sexta-feira, 18 de julho de 2008

crónica dum inconfessável

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CRÓNICA DUM INCONFESSÁVEL

Quase todos os dias a via fugazmente. Ou na camioneta ou na gare da estação ou no comboio rápido saindo em Alcântara, segundo lhe tinha uma vez parecido. Eram curtos e breves momentos fugidios. Por vezes, quando esperavam a camioneta lá na rua, tinha um pouco mais de tempo para catrapiscar o olho enquanto ela se deslocava pelo passeio em direcção ao abrigo.

Achava-a interessante. Não particularmente bonita. Mas jovem e de rosto agradável. Olhos espelhando inteligência e profundidade de sentimento. Cabelo escuro quase negro cortado médio. Pequena, razoavelmente mais baixa que ele e sempre de calças e casaco escuros. A roupa pouco justa mas elegantemente vestida a deixar adivinhar, quiçá sonhar com, formas interessantes de uma mulher a amadurecer. Um dia viu-a de saia. Viu-a do joelho para baixo. Pernas a dar para magro, de musculatura bem recortada, saliente. Torneadas. Assentes sobre pés calçados com sapatos pretos de salto não muito alto. Pernas a fazerem sonhar com amores ambulatórios contra uma qualquer parede proibida, longe de vistas indiscretas. Gémeos excitantes.

Apanharam o comboio lado a lado.
Costas encostadas ao separador da carruagem, lia um livro e apoiava-se, para se equilibrar, de pernas ligeiramente afastadas e rígidas, salientando os músculos num assomo de energia imperativa e categórica. Excitou-o mais do que habitualmente. Gravou-se-lhe na memória a fogo bruto. A fogo duro. Inundou-o um delírio de fantasias evocativas de ruas molhadas pela chuva fria do outono, luzes baças pingando no alcatrão estalado e velho, néons crepitando, bocas, lábios, línguas a saberem a mel de alfazema, odores a trigo molhado, sexo túrgido contra ventre em brasa.

Poucos dias depois voