que o satisfizesse, que lhe desse uma ideia, mesmo que pálida, de como ali chegara. Mais tarde pensaria no que fazer para sair dali. Para se pisgar e pôr a salvo.
Concentrou-se no processo de rebobinar a película.
Acordara ali. Antes de acordar tinha estado inconsciente. Isto era óbvio. Mas... e antes disso?
Fez um tremendo esforço para se recordar da última coisa que vira, que sentira, que cheirara, que tocara, que saboreara, que estimulara os seus sentido enfim. Quase conseguia ouvir as cremalheiras do seu cérebro a rangerem do esforço.
Súbito, uma imagem surgiu. Um carapuço a ser enfiado na sua cabeça.
A partir desta imagem de forte pregnância, outras começaram lentamente a surgir do fundo lodoso da sua estilhaçada memória.
Fragmentos emergiram e foram-se juntando em pedaços maiores, formando um puzzle que crescia e que se ia tornando mais compreensível, à medida que ganhava cor e corpo, forma, estrutura.
A densidade das evocações aumentava com esforço, mas claramente.
A memória dos sentidos voltava.
Sentiu o nada sentir, o negrume, a inconsciência.
Sentiu o fugir do espírito para o vazio, o desmaio.
Sentiu de novo a forte pancada na nuca por cima do carapuço, quando este lhe tirou completamente a visão.
Viu as mãos fortes e peludas que saíam de punhos de camisas virginais e mangas de casacos negros, que o seguravam fortemente, acompanhavam no seu silêncio a mudez dos dois gigantes amarelos que saiam do carro que bruscamente travara ao seu lado.
Ouviu o carro travar e guinchar.
Agora recordava-se bem. Descia a avenida e o carro fizera uma travagem violenta ao seu lado, daquelas que deixam quilos de borracha no alcatrão. Dele tinham saído dois homens possantes de ar achinesado que, sem uma palavra, o tinham imobilizado, lhe tinham enfiado o garruço na cabeça, lhe tinham dado uma pancada na nuca. Depois, a escuridão absoluta.
Esta parte lembrava, mas e o antes?
Quem eram aqueles homens e porque carga de água o tinham prendido naquele lugar imundo?
Concentrou-se novamente nas fugazes memórias, que lhe escapavam como água por entre os dedos.
Conseguiu com esforço e tenacidade agarrar uma delas. Suspeitava que esta era um elo relevante e esforçou-se ainda mais.
Lembrou-se que enquanto caminhava pela avenida, vinha a pensar em qualquer coisa de importante. Vinha, vinha. Mas no quê?
O fotograma do filme que tentava rever bateu-lhe no espírito como se uma chapa de aço lhe tivesse caído em cima.
Estava a pensar, precisamente, que suspeitava que andava a ser seguido por agentes de... não recordava.
Recordava, sim, que eles tinham como missão eliminá-lo, um eufemismo para 'matá-lo'. Fazer-lhe a folha, mandá-lo para os anjinhos, para o jardim das tabuletas, por um motivo que ele desconhecia, disto estava seguro, por enquanto. Eles eram agentes duma potência estrangeira, tinha a certeza, e ele nunca se metera em políticas. Queriam matá-lo a propósito de quê?
Que potência era, não sabia. Mas foi rememorando a pouco e pouco o que sabia. o que lembrava. Era uma organização secreta, tão secreta que nem os próprios agentes sabiam que ela existia e que dela faziam parte.
Não tinha ideia de como ele próprio soubera da sua existência. Sempre tivera uma grande intuição para descobrir coisas a partir dos pequenos sinais que nos rodeiam, muitas vezes imperceptíveis. O que era de grande utilidade para cavar da bófia, mesmo antes dela aparecer.
Aflorou-lhe ao espírito, subitamente, o que sabia. A intenção dessa agência secreta era a clonagem de girafas para lhes extirpar os testículos e usá-los para confecção de hamburgueres através duma grande cadeia mundial de restaurantes muito conhecida, pac ou mac qualquer coisa!
Só que para levarem a deles avante era necessário eliminarem do mundo inteiro todas as pessoas que tivessem um especial carinho por girafas, para quando a coisa fosse tornada pública, como sempre acontecia, não haver oposição, manifestações e uma grande bronca de consequências incalculáveis, que poderiam pôr a frágil economia mundial em risco. Ah! Lembrava-se agora! Este era o caso dele.
Quando era carruchinho, praí com seis anos, o padrasto e a mãe, ainda era viva, tinham-no levado ao Jardim Zoológico para ver a bicharada, e o animal de que ele mais gostara fora a girafa, com aquele enorme pescaroço, as gâmbias altas e elegantes, as malhas espalhadas à ganância pelo lombo, o modo curioso de andar, ficara-lhe a atracção e o carinho para sempre. Adorava girafas!
Agora percebia. Ele era um dos que eles tinham que matar, pois claro! Ele nunca aceitaria que se fizessem hamburgueres com culhões de girafa!
Conseguira! Sabia como tinha chegado ali e o porquê!
Uma aguda dor de cabeça tinha-se entretanto instalado na sua mona. Talvez efeito do tremendo esforço de pensar para recordar. Valera a pena. Estava agora na posse de informações que o situavam naquele contexto e o ajudavam a perceber onde estava e porque estava. Era um enorme alívio.
Continuava no mesmo lugar, mas com a vantagem de já saber como ali tinha chegado, e porquê.
Esperava a todo o instante que um dos brutamontes, um dos chinas, aparecesse para lhe pôr o inevitável ponto final.
Contudo, para lá da porta, nada se ouvia. Nem um barulhinho ou um sussurro que indicasse que houvesse vivalma nas proximidades.
Decidiu, até porque se sentia terrivelmente cansado e agoniado com tudo aquilo, fechar os olhos e passar um pouco pelas brasas. Não evitaria que o matassem, mas ajudaria a passar o tempo e a suportar melhor o desconforto. Até chegar a hora.
Assim fez. Inclinou o tronco e a cabeça para trás até onde lhe foi possível. Cerrou as pálpebras, aumentando a escuridão dentro dos olhos, inspirou e expirou longa e profundamente, acalmou, sentiu que o coração batia mais regular e parava com a cavalgada anterior, o duro tambor abandonou-lhe os ouvidos e emudeceu, e ele deixou-se afundar na sonolência que sentia. Afundar-se e afogar-se.
Abriu bruscamente os olhos estremunhados, com o estampido dum escape dum motão.
À frente dos seus olhos o tecto enegrecido da humidade e sujo de cagadelas de mosca mirava-o implacável.
Soergueu o corpo sobre os cotovelos, apoiou-se nas mãos e fez força até conseguir ficar sentado, e olhou em torno de si, espantado.
Estava no seu quarto, semi-despido, descalço e esparramado na cama desfeita. Doía-lhe a cabeça e a barriga e sentia-se tonto. Tinha dificuldade em focar o olhar. Acabou por o conseguir.
Ao seu lado uma lata de cerveja tombada espalhara o conteúdo sobre o lençol.
Olhou de esguelha para o lado. Na mesa de cabeceira o chamon fitava-o vazio e desconsolado, soltando um intenso cheiro a queimado.
Atirou os braços ao ar, desengonçados, abrindo-os estupidificado e deixou-se cair para trás sobre a almofada com a súbita revelação.
Não estava preso em nenhum WC... estava no seu quarto!
Afinal sempre tinha conseguido chegar a casa do Pívias, tinha regressado a casa e ao seu quarto, não tinha sido raptado coisa nenhuma, GAITA!
Tinha bebido as jecas e tinha fumado a ganza.
Agora percebia tudo:
— PORRA, A MERDA DO AXE BATEU-ME MAL!
Oeiras, 30 Junho 2008
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sexta-feira, 4 de julho de 2008
o guardador de porcos
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O GUARDADOR DE PORCOS
O guardador de porcos da aldeia serrana de Covaxisto, conhecido nas cercanias pelo Zé Reco, correu desabrido pelas fragas, exalando o seu típico cheiro nauseabundo a chiqueiro, que sabão algum do mundo conseguiria remover, seguido a curta distância por uma nuvem cinzenta de moscas e varejeiras.
Isto nada teria de extraordinário, ele fazia-o com frequência e já ninguém se surpreendia porque o tinham na conta de maluco, não fora o facto de. naquele dia o fazer como Deus o pusera no mundo, completamente nu, com as pendurezas a abanar, e com uma galinha depenada agarrada debaixo do braço, gritando desalmado:
— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !
— O POBRE DE CRISTO ENSANDECEU! — Exclamou o padre Luís, filho duma beata de Braga, acompanhando um rápido sinal-da-cruz e entrelaçando os dedos, como em oração, quando o sobrinho do ti Quim acorreu à sacristia em sua busca a contar-lhe o ocorrido.
Ele e os amigos tinham visto a excêntrica cena pouco antes enquanto andavam no monte a apanhar amoras, e correram todos para a aldeia a contar às famílias que o Zé Reco tinha apanhado sol na moleirinha, e lhe tinha entrado o demo no corpo.
A ele, Jaimito, o tio incumbira-o de ir dar a notícia ao senhor prior que era a pessoa mais avisada da terra, sabia latim e tudo, e saberia o que fazer.
A notícia espalhou-se pelo povoado como fogo em palha seca.
Pouco demorou para que todos os habitantes soubessem da estória e se juntassem em pequenos grupinhos, aqui e ali, a opinar e a dar sentenças.
Que o melhor era apanhá-lo, que se devia dar-lhe mas era um tiro, que o pai dele já era maluco e tinha sido apanhado a fazer porcarias com as galinhas, que era melhor falar com o Sr. prior, não isto é caso para o bispo, que a culpa era da mãe já falecida por causas nunca apuradas mas havia quem garantisse que fora o homem dela que se metia no vinho que lhe dera com uma garrafa na cabeça depois de lhe chegar a roupa ao pêlo com um varapau e depois tinha dito que ela caíra na escada de pedra de acesso ao poço velho, etc., etc.
Um deles, o compadre Gaudêncio, que tinha combatido nas áfricas, e tinha em casa numa caixa de fósforos um dente que, dizia ele, era dum turra que tinha matado à facada num combate feroz no meio do mato, e que estava na tasca do Patrício com os amigos a deixar correr o tempo à volta duma mesa com uns copos de vinhaça da boa, da adega do Américo, também presente, um valente chouriço feito pela Alice, mulher do Gaudêncio, mulher prendada como já há poucas, e uns bons nacos de pão de trigo, cozido no forno a lenha da aldeia, assim que tomou conhecimento do caso, correu a casa a buscar a caçadeira e a munir-se dum cinturão de cartuchos de chumbo grosso, que costumava usar na caça às lebres, perdizes e faisões.
Um doido à solta nas cercanias era uma boa razão para praticar tiro ao alvo e justificar à mulher a pipa de massa, a enorme despesa que fazia constantemente com a caçadeira e os cartuchos.
Outro habitante, a tia Celestina, velhota de 86 anos cristalizados num corpo franzino, seco e raquítico, enrugado e retorcido como uma oliveira milenar, correu a esconder-se ao fundo do galinheiro, com a navalha do seu saudoso Jerónimo, que se fosse vivo depressa resolveria aquela questão, como fizera uma dia ao Coentros quando com este se travou de razões por causa daquela courela que o malandro reclamava como sua e que toda a gente sabia era do Jerónimo, tinha-a recebido do pai que a tomara de herança do avô.
Ai que saudades do seu Jerónimo, que agora estava em paz e descanso numa campa no cemitério da aldeia, depois de sofrer os mil tormentos do calvário da tuberculose e duma gangrena numa perna.
Encolhida no fundo do galinheiro, a tia Celestina apertou com força o cabo negro da grande navalha que mantinha sempre bem afiada e fixou o olhar no portão do quintal, mantendo-se atenta e alerta, pronta para a temível batalha.
Um demónio preto e fedorento de olhos vermelhos raiados de sangue, à solta, com o penduralho sequioso de pecado... Nossa Senhora! Nunca se sabe do que é capaz! E Deus é testemunha de que em tais casos nem as velhas são poupadas por esses mafarricos. Ela saberia defender a sua honra!
Quanto ao Zé Reco, após ter corrido ao longo da meia encosta da colina a nascente da aldeia, sempre nos mesmos propósitos, ou despropósitos, lá se cansou e acabou por parar, desengonçado pela fadiga.
Sentou-se numa grande pedra sobranceira à aldeia, colocou a galinha no chão ao seu lado, inspirou fundo e devagar, e suspirou longamente.
Um longo suspiro.
Olhou plácido os telhados do casario lá em baixo.
Lá estava a casa do João Borrega, enteado do presidente da junta, com a horta nas traseiras cheia de enormes couves, repleta de alfaces, cenoiras, nabos, e muito mais, e ao lado a do Sebastião Bagulho, com as macieiras carregadas de belos pomos a pedirem para serem comidos.
Lá estava um pouco mais ao longe a velha ponte de pedra sobre o ribeiro seco onde já não corria água, alguns doutores da capital que às vezes arribavam à aldeia diziam que a ponte era romana ou lá o que era por causa duma porcaria dumas lajes velhas.
Ao longe os pinheiros, castanheiros, bétulas e acácias balouçavam docemente. Por sobre elas viam-se esvoaçar pardais, verdelhões, andorinhas, e demais passarada.
Na rua principal, principal porque era a única e não havia outra, corria desengonçado o Tarzan, o grande cão serra da estrela do Adérito Florido. Com certeza tinha conseguido soltar-se porque estava sempre amarrado por uma grossa corrente de ferro no quintal do Adérito.
Ante aquela conhecida e amada paisagem, cheia de boas recordações dos seus tempos de moço, sentiu uma funda tristeza, uma pesada nostalgia, invadi-lo. Um punhal aguçado cravou-se no seu coração fazendo-o sangrar.
Levantou-se lentamente, espreguiçando-se ao mesmo tempo, e soltando um sonoro traque.
Baixou-se e agarrou a galinha depenada, que continuava no mesmo lugar, imóvel, ou não estivesse morta, e colocou-a de novo sob o braço.
Impulsionou o corpo e recomeçou a desvairada corrida gritando sempre.
— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !
Numa longa e extenuante espiral desceu o monte até desembocar na aldeia, à entrada.
Parou por breves instantes para retomar o fôlego, cuspiu para o chão a saliva grossa e seca, e reatou a corrida ao longo da rua.
Não correu nem 50 metros. Dois guardas da GNR, entretanto chamada pelo pároco, interceptaram o seu percurso e forçaram a sua paragem, metendo-se à sua frente de braços abertos.
Zé Reco obedeceu à ordem de parar. Gostava muito da Guarda, tinham fardas bem bonitas, e de qualquer forma as espingardas tinham um ar ameaçador.
Os guardas agarraram-no com força pelos braços.
O cabo tirou-lhe a galinha agarrando-a pelo pescoço, olhou-a desconsolado por não a poder comer, e atirou-a sem modos nem cerimónia para a berma. Os cães vadios e os ratos tratariam dela.
O que o acompanhava, o Laurindo, filho da tia Cremilde, olhou o Zé Reco nos olhos, olhou-o fundo nos olhos e, sem querer ver viu. Viu-lhe a alma.
Viu tudo o que o Zé Reco tinha visto lá do alto e também ele sentiu de súbito ganas de se desnudar, agarrar uma galinha, depená-la, pô-la debaixo do sovaco, e começar a correr feito louco a gritar.
Mas tinha o cabo ao seu lado... o sargento e o capitão na esquadra... Deitou fora a ideia.
Com um cobertor que tinham no jipe, obrigaram o Zé Reco a cobrir-se, enquanto este chorava baba e ranho como uma criança, acometido dum inexplicável pranto, gemendo baixinho:
— AI MÃE! AI MÃEZINHA!
Cada um deles agarrou-o por um braço torcendo-os atrás das costas dele e conduziram-o para o jipes sob o olhar dos mirones, que às portas e às janelas silenciosamente assistiam à 'operação militar'.
Empurraram-o para o banco de trás, fecharam a porta, entraram na viatura, e partiram no meio duma nuvem de poeira.
Ouviu-se o Tarzan ganir lá ao longe. No seu ganido parecia que gritava:
— AQUI D'EL REI! AQUI D'EL REI!
Oeiras, 26 JUNHO 2008
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O GUARDADOR DE PORCOS
O guardador de porcos da aldeia serrana de Covaxisto, conhecido nas cercanias pelo Zé Reco, correu desabrido pelas fragas, exalando o seu típico cheiro nauseabundo a chiqueiro, que sabão algum do mundo conseguiria remover, seguido a curta distância por uma nuvem cinzenta de moscas e varejeiras.
Isto nada teria de extraordinário, ele fazia-o com frequência e já ninguém se surpreendia porque o tinham na conta de maluco, não fora o facto de. naquele dia o fazer como Deus o pusera no mundo, completamente nu, com as pendurezas a abanar, e com uma galinha depenada agarrada debaixo do braço, gritando desalmado:
— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !
— O POBRE DE CRISTO ENSANDECEU! — Exclamou o padre Luís, filho duma beata de Braga, acompanhando um rápido sinal-da-cruz e entrelaçando os dedos, como em oração, quando o sobrinho do ti Quim acorreu à sacristia em sua busca a contar-lhe o ocorrido.
Ele e os amigos tinham visto a excêntrica cena pouco antes enquanto andavam no monte a apanhar amoras, e correram todos para a aldeia a contar às famílias que o Zé Reco tinha apanhado sol na moleirinha, e lhe tinha entrado o demo no corpo.
A ele, Jaimito, o tio incumbira-o de ir dar a notícia ao senhor prior que era a pessoa mais avisada da terra, sabia latim e tudo, e saberia o que fazer.
A notícia espalhou-se pelo povoado como fogo em palha seca.
Pouco demorou para que todos os habitantes soubessem da estória e se juntassem em pequenos grupinhos, aqui e ali, a opinar e a dar sentenças.
Que o melhor era apanhá-lo, que se devia dar-lhe mas era um tiro, que o pai dele já era maluco e tinha sido apanhado a fazer porcarias com as galinhas, que era melhor falar com o Sr. prior, não isto é caso para o bispo, que a culpa era da mãe já falecida por causas nunca apuradas mas havia quem garantisse que fora o homem dela que se metia no vinho que lhe dera com uma garrafa na cabeça depois de lhe chegar a roupa ao pêlo com um varapau e depois tinha dito que ela caíra na escada de pedra de acesso ao poço velho, etc., etc.
Um deles, o compadre Gaudêncio, que tinha combatido nas áfricas, e tinha em casa numa caixa de fósforos um dente que, dizia ele, era dum turra que tinha matado à facada num combate feroz no meio do mato, e que estava na tasca do Patrício com os amigos a deixar correr o tempo à volta duma mesa com uns copos de vinhaça da boa, da adega do Américo, também presente, um valente chouriço feito pela Alice, mulher do Gaudêncio, mulher prendada como já há poucas, e uns bons nacos de pão de trigo, cozido no forno a lenha da aldeia, assim que tomou conhecimento do caso, correu a casa a buscar a caçadeira e a munir-se dum cinturão de cartuchos de chumbo grosso, que costumava usar na caça às lebres, perdizes e faisões.
Um doido à solta nas cercanias era uma boa razão para praticar tiro ao alvo e justificar à mulher a pipa de massa, a enorme despesa que fazia constantemente com a caçadeira e os cartuchos.
Outro habitante, a tia Celestina, velhota de 86 anos cristalizados num corpo franzino, seco e raquítico, enrugado e retorcido como uma oliveira milenar, correu a esconder-se ao fundo do galinheiro, com a navalha do seu saudoso Jerónimo, que se fosse vivo depressa resolveria aquela questão, como fizera uma dia ao Coentros quando com este se travou de razões por causa daquela courela que o malandro reclamava como sua e que toda a gente sabia era do Jerónimo, tinha-a recebido do pai que a tomara de herança do avô.
Ai que saudades do seu Jerónimo, que agora estava em paz e descanso numa campa no cemitério da aldeia, depois de sofrer os mil tormentos do calvário da tuberculose e duma gangrena numa perna.
Encolhida no fundo do galinheiro, a tia Celestina apertou com força o cabo negro da grande navalha que mantinha sempre bem afiada e fixou o olhar no portão do quintal, mantendo-se atenta e alerta, pronta para a temível batalha.
Um demónio preto e fedorento de olhos vermelhos raiados de sangue, à solta, com o penduralho sequioso de pecado... Nossa Senhora! Nunca se sabe do que é capaz! E Deus é testemunha de que em tais casos nem as velhas são poupadas por esses mafarricos. Ela saberia defender a sua honra!
Quanto ao Zé Reco, após ter corrido ao longo da meia encosta da colina a nascente da aldeia, sempre nos mesmos propósitos, ou despropósitos, lá se cansou e acabou por parar, desengonçado pela fadiga.
Sentou-se numa grande pedra sobranceira à aldeia, colocou a galinha no chão ao seu lado, inspirou fundo e devagar, e suspirou longamente.
Um longo suspiro.
Olhou plácido os telhados do casario lá em baixo.
Lá estava a casa do João Borrega, enteado do presidente da junta, com a horta nas traseiras cheia de enormes couves, repleta de alfaces, cenoiras, nabos, e muito mais, e ao lado a do Sebastião Bagulho, com as macieiras carregadas de belos pomos a pedirem para serem comidos.
Lá estava um pouco mais ao longe a velha ponte de pedra sobre o ribeiro seco onde já não corria água, alguns doutores da capital que às vezes arribavam à aldeia diziam que a ponte era romana ou lá o que era por causa duma porcaria dumas lajes velhas.
Ao longe os pinheiros, castanheiros, bétulas e acácias balouçavam docemente. Por sobre elas viam-se esvoaçar pardais, verdelhões, andorinhas, e demais passarada.
Na rua principal, principal porque era a única e não havia outra, corria desengonçado o Tarzan, o grande cão serra da estrela do Adérito Florido. Com certeza tinha conseguido soltar-se porque estava sempre amarrado por uma grossa corrente de ferro no quintal do Adérito.
Ante aquela conhecida e amada paisagem, cheia de boas recordações dos seus tempos de moço, sentiu uma funda tristeza, uma pesada nostalgia, invadi-lo. Um punhal aguçado cravou-se no seu coração fazendo-o sangrar.
Levantou-se lentamente, espreguiçando-se ao mesmo tempo, e soltando um sonoro traque.
Baixou-se e agarrou a galinha depenada, que continuava no mesmo lugar, imóvel, ou não estivesse morta, e colocou-a de novo sob o braço.
Impulsionou o corpo e recomeçou a desvairada corrida gritando sempre.
— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !
Numa longa e extenuante espiral desceu o monte até desembocar na aldeia, à entrada.
Parou por breves instantes para retomar o fôlego, cuspiu para o chão a saliva grossa e seca, e reatou a corrida ao longo da rua.
Não correu nem 50 metros. Dois guardas da GNR, entretanto chamada pelo pároco, interceptaram o seu percurso e forçaram a sua paragem, metendo-se à sua frente de braços abertos.
Zé Reco obedeceu à ordem de parar. Gostava muito da Guarda, tinham fardas bem bonitas, e de qualquer forma as espingardas tinham um ar ameaçador.
Os guardas agarraram-no com força pelos braços.
O cabo tirou-lhe a galinha agarrando-a pelo pescoço, olhou-a desconsolado por não a poder comer, e atirou-a sem modos nem cerimónia para a berma. Os cães vadios e os ratos tratariam dela.
O que o acompanhava, o Laurindo, filho da tia Cremilde, olhou o Zé Reco nos olhos, olhou-o fundo nos olhos e, sem querer ver viu. Viu-lhe a alma.
Viu tudo o que o Zé Reco tinha visto lá do alto e também ele sentiu de súbito ganas de se desnudar, agarrar uma galinha, depená-la, pô-la debaixo do sovaco, e começar a correr feito louco a gritar.
Mas tinha o cabo ao seu lado... o sargento e o capitão na esquadra... Deitou fora a ideia.
Com um cobertor que tinham no jipe, obrigaram o Zé Reco a cobrir-se, enquanto este chorava baba e ranho como uma criança, acometido dum inexplicável pranto, gemendo baixinho:
— AI MÃE! AI MÃEZINHA!
Cada um deles agarrou-o por um braço torcendo-os atrás das costas dele e conduziram-o para o jipes sob o olhar dos mirones, que às portas e às janelas silenciosamente assistiam à 'operação militar'.
Empurraram-o para o banco de trás, fecharam a porta, entraram na viatura, e partiram no meio duma nuvem de poeira.
Ouviu-se o Tarzan ganir lá ao longe. No seu ganido parecia que gritava:
— AQUI D'EL REI! AQUI D'EL REI!
Oeiras, 26 JUNHO 2008
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sexta-feira, 30 de maio de 2008
desejo algarvio
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Quantas vezes desde pequeninos se traça o nosso destino, enovelado numa trama que nos lançaram como rede sobre pescado...
DESEJO ALGARVIO
Tinha um secretíssimo desejo desde criança de tenra idade - quando era tenrinho, quer-se dizer.
Sonhava, desejava ardentemente, ser um Corifeu.
Ouvira a palavra, na voz grave e rouca de tonalidades prenhes de escarro amarelado de tabaco de onça, do seu avô paterno, pela primeira vez, aos 6 anitos de idade e não lhe conhecia o sentido.
Mas desde logo se apaixonou pela bela e sublime sonoridade agreste dela:
— CO-RI-FEU!
Desde esse instante interiorizou que queria ser um corifeu, sem mesmo saber o que isso era. Teria muito tempo para aprender!
Sempre que pensava na palavra as entranhas vibravam-lhe como um carrossel, ou como as rodas da carroça da tia Anica.
E quando a mãe lhe perguntava:
— Anibalzinho, o que queres ser quando fores crescidinho?
De imediato da sua boquinha minúscula e desdentada saltavam as palavras como que cuspidas contra a brisa algarvia, contra o vento quente de Suão:
— Corifeu, mãezinha! Corifeu!
Imagine-se se o avô, ao invés, tive-se dito:
—EUNUCO...
Oeiras, 15 Abril 2006
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Quantas vezes desde pequeninos se traça o nosso destino, enovelado numa trama que nos lançaram como rede sobre pescado...
DESEJO ALGARVIO
Tinha um secretíssimo desejo desde criança de tenra idade - quando era tenrinho, quer-se dizer.
Sonhava, desejava ardentemente, ser um Corifeu.
Ouvira a palavra, na voz grave e rouca de tonalidades prenhes de escarro amarelado de tabaco de onça, do seu avô paterno, pela primeira vez, aos 6 anitos de idade e não lhe conhecia o sentido.
Mas desde logo se apaixonou pela bela e sublime sonoridade agreste dela:
— CO-RI-FEU!
Desde esse instante interiorizou que queria ser um corifeu, sem mesmo saber o que isso era. Teria muito tempo para aprender!
Sempre que pensava na palavra as entranhas vibravam-lhe como um carrossel, ou como as rodas da carroça da tia Anica.
E quando a mãe lhe perguntava:
— Anibalzinho, o que queres ser quando fores crescidinho?
De imediato da sua boquinha minúscula e desdentada saltavam as palavras como que cuspidas contra a brisa algarvia, contra o vento quente de Suão:
— Corifeu, mãezinha! Corifeu!
Imagine-se se o avô, ao invés, tive-se dito:
—EUNUCO...
Oeiras, 15 Abril 2006
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sexta-feira, 9 de maio de 2008
destino de insecto
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Diz a canção que "O destino marca a hora".
Diz Einstein que "Deus não joga aos dados".
Mas será mesmo assim, será verdade que o futuro está 'escrito', superiormente determinado, e a nossa vontade subjectiva, quiçá os nossos humores e convicções, nada podem fazer para o contrariar? Ou é o acaso que rege o devir?
Acaso ou necessidade? Acaso. Monod dixit... e eu concordo com ele.
Este instante é uma recriação dum original de 28 de Outubro de 2002.
DESTINO DE INSECTO
ensaio para um monólogo com uma imperial e uma mosca
Um homem vulgar e solitário, de aspecto algo encardido, está sentado a uma mesa de café.
Está a beber lentamente, com pequenos golos, um copo de cerveja e a comer tremoços dum pequeno pires.
Está distraído a traçar desenhos imaginários no tampo da mesa com a água que escorreu do copo, quando uma rápida e esvoaçante mosca pousa nela, a curta distância dos tremoços.
O homem observa curioso a mosca a andar desgraciosa sobre a superfície húmida da toalha de papel.
O homem apanha a mosca com um gesto rápido e certeiro.
Pega-lhe pelas asas, segurando-as juntas entre o indicador e o polegar, enquanto ela zine e se debate para se libertar, agitando furiosamente as minúsculas e frágeis perninhas.
Apoiando o cotovelo na mesa, segura a mosca à frente do rosto olhando-a fixamente enquanto pensa em alta-voz:
— TENHO O TEU DESTINO NA PONTA DOS MEUS DEDOS.
[ pequena pausa ]
— PODIA MATAR-TE AGORA MESMO. ACABAR COM A TUA EXISTÊNCIA !
[ pausa longa ]
— NÃO SEI COMO SERÁ A TERRA DAQUI A 500 MILHÕES DE ANOS. NEM SEQUER SE AINDA EXISTIRÁ UMA TERRA...
[ pequena pausa ]
— NEM SE A ESPÉCIE HUMANA CONTINUARÁ VIVA OU TERÁ DESAPARECIDO HÁ MUITO, PARA TODO O SEMPRE E, QUEM SABE ?, SIDO SUBSTITUÍDA POR UMA OUTRA ESPÉCIE INTELIGENTE.
[ pausa muito longa ]
— UMA ESPÉCIE INTELIGENTE DA QUAL TU, ESTÚPIDA MOSCA, PODES SER UM ANCESTRAL...
[ pequena pausa ]
— SIM, QUEM SABE ?! 500 MILHÕES DE ANOS É MUITO TEMPO...
[ pequena pausa ]
— POSSO TER ENTRE OS DEDOS UM ANCESTRAL DE UM FUTURO SÓCRATES, DE UM CRISTO, DE UM HITLER...
[ pausa mais longa ]
— TENHO O TEU, DELES..., DESTINO NA PONTA DOS MEUS DEDOS.
[ pequena pausa ]
— MAS HOJE É O TEU DIA DE SORTE ! PORQUE SOU UM DISCÍPULO DE NIETZSCHE.
[ pausa ]
— "NÃO É A DÚVIDA MAS A CERTEZA QUE ENLOUQUECE !"
O homem abre os dedos soltando a insignificante mosca que rapidamente voa para longe, desaparecendo no meio do fumo denso, em busca dum destino ou duma vida....
Oeiras, 24 Abril 2008
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Diz a canção que "O destino marca a hora".
Diz Einstein que "Deus não joga aos dados".
Mas será mesmo assim, será verdade que o futuro está 'escrito', superiormente determinado, e a nossa vontade subjectiva, quiçá os nossos humores e convicções, nada podem fazer para o contrariar? Ou é o acaso que rege o devir?
Acaso ou necessidade? Acaso. Monod dixit... e eu concordo com ele.
Este instante é uma recriação dum original de 28 de Outubro de 2002.
DESTINO DE INSECTO
ensaio para um monólogo com uma imperial e uma mosca
Um homem vulgar e solitário, de aspecto algo encardido, está sentado a uma mesa de café.
Está a beber lentamente, com pequenos golos, um copo de cerveja e a comer tremoços dum pequeno pires.
Está distraído a traçar desenhos imaginários no tampo da mesa com a água que escorreu do copo, quando uma rápida e esvoaçante mosca pousa nela, a curta distância dos tremoços.
O homem observa curioso a mosca a andar desgraciosa sobre a superfície húmida da toalha de papel.
O homem apanha a mosca com um gesto rápido e certeiro.
Pega-lhe pelas asas, segurando-as juntas entre o indicador e o polegar, enquanto ela zine e se debate para se libertar, agitando furiosamente as minúsculas e frágeis perninhas.
Apoiando o cotovelo na mesa, segura a mosca à frente do rosto olhando-a fixamente enquanto pensa em alta-voz:
— TENHO O TEU DESTINO NA PONTA DOS MEUS DEDOS.
[ pequena pausa ]
— PODIA MATAR-TE AGORA MESMO. ACABAR COM A TUA EXISTÊNCIA !
[ pausa longa ]
— NÃO SEI COMO SERÁ A TERRA DAQUI A 500 MILHÕES DE ANOS. NEM SEQUER SE AINDA EXISTIRÁ UMA TERRA...
[ pequena pausa ]
— NEM SE A ESPÉCIE HUMANA CONTINUARÁ VIVA OU TERÁ DESAPARECIDO HÁ MUITO, PARA TODO O SEMPRE E, QUEM SABE ?, SIDO SUBSTITUÍDA POR UMA OUTRA ESPÉCIE INTELIGENTE.
[ pausa muito longa ]
— UMA ESPÉCIE INTELIGENTE DA QUAL TU, ESTÚPIDA MOSCA, PODES SER UM ANCESTRAL...
[ pequena pausa ]
— SIM, QUEM SABE ?! 500 MILHÕES DE ANOS É MUITO TEMPO...
[ pequena pausa ]
— POSSO TER ENTRE OS DEDOS UM ANCESTRAL DE UM FUTURO SÓCRATES, DE UM CRISTO, DE UM HITLER...
[ pausa mais longa ]
— TENHO O TEU, DELES..., DESTINO NA PONTA DOS MEUS DEDOS.
[ pequena pausa ]
— MAS HOJE É O TEU DIA DE SORTE ! PORQUE SOU UM DISCÍPULO DE NIETZSCHE.
[ pausa ]
— "NÃO É A DÚVIDA MAS A CERTEZA QUE ENLOUQUECE !"
O homem abre os dedos soltando a insignificante mosca que rapidamente voa para longe, desaparecendo no meio do fumo denso, em busca dum destino ou duma vida....
Oeiras, 24 Abril 2008
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sexta-feira, 2 de maio de 2008
o velho levantou-se lentamente...
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Este instante da vida de um velho foi originalmente manuscrito em 31 de Março de 2001. Foi desenvolvido a posteriori em 19 de Junho de 2001 e em 11 de Outubro de 2002.
É uma daquelas estórias que demoram a adquirir uma forma acabada e definitiva. Forma que apresento hoje aqui.
O mote foi-me dado pela minha experiência pessoal, pelo contacto com uma pessoa com quem trabalhei numa gráfica em Lisboa e que inspirou o personagem aqui representado.
Não é um retrato dessa pessoa, mas sim uma elaboração feita a partir da realidade.
O VELHO LEVANTOU-SE LENTAMENTE...
O velho, ossudo e de cabelo completamente branco, magro e alquebrado, levantou-se lentamente do seu lugar fazendo ranger a vetusta cadeira de braços de madeira e acento de cabedal escuro surrado pelo uso. Compôs a gravata grenat riscada, único toque de cor que trazia vestido, ajeitou agarrando-o pelas abas o casaco preto e compôs também o relógio de pulso agitando o braço. Olhou circunspecto o tampo da secretária de madeira escura, cheio de papéis que tinha acabado metodicamente de organizar em montinhos. Pegou na pasta de cabedal preto, levantando-a do chão sem indícios de pressa. Contornou a secretária, acercou-se da porta do gabinete. Rodou o puxador e abriu-a. Com a mão livre apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.
Caminhou na lentidão dos seus 78 anos ao longo do corredor com paredes brancas de tabique e soalho de tábuas, revestido por uma carpete marroquina, silencioso, de olhos fixos no chão.
Deu as boas-noites à hirta recepcionista, sentada à secretária no pequeno hall da entrada. Mulher de meia idade de grandes mamas excessivamente maquilhada, quase silenciosa na sua quietude gordurosa. Gritantemente explosiva nas cores berrantes do seu vestuário.
Não se cruzou com mais ninguém até chegar à rua, que ia ficando sombria com o aproximar da noite. Já todos tinham saído.
Caminhou ao longo do passeio estreito e irregular, evitando os transeuntes apressados e os buracos na calçada. Os carros passavam velozes, trepidantes nos paralelepípedos de granito da rua, buzinando e expectorando fumo espesso. Condutores e peões gritavam imprecações e protestavam uns com os outros.
Dirigiu-se à estação de Metro, a uma centena de metros dali. Na mão direita conservava bem segura a velha pasta de cabedal negro já muito gasta dentro da qual transportava... sabe-se lá o quê? Ilusões? Segredos? Mentiras? Paixões? Velhas memórias de ideologias caducas?
Após um trajecto difícil mas sem percalços chegou à entrada da estação de Metro e desceu vagarosamente as escadas apoiando-se no corrimão, no que foi acompanhado por dois ou três transeuntes.
Avançou pela gare, quase deserta apesar da hora do dia, até cerca de um terço do comprimento desta. A longa prática tinha-lhe ensinado qual o melhor ponto para esperar a composição, e entrar numa carruagem na qual ficasse perto da saída ao chegar à estação de destino.
Parou à espera na imobilidade cinzenta, apenas quebrada aqui e ali por alguma fraca luz amarelada. Sabia que não iria ter que esperar muito.
O tenebroso grito lancinante do comboio inundou de súbito o subterrâneo. Anunciou a sua chegada. O comboio, como um tiro, emergiu do túnel, estacou e abriu as portas.
O velho deixou sair os passageiros que ali terminavam a viagem e só depois avançou e entrou no comboio. Escolheu um lugar e sentou-se muito direito junto à janela com a pasta sobre os joelhos.
As portas fecharam ao som da buzina. O comboio arrancou estridente, trepidando numa aceleração crescente, e invaginou-se no túnel negro à sua frente, como uma serpente, perdendo-se sob a cidade palpitante, cardíaca.
Oeiras, 25 Março 2008
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Este instante da vida de um velho foi originalmente manuscrito em 31 de Março de 2001. Foi desenvolvido a posteriori em 19 de Junho de 2001 e em 11 de Outubro de 2002.
É uma daquelas estórias que demoram a adquirir uma forma acabada e definitiva. Forma que apresento hoje aqui.
O mote foi-me dado pela minha experiência pessoal, pelo contacto com uma pessoa com quem trabalhei numa gráfica em Lisboa e que inspirou o personagem aqui representado.
Não é um retrato dessa pessoa, mas sim uma elaboração feita a partir da realidade.
O VELHO LEVANTOU-SE LENTAMENTE...
O velho, ossudo e de cabelo completamente branco, magro e alquebrado, levantou-se lentamente do seu lugar fazendo ranger a vetusta cadeira de braços de madeira e acento de cabedal escuro surrado pelo uso. Compôs a gravata grenat riscada, único toque de cor que trazia vestido, ajeitou agarrando-o pelas abas o casaco preto e compôs também o relógio de pulso agitando o braço. Olhou circunspecto o tampo da secretária de madeira escura, cheio de papéis que tinha acabado metodicamente de organizar em montinhos. Pegou na pasta de cabedal preto, levantando-a do chão sem indícios de pressa. Contornou a secretária, acercou-se da porta do gabinete. Rodou o puxador e abriu-a. Com a mão livre apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.
Caminhou na lentidão dos seus 78 anos ao longo do corredor com paredes brancas de tabique e soalho de tábuas, revestido por uma carpete marroquina, silencioso, de olhos fixos no chão.
Deu as boas-noites à hirta recepcionista, sentada à secretária no pequeno hall da entrada. Mulher de meia idade de grandes mamas excessivamente maquilhada, quase silenciosa na sua quietude gordurosa. Gritantemente explosiva nas cores berrantes do seu vestuário.
Não se cruzou com mais ninguém até chegar à rua, que ia ficando sombria com o aproximar da noite. Já todos tinham saído.
Caminhou ao longo do passeio estreito e irregular, evitando os transeuntes apressados e os buracos na calçada. Os carros passavam velozes, trepidantes nos paralelepípedos de granito da rua, buzinando e expectorando fumo espesso. Condutores e peões gritavam imprecações e protestavam uns com os outros.
Dirigiu-se à estação de Metro, a uma centena de metros dali. Na mão direita conservava bem segura a velha pasta de cabedal negro já muito gasta dentro da qual transportava... sabe-se lá o quê? Ilusões? Segredos? Mentiras? Paixões? Velhas memórias de ideologias caducas?
Após um trajecto difícil mas sem percalços chegou à entrada da estação de Metro e desceu vagarosamente as escadas apoiando-se no corrimão, no que foi acompanhado por dois ou três transeuntes.
Avançou pela gare, quase deserta apesar da hora do dia, até cerca de um terço do comprimento desta. A longa prática tinha-lhe ensinado qual o melhor ponto para esperar a composição, e entrar numa carruagem na qual ficasse perto da saída ao chegar à estação de destino.
Parou à espera na imobilidade cinzenta, apenas quebrada aqui e ali por alguma fraca luz amarelada. Sabia que não iria ter que esperar muito.
O tenebroso grito lancinante do comboio inundou de súbito o subterrâneo. Anunciou a sua chegada. O comboio, como um tiro, emergiu do túnel, estacou e abriu as portas.
O velho deixou sair os passageiros que ali terminavam a viagem e só depois avançou e entrou no comboio. Escolheu um lugar e sentou-se muito direito junto à janela com a pasta sobre os joelhos.
As portas fecharam ao som da buzina. O comboio arrancou estridente, trepidando numa aceleração crescente, e invaginou-se no túnel negro à sua frente, como uma serpente, perdendo-se sob a cidade palpitante, cardíaca.
Oeiras, 25 Março 2008
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sexta-feira, 11 de abril de 2008
hemorróida hodierna
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O mundo pode ser diferente substancialmente, para melhor... com se vai ver.
Já o acreditava em 22 de Abril de 2005, quando escrevi esta expirada prosa, e continuo a acreditar.
Este é um curto instante polvilhado duns pózinhos de metafísica, e algum delirium tremens já agora, pois a existência, que segundo o Jean-Paul precede a essência, a existência dizia não se escreve apenas com tinta de choco em papel caiado.
HEMORRÓIDA HODIERNA
A manhã acordara nublada, fria e ventosa. O tecto de nuvens escuras, que ocultava o habitualmente inclemente Sol, acachapava-se a pouca altitude sobre o ritmo trepidante de mais um dia de trabalho. Ou de labuta, como alguns preferem dizer, vá-se lá saber porquê.
Os objectos, equipamentos, motores, máquinas, veículos, entes contra-natura feitos para apressar a pressa de chegar depressa ao fim, acelerar o gume da gadanha, pulsavam, crepitavam, guinchavam, cuspiam, roncavam, trepidavam, gemiam, grilavam, bufavam, vibravam, numa orgia matinal costumeira e useira, como estúpidas baratas tontas.
Mas as baratas tontas mesmo, não eram os objectos. Eram as pessoas. Baratas enfarpeladas e fétidas a exalar falsas essências matinais. Enxame de sexos envergonhados. Tesões escondidos nos almíscares de marca.
As baratinhas cheirosinhas cirandavam como loucas. Há que cumprir os horários. Mesmo que não se faça nada. Não é o trabalho que o patrãozinho paga. É a assiduidade... o resto que se foda!
Foi neste clima cinzento e com este estado de espírito merdoso que saí de casa e cheguei à rua. Estranhamente, ou talvez não, veio-me ao espírito o nome Afrodite.
Senti o súbito impulso de voltar para casa, despir-me, deitar-me na cama, talvez ainda estivesse docemente morna, e deixar-me mergulhar no sono e no sonho. Sonhar com outro mundo. Um mundo mutável, realmente. Um mundo em que cada vez que eu olhasse para o lado, as coisas tivessem mudado de sítio e o espaço fosse diferente. Ou nem sequer houvesse espaço... Em que me deitasse e a mesa-de-cabeceira estivesse ao lado da cama, mas quando acordasse ela estivesse, por exemplo, na cozinha ou sobre o bidé.
Porque é que a merda do Sol há-de pôr-se e nascer todos os dias?! Porque carga d'água é que o filho dum cabrão não varia, e um dia põe-se e não nasce no dia seguinte, e noutro dia nasce mas não se põe, etc., e por aí afora?!
A vida teria muito mais interesse num mundo em permanente mutação! Todos os dias, a todo o instante, tínhamos uma coisa nova para dar alegria à nossa existência lúbrica e escorregadia. Viveríamos um mundo realmente gaio!
Mas não. Vivemos num mundo estuporado onde as mudanças são tão lentas, que demoram milénios, milhões, e nem as conseguimos percepcionar.
A impressão de mudança e movimento que temos não passa duma ingénua ilusão.
O mundo não teria muito mais graça se um cro-magnon se deitasse hoje com uma 'cro-magnona', desse uma queca cavalar, transpirada e bem peluda, adormecesse, e amanhã acordasse ao lado duma sapiens? Ou um gajo, escriturário, sair às 18 h. da empresa, ir para casa, no dia seguinte ir de novo trabalhar, e o porteiro dizer "Bom dia, como está Sr. Director?" Ou, para quem gosta de carros, estacionar o Fiat Uno à porta da pastelaria, e ao sair ter lá um Testarossa? Era do caneco, porra!
Sobretudo porque neste mundo de evolução rápida, de ultra-mutação, qualquer mudança seria sempre para melhor. Uma determinada lei física impediria qualquer forma de regressão.
Acordei das minhas divagações idiotas com o barulho ensurdecedor da travagem da camioneta, que arrimava a paragem, sonolenta. Olhei para a bandeira da mesma, para saber o destino. Em garrafais letras amarelas, ao lado do número da carreira, pude ler:
— IMPERATIVO CATEGÓRICO!
Oeiras, 06 Abril 2008
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O mundo pode ser diferente substancialmente, para melhor... com se vai ver.
Já o acreditava em 22 de Abril de 2005, quando escrevi esta expirada prosa, e continuo a acreditar.
Este é um curto instante polvilhado duns pózinhos de metafísica, e algum delirium tremens já agora, pois a existência, que segundo o Jean-Paul precede a essência, a existência dizia não se escreve apenas com tinta de choco em papel caiado.
HEMORRÓIDA HODIERNA
A manhã acordara nublada, fria e ventosa. O tecto de nuvens escuras, que ocultava o habitualmente inclemente Sol, acachapava-se a pouca altitude sobre o ritmo trepidante de mais um dia de trabalho. Ou de labuta, como alguns preferem dizer, vá-se lá saber porquê.
Os objectos, equipamentos, motores, máquinas, veículos, entes contra-natura feitos para apressar a pressa de chegar depressa ao fim, acelerar o gume da gadanha, pulsavam, crepitavam, guinchavam, cuspiam, roncavam, trepidavam, gemiam, grilavam, bufavam, vibravam, numa orgia matinal costumeira e useira, como estúpidas baratas tontas.
Mas as baratas tontas mesmo, não eram os objectos. Eram as pessoas. Baratas enfarpeladas e fétidas a exalar falsas essências matinais. Enxame de sexos envergonhados. Tesões escondidos nos almíscares de marca.
As baratinhas cheirosinhas cirandavam como loucas. Há que cumprir os horários. Mesmo que não se faça nada. Não é o trabalho que o patrãozinho paga. É a assiduidade... o resto que se foda!
Foi neste clima cinzento e com este estado de espírito merdoso que saí de casa e cheguei à rua. Estranhamente, ou talvez não, veio-me ao espírito o nome Afrodite.
Senti o súbito impulso de voltar para casa, despir-me, deitar-me na cama, talvez ainda estivesse docemente morna, e deixar-me mergulhar no sono e no sonho. Sonhar com outro mundo. Um mundo mutável, realmente. Um mundo em que cada vez que eu olhasse para o lado, as coisas tivessem mudado de sítio e o espaço fosse diferente. Ou nem sequer houvesse espaço... Em que me deitasse e a mesa-de-cabeceira estivesse ao lado da cama, mas quando acordasse ela estivesse, por exemplo, na cozinha ou sobre o bidé.
Porque é que a merda do Sol há-de pôr-se e nascer todos os dias?! Porque carga d'água é que o filho dum cabrão não varia, e um dia põe-se e não nasce no dia seguinte, e noutro dia nasce mas não se põe, etc., e por aí afora?!
A vida teria muito mais interesse num mundo em permanente mutação! Todos os dias, a todo o instante, tínhamos uma coisa nova para dar alegria à nossa existência lúbrica e escorregadia. Viveríamos um mundo realmente gaio!
Mas não. Vivemos num mundo estuporado onde as mudanças são tão lentas, que demoram milénios, milhões, e nem as conseguimos percepcionar.
A impressão de mudança e movimento que temos não passa duma ingénua ilusão.
O mundo não teria muito mais graça se um cro-magnon se deitasse hoje com uma 'cro-magnona', desse uma queca cavalar, transpirada e bem peluda, adormecesse, e amanhã acordasse ao lado duma sapiens? Ou um gajo, escriturário, sair às 18 h. da empresa, ir para casa, no dia seguinte ir de novo trabalhar, e o porteiro dizer "Bom dia, como está Sr. Director?" Ou, para quem gosta de carros, estacionar o Fiat Uno à porta da pastelaria, e ao sair ter lá um Testarossa? Era do caneco, porra!
Sobretudo porque neste mundo de evolução rápida, de ultra-mutação, qualquer mudança seria sempre para melhor. Uma determinada lei física impediria qualquer forma de regressão.
Acordei das minhas divagações idiotas com o barulho ensurdecedor da travagem da camioneta, que arrimava a paragem, sonolenta. Olhei para a bandeira da mesma, para saber o destino. Em garrafais letras amarelas, ao lado do número da carreira, pude ler:
— IMPERATIVO CATEGÓRICO!
Oeiras, 06 Abril 2008
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sexta-feira, 28 de março de 2008
tomate desgraçado
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Este instante da vida de um tomate, que me foi contado na primeira pessoa numa noite em que ao balcão dum bar de alterne trocava confidências com o desconhecido do lado, aquecidos que ambos estávamos pelo uísque de 12 anos, marado, foi escrito às 03:04 do dia 10 de Outubro de 2002.
Quando releio a estória e reflicto sobre o assunto, surpreende-me sempre o paralelismo existencial entre a vida de um desgraçado de um tomate e as nossas próprias vidas.
Concluo que afinal todos somos tomates...
TOMATE DESGRAÇADO
Aquele coitado daquele tomate tinha uma vida desgraçada.
Ao nascer tinha sido logo mal fadado.
Fora um pequeno e indefeso tomatinho verdinho, pendurado pelo seu pedúnculozinho no tomateiro, no meio daquele tomatal imenso, carregado de irmãos e primos seus. Eram uma grande família!
De dia ali ficava pendurado, protegendo-se do duro sol abrasador debaixo das folhas, passando o tempo a olhar em volta apreciando a paisagem, conversando com a família (telepaticamente claro, pois como toda a gente sabe os tomates não têm boca e falam uns com os outros por telepatia).
O tempo ia correndo e ele ia aguardando serenamente o dia em que, quando quase todos estivessem mais vermelhinhos, viessem até eles as mulheres de mãos grossas e calejadas com unhas sujas de terra. Uma delas arrancá-lo-ia do pezinho, atirá-lo-ia para uma caixa com os seus irmãos.
Levariam caixas e caixas cheias de tomates para cima de uma galera puxada por um tractor para os levarem para a fábrica do alemão, onde eram submetidos a terríveis humilhações até, por fim, serem enlatados.
Mas aí, em trânsito, é que estava a chance!
Não se podendo soltar sozinhos do tomateiro, aguardavam esse dia em que as boas mulheres os libertavam para, durante o transporte, aproveitando uma distracção do trabalhador, os mais afoitos saltarem para a estrada e fugirem da escravidão eterna rumo à liberdade.
Os que não queriam arriscar, claro que acabavam nas prateleiras dos supermercados, esmagadinhos e muito apertadinhos dentro de latinhas com rótulos multicoloridos que quase invariavelmente diziam “polpa de tomate”.
Mas ele tinha sido mal fadado.
Um dia um garoto descuidado que brincava com os colegas da escola passara a correr no tomatal pelo meio dos tomateiros e dera-lhe uma porra dum encontrão com a perna que ele ficara logo com uma mossa de lado. Ficou marcado com essa cicatriz para sempre!
Numa outra ocasião fora uma cobra que andava a passear pelo tomatal que se enroscara nele e quase o esmagara. Passou a sofrer de asma!
Já para não falar nos mosquitos devido aos quais apanhara sezões e quase morrera. As marcas lá estavam na sua pele! Mas enfim, apesar dos percalços crescera, avermelhara. Além disso a mulher que o colheu não estava para ter muito trabalho a escolher senão, com tantas marcas, não o teria colhido. A verdade é que o retirou do tomateiro e o atirou para uma das caixas. Assim teve a sua chance.
E aproveitou-a seguindo o exemplo dos outros. Numa curva da estrada saltou da caixa e deixou-se cair e rolar para a berma. Por uma unha negra não foi esborrachado por um automóvel que seguia atrás do tractor!
Mas safou-se e lá se pisgou e fez à vida.
Arranjou um emprego num escritório, alugou um T0 num bairro de subúrbio, fez amigos, frequentou cafés, bares e discotecas, arranjou uma namorada, ou deixou-se ‘arranjar’ por ela, casou pela igreja e teve filhos.
A princípio tudo ia bem, mas... ele tinha sido mal fadado!
A tomata abandonou-o e partiu para parte incerta com um tomate muito mais maduro que ele. E também muito mais cheio de bago.
Assim ficou sozinho com os tomatinhos, ainda pequeninos, ainda verdinhos.
Era pai e mãe ao mesmo tempo, o que não era nada fácil. Eram dois, um casalinho de tomatinhos pequenitos, muito verdinhos, tenrinhos e de pele muito macia.
O tomatito prometia. Era bom estudante, deitava-se e levantava-se cedo, alimentava-se bem, talvez viesse a ser deputado no Parlamento Europeu.
A tomatita é que era um caso um pouco, talvez muito, bicudo. Tinha más notas porque não estudava nada, usava roupas extravagantes, estava magríssima pois não comia em condições, andava sempre em festas e ele tinha-a mesmo apanhado a fumar! Indisciplinada e rebelde, não augurava nada de bom.
Certamente ia acabar comida!
Oeiras, 10 Outubro 2002
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Este instante da vida de um tomate, que me foi contado na primeira pessoa numa noite em que ao balcão dum bar de alterne trocava confidências com o desconhecido do lado, aquecidos que ambos estávamos pelo uísque de 12 anos, marado, foi escrito às 03:04 do dia 10 de Outubro de 2002.
Quando releio a estória e reflicto sobre o assunto, surpreende-me sempre o paralelismo existencial entre a vida de um desgraçado de um tomate e as nossas próprias vidas.
Concluo que afinal todos somos tomates...
TOMATE DESGRAÇADO
Aquele coitado daquele tomate tinha uma vida desgraçada.
Ao nascer tinha sido logo mal fadado.
Fora um pequeno e indefeso tomatinho verdinho, pendurado pelo seu pedúnculozinho no tomateiro, no meio daquele tomatal imenso, carregado de irmãos e primos seus. Eram uma grande família!
De dia ali ficava pendurado, protegendo-se do duro sol abrasador debaixo das folhas, passando o tempo a olhar em volta apreciando a paisagem, conversando com a família (telepaticamente claro, pois como toda a gente sabe os tomates não têm boca e falam uns com os outros por telepatia).
O tempo ia correndo e ele ia aguardando serenamente o dia em que, quando quase todos estivessem mais vermelhinhos, viessem até eles as mulheres de mãos grossas e calejadas com unhas sujas de terra. Uma delas arrancá-lo-ia do pezinho, atirá-lo-ia para uma caixa com os seus irmãos.
Levariam caixas e caixas cheias de tomates para cima de uma galera puxada por um tractor para os levarem para a fábrica do alemão, onde eram submetidos a terríveis humilhações até, por fim, serem enlatados.
Mas aí, em trânsito, é que estava a chance!
Não se podendo soltar sozinhos do tomateiro, aguardavam esse dia em que as boas mulheres os libertavam para, durante o transporte, aproveitando uma distracção do trabalhador, os mais afoitos saltarem para a estrada e fugirem da escravidão eterna rumo à liberdade.
Os que não queriam arriscar, claro que acabavam nas prateleiras dos supermercados, esmagadinhos e muito apertadinhos dentro de latinhas com rótulos multicoloridos que quase invariavelmente diziam “polpa de tomate”.
Mas ele tinha sido mal fadado.
Um dia um garoto descuidado que brincava com os colegas da escola passara a correr no tomatal pelo meio dos tomateiros e dera-lhe uma porra dum encontrão com a perna que ele ficara logo com uma mossa de lado. Ficou marcado com essa cicatriz para sempre!
Numa outra ocasião fora uma cobra que andava a passear pelo tomatal que se enroscara nele e quase o esmagara. Passou a sofrer de asma!
Já para não falar nos mosquitos devido aos quais apanhara sezões e quase morrera. As marcas lá estavam na sua pele! Mas enfim, apesar dos percalços crescera, avermelhara. Além disso a mulher que o colheu não estava para ter muito trabalho a escolher senão, com tantas marcas, não o teria colhido. A verdade é que o retirou do tomateiro e o atirou para uma das caixas. Assim teve a sua chance.
E aproveitou-a seguindo o exemplo dos outros. Numa curva da estrada saltou da caixa e deixou-se cair e rolar para a berma. Por uma unha negra não foi esborrachado por um automóvel que seguia atrás do tractor!
Mas safou-se e lá se pisgou e fez à vida.
Arranjou um emprego num escritório, alugou um T0 num bairro de subúrbio, fez amigos, frequentou cafés, bares e discotecas, arranjou uma namorada, ou deixou-se ‘arranjar’ por ela, casou pela igreja e teve filhos.
A princípio tudo ia bem, mas... ele tinha sido mal fadado!
A tomata abandonou-o e partiu para parte incerta com um tomate muito mais maduro que ele. E também muito mais cheio de bago.
Assim ficou sozinho com os tomatinhos, ainda pequeninos, ainda verdinhos.
Era pai e mãe ao mesmo tempo, o que não era nada fácil. Eram dois, um casalinho de tomatinhos pequenitos, muito verdinhos, tenrinhos e de pele muito macia.
O tomatito prometia. Era bom estudante, deitava-se e levantava-se cedo, alimentava-se bem, talvez viesse a ser deputado no Parlamento Europeu.
A tomatita é que era um caso um pouco, talvez muito, bicudo. Tinha más notas porque não estudava nada, usava roupas extravagantes, estava magríssima pois não comia em condições, andava sempre em festas e ele tinha-a mesmo apanhado a fumar! Indisciplinada e rebelde, não augurava nada de bom.
Certamente ia acabar comida!
Oeiras, 10 Outubro 2002
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sexta-feira, 21 de março de 2008
Hora da Janta
.
Há dias assim, em que as coisas parecem estar a correr iguais a si mesmas como se o devir fosse uma ilusão, mas em que de súbito o dia muda de rumo sem aviso prévio, como uma greve selvagem em época revolucionária.
A qualquer momento o inesperado pode acontecer. Pode surgir, por exemplo, à hora da janta...
HORA DA JANTA
A Lucinda, dita 'a dos marzápios', também há quem a chame 'das chotas', segundo a vizinhança pelo gosto oral que por elas tem e não esconde de ninguém, gabando-se até de ninguém saber "resolver o assunto tão bem como ela, que o faz desde a Primária a troco de rebuçados e pastilhas"... A Lucinda, mulher gordurosa e feia como um carro de bois, com um cabelo a lembrar um vasculho, desgrenhado e emporcalhado, abana a peidola balofa e gelatinosa no banco em que vai sentada, acompanhando os balanços e a trepidação do autocarro. As manchas, nódoas e alguns remendos na roupa puída denunciam a sua origem e condição.
Entre as pernas sardentas, espessas e varicosas, joelhos encostados, irmanados num estranho acto inverosímil de pudor, entala numa atitude quase lasciva dois sacos plásticos do supermercado Mini Preço, a transbordar de legumes. Couves, alfaces, chicórias, cenouras, tomates, nabos e nabiças, enchem o saco impossibilitados de fugir.
Pela janela do seu lado direito vê os chuviscos que caem lá fora. Chuvisca na cidade escura.
O autocarro pára, imobiliza-se na paragem, alguém carregou no botão de parar, coisa que ela já esperava que acontecesse. Costuma ficar à coca a ver se alguém toca poupando assim a si própria a trabalheira de o fazer. Habitualmente tem sorte e resulta. É raro ter que ser ela a carregar no botão. Os outros que se dêem a esse trabalho, porra!
Lucinda agarra pelas orelhas os sacos das compras, levanta-se e dando encontrões aos passageiros que estão de pé, sem se desculpar, praguejando entre dentes dando a entender que a culpa dos safanões e pisadelas é dos outros que não se desviam pois são uns cabrões ordinários, chega à porta e desce para a rua molhada e escorregadia, no pardo anoitecer outonal.
Continua a chuviscar, agora mais intensamente, ou não fosse ela uma azarada do caralho! Pragueja de novo, desta vez contra o São Pedro, que a olha lá do alto, escondido atrás duma nuvem cinzenta quase negra, que exclama:
— Puta dum cabrão! Se chove é porque chove, se está sol é porque faz calor! Porra, vá um gajo perceber as gajas! Santa paciência! Não há pachorra!
Lucinda, procura escapar da chuva e corre agora na direcção do prédio onde mora e que fica ali quase em frente da paragem. Os sacos balanceiam nas suas mãos e batem-lhe nas coxas.
Ocorre-lhe um pensamento:
— Gosto mais quando as pancadas são na parte de dentro das minhas pernas!
Finalmente, após a curta corrida desengonçada, alcança esbaforida e ensopada a velha porta de ferro pintada de verde, do prédio onde mora, edifício de 5 pisos degradado e caduco, com a pintura da fachada de cor já indefinida a cair e com pedaços de argamassa a esboroarem-se para a calçada.
Ao entrar, não repara e pisa um cagalhão de cão, o que quase a faz escorregar e cair. Grita impropérios contra a Alzira, a vizinha do 3.º esquerdo, que é viúva e vive sozinha, e tem um canzarrão preto enorme que passeia todos os dias em frente ao prédio, e que até há quem jure a pés juntos que ela faz porcarias com o cão, a badalhoca! Ainda se o fizesse para ganhar dinheiro, vá que não vá...
Colocando-se de lado, com o ombro empurra a porta, que chia lugubremente a pedir óleo nas dobradiças, entra no átrio húmido e escuro revestido de tristes azulejos estampados dos anos 40, e evita pisar a enorme poça de água da chuva que vem da rua e passa sob a porta aproveitando o piso inclinado. Contorna a poça, roçagando um dos sacos pela parede.
Sobe a escada de degraus de madeira suja e carcomida e desengonçados até ao 1.º andar, habita no direito, onde pára. Coloca os sacos no chão com um suspiro de alívio, tira com alguma dificuldade a chave do bolso do blusão de plástico, deixando cair no chão o lenço ranhoso que veio agarrado às chaves e que apanha e mete de novo no bolso, abre a porta e, pegando novamente nos sacos, entra em casa, empurrando a porta com a biqueira do sapato. O sapato do presente canino, por acaso, que de imediato deixa uma pequena nódoa acastanhada no tapete da entrada.
A casa, como seria de esperar, dizer 'modesta' é pouco...
Os móveis são velhos e carunchosos. Nota-se que é conveniente não lhes tocar. Um aparador, logo após a entrada, tem uma porta segura com uma corda de nylon cuja ponta, engenhosamente, enrodilha num prego, genialmente pregado ao bordo, a fazer de fechadura.
A carpete, fixa ao chão com sinistras tachas de cabeça negra, que devia poupar o soalho, nem a si própria se consegue poupar, a julgar pelos buracos que apresenta espalhados aqui e ali nas zonas de mais frequente passagem e pela cor que já nada tem a ver com a original. A prateleira meio inclinada pregada à parede do lado direito, inundada de molduras com fotografias antigas e descoradas, cheia com pequenas figurinhas de toda a espécie e origem, talvez memórias de feiras e romarias, bibelots de gosto duvidoso, objectos inidentificáveis e proveniência desconhecida, contribuem para dar à dependência um ar de bazar marroquino. Assim como o cheiro a mofo.
A imagem, daquelas que brilham no escuro, duma Na. Sra. de Fátima numa prateleirinha fixa à parede oposta, a esquerda, ao lado dum enorme quadro multicolor com o emblema do Benfica, não deixa margem para dúvidas. Ali respira-se santidade e idolatria!
Lucinda segue em frente e passa pela sala, único caminho para a cozinha, assim como para a casa de banho e para o único quarto da casa. Sala onde está o marido, o Orlindo, um homem espesso e cabeludo com ar de labrego, barba por desfazer, ainda de pijama, que de vez em quando trabalha nas obras - que de vez em quando trabalha... - espojado ao comprido no sofá a beber cerveja duma lata, rodeado de latas vazias e amachucadas, e a ver futebol na RTP1.
Jogam o Benfica e o Porto. Pela cara dele o resultado não lhe está a agradar nada:
— Foda-se, caralho! Não me digam que estes cabrões vão perder o jogo! Ao menos empatem, porra, que estão a jogar em casa!
Ela pára, olha a televisão, olha para ele, que quase não lhe liga, trocam algumas palavras, mas ela nem refere o jogo para a conversa não azedar. Ela sabe o que a casa gasta e ainda não se esqueceu do último olho negro...
O Orlindo é um lampião ferrenho e "quem não é do Benfica não é bom chefe de família" segundo ele. E assim ela limita-se praticamente a dizer-lhe que vai fazer o jantar e dirige-se para a cozinha com os sacos.
Tira os legumes dos sacos, os quais colocou sobre a bancada, e enfia um deles na cabeça, começando a cantarolar "Eu tenho dois amores" de Marco Paulo, ao mesmo tempo que coloca duas pequenas cenouras nas narinas e dois rabanetes nos ouvidos.
Abre uma custosa gaveta que lhe deixa o puxador na mão, o qual volta a enfiar nos parafusos, escolhe uma faca bem afiada, uma das poucas coisas que ainda funcionam bem lá em casa, e começa a preparar os legumes continuando a cantarolar.
O casal de canários que está na gaiola pendurada por sobre o tanque de lavar a roupa na marquise acompanha-a, trilando. A um canário tanto se lhe dá que a cantora seja a Lucinda ou a Edith Piaf, que o mote seja Marco Paulo ou Jacques Brel...
Está a boa da Lucinda a lavar as folhas de couve debaixo da água fria que corre da torneira, quando um urro horrível e lancinante acompanhado dum estrondo surdo, vindo da sala, a faz dar um pulo de susto e atirar pelo ar as folhas de couve.
— AI, MEU DEUS! AI, NOSSA SENHORA! PUTA QUE PARIU!
Limpa rapidamente as mãos ao trapo e corre para a sala, rezando para que o seu Orlindo não se tenha passado à conta do maldito jogo, a merda da bola, e não tenha partido a televisão.
À conta dos passanços com as derrotas das Papoilas Saltitantes, só nos dois meses anteriores tinham substituído três televisores... A sorte é que o primo do Orlindo, o Nelo Tocabaixinho, anda no 'trabalhinho' e desenrasca umas televisões Sony baratuchas, senão não tinham dinheiro que chegasse para aquele 'filme'.
Chega à sala e o que vê enche-a-a de pavor.
Um horror indescritível toma conta dela e quase a faz mijar-se pelas pernas abaixo com o choque.
O Orlindo está completamente nu, como veio ao mundo, com a gorda e branca pança a abanar para cima e para baixo, e os penduricalhos a balouçar, em cima da mesa... a dançar o Kalinka!
— A MESA QUE A MINHA SANTA MÃE QUE DEUS TENHA EM DESCANSO NOS DEU DE PRENDA DE CASAMENTO Ó ORLINDO!! —grita, horrorizada.
— KA LIN... KA KA LIN... KA KA LIN... KA KA YA! — canta e dança Orlindo.
— Quê, o Benfica meteu golo? Ganhou o jogo? — pergunta Lucinda, um pouco a medo e receosa da resposta e da reacção.
— QUAL BENFICA QUAL CARALHO, MULHER! — explode Orlindo sem interromper a pantomima — Interromperam o jogo para uma notícia importante, qualquer coisa do estado, para dizerem QUE O BOIZANAS FOI CORRIDO, QUE JÁ NÃO É PRIMEIRO-MINISTRO E QUE O GOVERNO CAIU !!
— KA LIN... KA KA LIN... KA KA LIN... KA KA YA !!!!
Oeiras, 21 Março 2008
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Há dias assim, em que as coisas parecem estar a correr iguais a si mesmas como se o devir fosse uma ilusão, mas em que de súbito o dia muda de rumo sem aviso prévio, como uma greve selvagem em época revolucionária.
A qualquer momento o inesperado pode acontecer. Pode surgir, por exemplo, à hora da janta...
HORA DA JANTA
A Lucinda, dita 'a dos marzápios', também há quem a chame 'das chotas', segundo a vizinhança pelo gosto oral que por elas tem e não esconde de ninguém, gabando-se até de ninguém saber "resolver o assunto tão bem como ela, que o faz desde a Primária a troco de rebuçados e pastilhas"... A Lucinda, mulher gordurosa e feia como um carro de bois, com um cabelo a lembrar um vasculho, desgrenhado e emporcalhado, abana a peidola balofa e gelatinosa no banco em que vai sentada, acompanhando os balanços e a trepidação do autocarro. As manchas, nódoas e alguns remendos na roupa puída denunciam a sua origem e condição.
Entre as pernas sardentas, espessas e varicosas, joelhos encostados, irmanados num estranho acto inverosímil de pudor, entala numa atitude quase lasciva dois sacos plásticos do supermercado Mini Preço, a transbordar de legumes. Couves, alfaces, chicórias, cenouras, tomates, nabos e nabiças, enchem o saco impossibilitados de fugir.
Pela janela do seu lado direito vê os chuviscos que caem lá fora. Chuvisca na cidade escura.
O autocarro pára, imobiliza-se na paragem, alguém carregou no botão de parar, coisa que ela já esperava que acontecesse. Costuma ficar à coca a ver se alguém toca poupando assim a si própria a trabalheira de o fazer. Habitualmente tem sorte e resulta. É raro ter que ser ela a carregar no botão. Os outros que se dêem a esse trabalho, porra!
Lucinda agarra pelas orelhas os sacos das compras, levanta-se e dando encontrões aos passageiros que estão de pé, sem se desculpar, praguejando entre dentes dando a entender que a culpa dos safanões e pisadelas é dos outros que não se desviam pois são uns cabrões ordinários, chega à porta e desce para a rua molhada e escorregadia, no pardo anoitecer outonal.
Continua a chuviscar, agora mais intensamente, ou não fosse ela uma azarada do caralho! Pragueja de novo, desta vez contra o São Pedro, que a olha lá do alto, escondido atrás duma nuvem cinzenta quase negra, que exclama:
— Puta dum cabrão! Se chove é porque chove, se está sol é porque faz calor! Porra, vá um gajo perceber as gajas! Santa paciência! Não há pachorra!
Lucinda, procura escapar da chuva e corre agora na direcção do prédio onde mora e que fica ali quase em frente da paragem. Os sacos balanceiam nas suas mãos e batem-lhe nas coxas.
Ocorre-lhe um pensamento:
— Gosto mais quando as pancadas são na parte de dentro das minhas pernas!
Finalmente, após a curta corrida desengonçada, alcança esbaforida e ensopada a velha porta de ferro pintada de verde, do prédio onde mora, edifício de 5 pisos degradado e caduco, com a pintura da fachada de cor já indefinida a cair e com pedaços de argamassa a esboroarem-se para a calçada.
Ao entrar, não repara e pisa um cagalhão de cão, o que quase a faz escorregar e cair. Grita impropérios contra a Alzira, a vizinha do 3.º esquerdo, que é viúva e vive sozinha, e tem um canzarrão preto enorme que passeia todos os dias em frente ao prédio, e que até há quem jure a pés juntos que ela faz porcarias com o cão, a badalhoca! Ainda se o fizesse para ganhar dinheiro, vá que não vá...
Colocando-se de lado, com o ombro empurra a porta, que chia lugubremente a pedir óleo nas dobradiças, entra no átrio húmido e escuro revestido de tristes azulejos estampados dos anos 40, e evita pisar a enorme poça de água da chuva que vem da rua e passa sob a porta aproveitando o piso inclinado. Contorna a poça, roçagando um dos sacos pela parede.
Sobe a escada de degraus de madeira suja e carcomida e desengonçados até ao 1.º andar, habita no direito, onde pára. Coloca os sacos no chão com um suspiro de alívio, tira com alguma dificuldade a chave do bolso do blusão de plástico, deixando cair no chão o lenço ranhoso que veio agarrado às chaves e que apanha e mete de novo no bolso, abre a porta e, pegando novamente nos sacos, entra em casa, empurrando a porta com a biqueira do sapato. O sapato do presente canino, por acaso, que de imediato deixa uma pequena nódoa acastanhada no tapete da entrada.
A casa, como seria de esperar, dizer 'modesta' é pouco...
Os móveis são velhos e carunchosos. Nota-se que é conveniente não lhes tocar. Um aparador, logo após a entrada, tem uma porta segura com uma corda de nylon cuja ponta, engenhosamente, enrodilha num prego, genialmente pregado ao bordo, a fazer de fechadura.
A carpete, fixa ao chão com sinistras tachas de cabeça negra, que devia poupar o soalho, nem a si própria se consegue poupar, a julgar pelos buracos que apresenta espalhados aqui e ali nas zonas de mais frequente passagem e pela cor que já nada tem a ver com a original. A prateleira meio inclinada pregada à parede do lado direito, inundada de molduras com fotografias antigas e descoradas, cheia com pequenas figurinhas de toda a espécie e origem, talvez memórias de feiras e romarias, bibelots de gosto duvidoso, objectos inidentificáveis e proveniência desconhecida, contribuem para dar à dependência um ar de bazar marroquino. Assim como o cheiro a mofo.
A imagem, daquelas que brilham no escuro, duma Na. Sra. de Fátima numa prateleirinha fixa à parede oposta, a esquerda, ao lado dum enorme quadro multicolor com o emblema do Benfica, não deixa margem para dúvidas. Ali respira-se santidade e idolatria!
Lucinda segue em frente e passa pela sala, único caminho para a cozinha, assim como para a casa de banho e para o único quarto da casa. Sala onde está o marido, o Orlindo, um homem espesso e cabeludo com ar de labrego, barba por desfazer, ainda de pijama, que de vez em quando trabalha nas obras - que de vez em quando trabalha... - espojado ao comprido no sofá a beber cerveja duma lata, rodeado de latas vazias e amachucadas, e a ver futebol na RTP1.
Jogam o Benfica e o Porto. Pela cara dele o resultado não lhe está a agradar nada:
— Foda-se, caralho! Não me digam que estes cabrões vão perder o jogo! Ao menos empatem, porra, que estão a jogar em casa!
Ela pára, olha a televisão, olha para ele, que quase não lhe liga, trocam algumas palavras, mas ela nem refere o jogo para a conversa não azedar. Ela sabe o que a casa gasta e ainda não se esqueceu do último olho negro...
O Orlindo é um lampião ferrenho e "quem não é do Benfica não é bom chefe de família" segundo ele. E assim ela limita-se praticamente a dizer-lhe que vai fazer o jantar e dirige-se para a cozinha com os sacos.
Tira os legumes dos sacos, os quais colocou sobre a bancada, e enfia um deles na cabeça, começando a cantarolar "Eu tenho dois amores" de Marco Paulo, ao mesmo tempo que coloca duas pequenas cenouras nas narinas e dois rabanetes nos ouvidos.
Abre uma custosa gaveta que lhe deixa o puxador na mão, o qual volta a enfiar nos parafusos, escolhe uma faca bem afiada, uma das poucas coisas que ainda funcionam bem lá em casa, e começa a preparar os legumes continuando a cantarolar.
O casal de canários que está na gaiola pendurada por sobre o tanque de lavar a roupa na marquise acompanha-a, trilando. A um canário tanto se lhe dá que a cantora seja a Lucinda ou a Edith Piaf, que o mote seja Marco Paulo ou Jacques Brel...
Está a boa da Lucinda a lavar as folhas de couve debaixo da água fria que corre da torneira, quando um urro horrível e lancinante acompanhado dum estrondo surdo, vindo da sala, a faz dar um pulo de susto e atirar pelo ar as folhas de couve.
— AI, MEU DEUS! AI, NOSSA SENHORA! PUTA QUE PARIU!
Limpa rapidamente as mãos ao trapo e corre para a sala, rezando para que o seu Orlindo não se tenha passado à conta do maldito jogo, a merda da bola, e não tenha partido a televisão.
À conta dos passanços com as derrotas das Papoilas Saltitantes, só nos dois meses anteriores tinham substituído três televisores... A sorte é que o primo do Orlindo, o Nelo Tocabaixinho, anda no 'trabalhinho' e desenrasca umas televisões Sony baratuchas, senão não tinham dinheiro que chegasse para aquele 'filme'.
Chega à sala e o que vê enche-a-a de pavor.
Um horror indescritível toma conta dela e quase a faz mijar-se pelas pernas abaixo com o choque.
O Orlindo está completamente nu, como veio ao mundo, com a gorda e branca pança a abanar para cima e para baixo, e os penduricalhos a balouçar, em cima da mesa... a dançar o Kalinka!
— A MESA QUE A MINHA SANTA MÃE QUE DEUS TENHA EM DESCANSO NOS DEU DE PRENDA DE CASAMENTO Ó ORLINDO!! —grita, horrorizada.
— KA LIN... KA KA LIN... KA KA LIN... KA KA YA! — canta e dança Orlindo.
— Quê, o Benfica meteu golo? Ganhou o jogo? — pergunta Lucinda, um pouco a medo e receosa da resposta e da reacção.
— QUAL BENFICA QUAL CARALHO, MULHER! — explode Orlindo sem interromper a pantomima — Interromperam o jogo para uma notícia importante, qualquer coisa do estado, para dizerem QUE O BOIZANAS FOI CORRIDO, QUE JÁ NÃO É PRIMEIRO-MINISTRO E QUE O GOVERNO CAIU !!
— KA LIN... KA KA LIN... KA KA LIN... KA KA YA !!!!
Oeiras, 21 Março 2008
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sexta-feira, 14 de março de 2008
soldadinhos de plástico
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Este instante foi escrito em 17 de Outubro de 2003, a partir de uma ideia original de Dezembro de 1995 desenvolvida posteriormente em 30 de Abril de 1996. Ei-lo na sua forma definitiva, após uma revisão e pequenas correcções e aperfeiçoamentos.
O teatro de operações é muito diferente das consolas de jogos.
Além de que na guerra não são só os projécteis que matam...
SOLDADINHOS DE PLÁSTICO
Acocorado atrás de um bidão de lixo tombado, numa esquina de um cruzamento de duas estreitas ruas, ladeadas de casas de adobe semi-destruídas, pejadas de destroços dos últimos combates, sentindo nas mãos o contacto morno da espingarda automática, o soldadinho observava, através da cortina de lágrimas causada pelos fumos, que lhe velavam os olhos, atento como um predador, a rua e as casas à sua frente procurando localizar o ponto donde tinha partido o disparo que tinha vitimado mortalmente o camarada caído um pouco mais atrás, trágica e grotescamente deitado de costas na terra esburacada, os braços abertos em cruz como querendo abraçar uma vida que não voltaria, o olhar para sempre baço fixo no céu cinzento, envolvido num lago de sangue espesso e escuro. Na posição em que ficara fazia lembrar um cristo descido da cruz.
O soldadinho limpou os olhos com as costas da mão suja de pó. O silêncio parecia ter solidificado à sua volta. O silêncio parecia amortalhá-lo naquela rua agora fria, naquela cidade onde falavam uma língua estranha que ele não compreendia, naquele país tão distante e tão diferente das imagens virtuais das consolas computadorizadas, dos simuladores 4D de combate que, no quartel, usavam para os treinos de guerra.
O soldado, emboscado atrás de uma parede, espreitava a rua atento a qualquer movimento, qualquer modificação no padrão de imobilidade fotografado pelos seus olhos duros, registado no seu cérebro.
Tinha vivido muitas guerras. Aquela era apenas mais uma.
Podia ser a última, mas isso acontece com qualquer guerra. Todos os soldados sabem isso. E de certa forma todas as guerras são sempre a última guerra. Pois todas são o começo do fim. Por mais treinado e experiente que se seja. Em qualquer uma, em todas elas, um pedaço de nós fica lá para sempre.
E esse pedaço que sempre nos é arrancado, por ser apenas um pedaço é sobretudo um todo. Atrás dele é todo o nosso espírito, toda a nossa alma que desaparece. Que se desfaz no ar como uma nuvem de fumo. Até que um dia não só nos arrancam o espírito mas levam junto com ele o corpo.
Tinha visto o movimento dos soldadinhos. A progressão deles entrou no seu campo visual manchando ostensivamente o espaço.
Estava pronto há algum tempo. O seu camarada caído no chão ao seu lado era o resultado da entrada dos soldadinhos na rua.
Tinham entrado de rompante a disparar como loucos em todas as direcções e um dos projécteis ricocheteara e atingira o seu companheiro, quando este vigiava a rua empoleirado na janela. Caíra para trás com um baque surdo explodindo-lhe o sangue pela boca.
O soldado, que descansava sentado de costas apoiadas na parede, levantara-se de um salto. Espreitara cautelosamente e vira-os. Apoiou a arma no peitoril da janela. Apontou ao que vinha um pouco mais à frente, tirou a folga ao gatilho, suspendeu a respiração por um instante e disparou.
O projéctil saiu e fendeu o ar silvando. Já ninguém o podia parar. Foram avos de segundo até tocar o soldadinho.
Penetrou-lhe o camuflado, atravessou-lhe a camisola, violou-lhe o peito rasgando-lhe as costelas, trespassando-lhe o coração jovem que nascera longe, que imediatamente parou, e saiu pelas costas perdendo-se algures ao fundo da rua. Ninguém o iria procurar.
Agora aguardava.
Ao seu disparo, o outro soldadinho tinha saltado para trás de um bidão. Vira-o, pelo canto do olho, atirar-se ao mesmo tempo que aquele que atingira caía no chão. Sabia que devia ficar atento. O soldadinho escondido estava com certeza a rezar-lhe pela pele e ele não fazia tenções de a deixar por aquelas bandas. Não se queria expor. Era melhor deixar que os nervos levassem o outro a tomar a iniciativa e a colocar-se em desvantagem.
Assim, mantendo sempre a atenção sobre o local onde o soldadinho estava abrigado, levou a mão ao bolso e tirou o maço de tabaco que a logística tinha distribuído a todos. Tabaco de merda, diga-se de passagem.
Tirou um cigarro. Acendeu-o e deu uma baforada. O fumo de má qualidade fê-lo tossir:
— Porra! Esta merda ainda me mata!
O soldadinho continuava agachado atrás do bidão.
Perscrutava atentamente o espaço à sua frente. Sabia que o tiro tinha saído daquele quarteirão cerca de cinquenta metros mais à frente, do lado esquerdo da rua. O atirador devia ainda estar emboscado no seu covil. Certamente à espera que ele se expusesse. Era o que faria se estivesse no lugar do outro. Talvez, se esperasse, o outro perdesse a paciência e descuidado se mostrasse.
No entretanto, levou a mão ao bolso e tirou um pequeno frasquito metálico, desenroscou-lhe a tampa e deu um gole. Um grande gole daquela aguardente que a logística tinha distribuído a todos eles. Aguardente de merda, diga-se de passagem.
O álcool queimou-lhe a garganta, engasgou-o e tossiu:
— Foda-se! Esta merda ainda me mata!
Oeiras, 17 Outubro 2003
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Este instante foi escrito em 17 de Outubro de 2003, a partir de uma ideia original de Dezembro de 1995 desenvolvida posteriormente em 30 de Abril de 1996. Ei-lo na sua forma definitiva, após uma revisão e pequenas correcções e aperfeiçoamentos.
O teatro de operações é muito diferente das consolas de jogos.
Além de que na guerra não são só os projécteis que matam...
SOLDADINHOS DE PLÁSTICO
Acocorado atrás de um bidão de lixo tombado, numa esquina de um cruzamento de duas estreitas ruas, ladeadas de casas de adobe semi-destruídas, pejadas de destroços dos últimos combates, sentindo nas mãos o contacto morno da espingarda automática, o soldadinho observava, através da cortina de lágrimas causada pelos fumos, que lhe velavam os olhos, atento como um predador, a rua e as casas à sua frente procurando localizar o ponto donde tinha partido o disparo que tinha vitimado mortalmente o camarada caído um pouco mais atrás, trágica e grotescamente deitado de costas na terra esburacada, os braços abertos em cruz como querendo abraçar uma vida que não voltaria, o olhar para sempre baço fixo no céu cinzento, envolvido num lago de sangue espesso e escuro. Na posição em que ficara fazia lembrar um cristo descido da cruz.
O soldadinho limpou os olhos com as costas da mão suja de pó. O silêncio parecia ter solidificado à sua volta. O silêncio parecia amortalhá-lo naquela rua agora fria, naquela cidade onde falavam uma língua estranha que ele não compreendia, naquele país tão distante e tão diferente das imagens virtuais das consolas computadorizadas, dos simuladores 4D de combate que, no quartel, usavam para os treinos de guerra.
O soldado, emboscado atrás de uma parede, espreitava a rua atento a qualquer movimento, qualquer modificação no padrão de imobilidade fotografado pelos seus olhos duros, registado no seu cérebro.
Tinha vivido muitas guerras. Aquela era apenas mais uma.
Podia ser a última, mas isso acontece com qualquer guerra. Todos os soldados sabem isso. E de certa forma todas as guerras são sempre a última guerra. Pois todas são o começo do fim. Por mais treinado e experiente que se seja. Em qualquer uma, em todas elas, um pedaço de nós fica lá para sempre.
E esse pedaço que sempre nos é arrancado, por ser apenas um pedaço é sobretudo um todo. Atrás dele é todo o nosso espírito, toda a nossa alma que desaparece. Que se desfaz no ar como uma nuvem de fumo. Até que um dia não só nos arrancam o espírito mas levam junto com ele o corpo.
Tinha visto o movimento dos soldadinhos. A progressão deles entrou no seu campo visual manchando ostensivamente o espaço.
Estava pronto há algum tempo. O seu camarada caído no chão ao seu lado era o resultado da entrada dos soldadinhos na rua.
Tinham entrado de rompante a disparar como loucos em todas as direcções e um dos projécteis ricocheteara e atingira o seu companheiro, quando este vigiava a rua empoleirado na janela. Caíra para trás com um baque surdo explodindo-lhe o sangue pela boca.
O soldado, que descansava sentado de costas apoiadas na parede, levantara-se de um salto. Espreitara cautelosamente e vira-os. Apoiou a arma no peitoril da janela. Apontou ao que vinha um pouco mais à frente, tirou a folga ao gatilho, suspendeu a respiração por um instante e disparou.
O projéctil saiu e fendeu o ar silvando. Já ninguém o podia parar. Foram avos de segundo até tocar o soldadinho.
Penetrou-lhe o camuflado, atravessou-lhe a camisola, violou-lhe o peito rasgando-lhe as costelas, trespassando-lhe o coração jovem que nascera longe, que imediatamente parou, e saiu pelas costas perdendo-se algures ao fundo da rua. Ninguém o iria procurar.
Agora aguardava.
Ao seu disparo, o outro soldadinho tinha saltado para trás de um bidão. Vira-o, pelo canto do olho, atirar-se ao mesmo tempo que aquele que atingira caía no chão. Sabia que devia ficar atento. O soldadinho escondido estava com certeza a rezar-lhe pela pele e ele não fazia tenções de a deixar por aquelas bandas. Não se queria expor. Era melhor deixar que os nervos levassem o outro a tomar a iniciativa e a colocar-se em desvantagem.
Assim, mantendo sempre a atenção sobre o local onde o soldadinho estava abrigado, levou a mão ao bolso e tirou o maço de tabaco que a logística tinha distribuído a todos. Tabaco de merda, diga-se de passagem.
Tirou um cigarro. Acendeu-o e deu uma baforada. O fumo de má qualidade fê-lo tossir:
— Porra! Esta merda ainda me mata!
O soldadinho continuava agachado atrás do bidão.
Perscrutava atentamente o espaço à sua frente. Sabia que o tiro tinha saído daquele quarteirão cerca de cinquenta metros mais à frente, do lado esquerdo da rua. O atirador devia ainda estar emboscado no seu covil. Certamente à espera que ele se expusesse. Era o que faria se estivesse no lugar do outro. Talvez, se esperasse, o outro perdesse a paciência e descuidado se mostrasse.
No entretanto, levou a mão ao bolso e tirou um pequeno frasquito metálico, desenroscou-lhe a tampa e deu um gole. Um grande gole daquela aguardente que a logística tinha distribuído a todos eles. Aguardente de merda, diga-se de passagem.
O álcool queimou-lhe a garganta, engasgou-o e tossiu:
— Foda-se! Esta merda ainda me mata!
Oeiras, 17 Outubro 2003
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sexta-feira, 7 de março de 2008
a picada
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Este instante foi escrito em 1996. Memória duma possibilidade, para muitos uma realidade, para outros o futuro talvez. Fantasia, ficção ou futurologia?
A PICADA
O fresco da madrugada penetrava-lhe no corpo, profundamente. Através do crepúsculo matinal, e através do óculo de visão nocturna fixo ao capacete negro de plástico endurecido, concentrou o olhar na picada que, com um ar simples e inocente, se desenrolava à sua frente. Sabia que essa inocência podia ser, talvez fosse, uma armadilha e que ali, precisamente ali, podia estar o seu pior inimigo. A traiçoeira mina. Como se os inimigos pudessem ser melhores ou piores! Um inimigo é um inimigo.
E a sua tarefa era destruí-lo. Sem fazer perguntas. Para isso treinara. Dia e noite. Para isso sofrera. Debaixo da chuva mais torrencial, com trovões e relâmpagos a fustigarem sem dó nem piedade o ar à sua volta, ou debaixo do sol mais tórrido e impiedoso, que fazia valer o seu peso em ouro a pouca, e quente, água do indispensável cantil! Rastejando e esfolando o corpo na terra mais dura e ressequida ou metido em lama até à cintura, em lamaçais que fariam feliz o mais exigente dos porcos! Sentira no corpo o que era estar abaixo dos cães. Mas ganhara! As divisas nos ombros e a boina, cuidadosamente guardada no bolso, eram prova disso.
Os primeiros raios de sol rasgavam já o horizonte que se adivinhava para lá das árvores. O céu, antes negro, acinzentava-se. Como se um véu transparente tivesse pousado sobre a floresta. Era a hora. Semi-ergueu-se, mantendo-se curvado para a frente, segurando nas mãos, com firmeza e destreza, a sua arma. Sabia que teria que ser o primeiro a avançar ao longo da picada. Como graduado tinha que dar aos seus homens o exemplo de coragem e destemor que os faria seguirem-no. Como sempre o tinham seguido. Com o olhar firme deu o primeiro passo em frente. Ao pousar o calcanhar no chão sentiu como que um baque no peito e na boca o sabor da inevitabilidade. Teve a brusca noção de que já não podia voltar atrás, acontecesse o que acontecesse. Começou assim a avançar, cuidadosamente, pé ante pé, como se pisasse ovos, tal como tanta vez fizera nos treinos.
Toda a secção o seguiu usando dos mesmos procedimentos. Olhos atentos a qualquer coisa que destoasse do piso irregular de terra, pedras, ramos e folhas. O local, de onde tinham partido, foi ficando para trás, cada vez mais para trás, desaparecendo como uma miragem que se evola no ar, como se nunca tivesse existido. Pé ante pé, passo a passo, lá seguia com o cuidado possível. À medida que o dia clareava, com o sol que finalmente nascera e a temperatura subia, o calor juntava-se ao temor para lhe encharcar o corpo em suor. Mas mantinha o medo perfeitamente controlado. Assim tinha que ser. Sabia que não podia parar. Já não podia parar. Não podia voltar atrás. Mais um passo. CLIC!
O filho da puta do clic traiçoeiro que sempre temera tinha-o apanhado! Não teve tempo para pensar! Foi tudo tão rápido, a partir dali! O estrondo, a explosão tremenda debaixo dele! O braço e a perna que, rasgados como papel, arrancados, voaram para algures, levados pelo sopro mortífero!
A picada estava minada!
Oeiras, 17 Junho 1996
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Este instante foi escrito em 1996. Memória duma possibilidade, para muitos uma realidade, para outros o futuro talvez. Fantasia, ficção ou futurologia?
A PICADA
O fresco da madrugada penetrava-lhe no corpo, profundamente. Através do crepúsculo matinal, e através do óculo de visão nocturna fixo ao capacete negro de plástico endurecido, concentrou o olhar na picada que, com um ar simples e inocente, se desenrolava à sua frente. Sabia que essa inocência podia ser, talvez fosse, uma armadilha e que ali, precisamente ali, podia estar o seu pior inimigo. A traiçoeira mina. Como se os inimigos pudessem ser melhores ou piores! Um inimigo é um inimigo.
E a sua tarefa era destruí-lo. Sem fazer perguntas. Para isso treinara. Dia e noite. Para isso sofrera. Debaixo da chuva mais torrencial, com trovões e relâmpagos a fustigarem sem dó nem piedade o ar à sua volta, ou debaixo do sol mais tórrido e impiedoso, que fazia valer o seu peso em ouro a pouca, e quente, água do indispensável cantil! Rastejando e esfolando o corpo na terra mais dura e ressequida ou metido em lama até à cintura, em lamaçais que fariam feliz o mais exigente dos porcos! Sentira no corpo o que era estar abaixo dos cães. Mas ganhara! As divisas nos ombros e a boina, cuidadosamente guardada no bolso, eram prova disso.
Os primeiros raios de sol rasgavam já o horizonte que se adivinhava para lá das árvores. O céu, antes negro, acinzentava-se. Como se um véu transparente tivesse pousado sobre a floresta. Era a hora. Semi-ergueu-se, mantendo-se curvado para a frente, segurando nas mãos, com firmeza e destreza, a sua arma. Sabia que teria que ser o primeiro a avançar ao longo da picada. Como graduado tinha que dar aos seus homens o exemplo de coragem e destemor que os faria seguirem-no. Como sempre o tinham seguido. Com o olhar firme deu o primeiro passo em frente. Ao pousar o calcanhar no chão sentiu como que um baque no peito e na boca o sabor da inevitabilidade. Teve a brusca noção de que já não podia voltar atrás, acontecesse o que acontecesse. Começou assim a avançar, cuidadosamente, pé ante pé, como se pisasse ovos, tal como tanta vez fizera nos treinos.
Toda a secção o seguiu usando dos mesmos procedimentos. Olhos atentos a qualquer coisa que destoasse do piso irregular de terra, pedras, ramos e folhas. O local, de onde tinham partido, foi ficando para trás, cada vez mais para trás, desaparecendo como uma miragem que se evola no ar, como se nunca tivesse existido. Pé ante pé, passo a passo, lá seguia com o cuidado possível. À medida que o dia clareava, com o sol que finalmente nascera e a temperatura subia, o calor juntava-se ao temor para lhe encharcar o corpo em suor. Mas mantinha o medo perfeitamente controlado. Assim tinha que ser. Sabia que não podia parar. Já não podia parar. Não podia voltar atrás. Mais um passo. CLIC!
O filho da puta do clic traiçoeiro que sempre temera tinha-o apanhado! Não teve tempo para pensar! Foi tudo tão rápido, a partir dali! O estrondo, a explosão tremenda debaixo dele! O braço e a perna que, rasgados como papel, arrancados, voaram para algures, levados pelo sopro mortífero!
A picada estava minada!
Oeiras, 17 Junho 1996
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
o cota
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O COTA
Era velho. Apenas um velho. Carcomido pelo tempo e alquebrado pela semi-vida. Tez escura, tisnada dos muitos sóis, gretada e enrugada por muitas luas. As suas mãos eram talhadas em madeira nodosa e o seu rosto rasgado com um gume afiado. A sua face de papiro era abraçada e emoldurada por farta, doce e comprida neve ondulada. Percebia-se também que tempos idos o seu corpo tinha sido talhado num bloco de granito. Todos os miúdos, todos os moços, todos os jovens, mesmo todos os adultos, a ele se referiam pelo cota.
Já nem ele próprio sabia a idade que tinha. Nem se ainda tinha idade. Sabia que tinha nascido há muito, muito, muito tempo. Quando havia tempo. Pois lembrava-se...
Lembrava-se de andar de calções a jogar ao pião com os parceiros da escola no adro da igreja na aldeia. lá no alto da serra. onde moram os velozes e faiscantes falcões, as matreiras raposas pilha-galinhas e os temíveis lobos carniceiros... do sussurro das asas das andorinhas, pardais, verdelhões, tentilhões, canários, cucos, melros, águias, cegonhas... do restolho dos furões, toupeiras, fuinhas, coelhos, ratazanas, cobras, lagartos, sardões... do mugir das vacas, do berrar dos toiros cobridores, do zurrar dos burros, do coaxar das rãs nos charcos... dos besoiros rebola-cagalhões, do zumbido das varejeiras, dos mosquitos, das melgas, das abelhas, das vespas... de pôr terra molhada com mijo nas picadelas de abelha... do murmurar das faias, das azinheiras, das bétulas, dos chorões, dos carvalhos... até do cheiro a maresia quando ia passar uns dias de férias de Verão na praia longe com sabor a sal...
Lembrava-se de como a água do ribeiro era fresca e transparente como o vidro... do próprio ribeiro que já não é... de ensebar as botas cardadas e dos trambolhões que elas provocavam nas correrias pelas calçadas... dos guelas que vinham nas garrafas de pirolito... do grande abafador campeão de berlinde com o qual enchera o saco com os guelas dos amigos a jogar às três covinhas... era o berlinde, a carica, o pião, o salto ao eixo... de jogar à 'mãe' e como literalmente voava pelo ar a grande velocidade para cair esparramado em cima dos amigos que formavam a equipa oposta que devia aguentar o peso da equipa dele... de como ao trocar de equipas lhe calhava fazer de 'mãe' e como isso enrijava os abdominais à custa da muita porrada que a cabeça do amigo que ficava à frente lhe dava no abdómen... do sabor das nêsperas da árvore onde ia à chinchada... dos joelhos esfolados e a sangrar dos trambolhões durante as correrias, brincadeiras e jogos... do cheiro e da cor da tintura de iodo e do mercúrio-cromo... da crosta que se não caía, arrancava com as unhas encardidas... do cheiro, do sabor, do lodo do canal de rega onde tomavam banho quando chegava o calor... do sabor das favas cruas chinchadas à socapa no faval... do pinhal à beira da estrada e das mãos cheias de resina e dos barquinhos à vela ou a motor feitos com casca de pinheiro. Que bem que andavam no tanque! e os de motor, com um pequeno elástico a propulsionar a pá feita com um pedaço de pau de gelado, que velocidade!
Lembrava-se do despertar e do espreitar os namorados no pinhal... das noites de calores e suores que as memórias das coisas vistas lhe causavam... do assombro que sentia quando via as artistas a preto e branco na tv... de sonhar com elas a noite toda... do aroma a relva acabada de cortar na boca dela naquele dia em que dançaram juntinhos ao som da filarmónica aprumada no coreto... da primeira vez com a velha com idade para ser sua avó que morava no casebre na berma da estrada que levava 5$00 para satisfazer os moços com a boca desdentada... e 15$00 para os que queriam coisa mais funda...
Lembrava-se de lhe chamarem parolo quando ia com o pai à cidade grande visitar as tias. Diziam-lhe que era a capital e tinha tamanho para isso! Lembrava-se do chiar do eléctrico nos carris cravados nos paralelepípedos de granito... do tlim-tlim quando se puxava o cordão para dar sinal de paragem... da imensa altura dos grandes prédios... das igrejas com campanários a ameaçar furar o céu... dos espantosos autocarros verdes de dois andares, verdade!, que trepidavam como se a terra estivesse sempre a sofrer um terremoto... do odor das pessoas, da naftalina, da brilhantina e da graxa nos bigodes negros e afilados.... do aroma dos deliciosos bolos alinhados no balcão da pastelaria...
Lembrava-se de tanta, tanta coisa!
Coisas que já não lhe serviam para nada, agora que era cota.
Oeiras, Fevereiro 2008
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O COTA
Era velho. Apenas um velho. Carcomido pelo tempo e alquebrado pela semi-vida. Tez escura, tisnada dos muitos sóis, gretada e enrugada por muitas luas. As suas mãos eram talhadas em madeira nodosa e o seu rosto rasgado com um gume afiado. A sua face de papiro era abraçada e emoldurada por farta, doce e comprida neve ondulada. Percebia-se também que tempos idos o seu corpo tinha sido talhado num bloco de granito. Todos os miúdos, todos os moços, todos os jovens, mesmo todos os adultos, a ele se referiam pelo cota.
Já nem ele próprio sabia a idade que tinha. Nem se ainda tinha idade. Sabia que tinha nascido há muito, muito, muito tempo. Quando havia tempo. Pois lembrava-se...
Lembrava-se de andar de calções a jogar ao pião com os parceiros da escola no adro da igreja na aldeia. lá no alto da serra. onde moram os velozes e faiscantes falcões, as matreiras raposas pilha-galinhas e os temíveis lobos carniceiros... do sussurro das asas das andorinhas, pardais, verdelhões, tentilhões, canários, cucos, melros, águias, cegonhas... do restolho dos furões, toupeiras, fuinhas, coelhos, ratazanas, cobras, lagartos, sardões... do mugir das vacas, do berrar dos toiros cobridores, do zurrar dos burros, do coaxar das rãs nos charcos... dos besoiros rebola-cagalhões, do zumbido das varejeiras, dos mosquitos, das melgas, das abelhas, das vespas... de pôr terra molhada com mijo nas picadelas de abelha... do murmurar das faias, das azinheiras, das bétulas, dos chorões, dos carvalhos... até do cheiro a maresia quando ia passar uns dias de férias de Verão na praia longe com sabor a sal...
Lembrava-se de como a água do ribeiro era fresca e transparente como o vidro... do próprio ribeiro que já não é... de ensebar as botas cardadas e dos trambolhões que elas provocavam nas correrias pelas calçadas... dos guelas que vinham nas garrafas de pirolito... do grande abafador campeão de berlinde com o qual enchera o saco com os guelas dos amigos a jogar às três covinhas... era o berlinde, a carica, o pião, o salto ao eixo... de jogar à 'mãe' e como literalmente voava pelo ar a grande velocidade para cair esparramado em cima dos amigos que formavam a equipa oposta que devia aguentar o peso da equipa dele... de como ao trocar de equipas lhe calhava fazer de 'mãe' e como isso enrijava os abdominais à custa da muita porrada que a cabeça do amigo que ficava à frente lhe dava no abdómen... do sabor das nêsperas da árvore onde ia à chinchada... dos joelhos esfolados e a sangrar dos trambolhões durante as correrias, brincadeiras e jogos... do cheiro e da cor da tintura de iodo e do mercúrio-cromo... da crosta que se não caía, arrancava com as unhas encardidas... do cheiro, do sabor, do lodo do canal de rega onde tomavam banho quando chegava o calor... do sabor das favas cruas chinchadas à socapa no faval... do pinhal à beira da estrada e das mãos cheias de resina e dos barquinhos à vela ou a motor feitos com casca de pinheiro. Que bem que andavam no tanque! e os de motor, com um pequeno elástico a propulsionar a pá feita com um pedaço de pau de gelado, que velocidade!
Lembrava-se do despertar e do espreitar os namorados no pinhal... das noites de calores e suores que as memórias das coisas vistas lhe causavam... do assombro que sentia quando via as artistas a preto e branco na tv... de sonhar com elas a noite toda... do aroma a relva acabada de cortar na boca dela naquele dia em que dançaram juntinhos ao som da filarmónica aprumada no coreto... da primeira vez com a velha com idade para ser sua avó que morava no casebre na berma da estrada que levava 5$00 para satisfazer os moços com a boca desdentada... e 15$00 para os que queriam coisa mais funda...
Lembrava-se de lhe chamarem parolo quando ia com o pai à cidade grande visitar as tias. Diziam-lhe que era a capital e tinha tamanho para isso! Lembrava-se do chiar do eléctrico nos carris cravados nos paralelepípedos de granito... do tlim-tlim quando se puxava o cordão para dar sinal de paragem... da imensa altura dos grandes prédios... das igrejas com campanários a ameaçar furar o céu... dos espantosos autocarros verdes de dois andares, verdade!, que trepidavam como se a terra estivesse sempre a sofrer um terremoto... do odor das pessoas, da naftalina, da brilhantina e da graxa nos bigodes negros e afilados.... do aroma dos deliciosos bolos alinhados no balcão da pastelaria...
Lembrava-se de tanta, tanta coisa!
Coisas que já não lhe serviam para nada, agora que era cota.
Oeiras, Fevereiro 2008
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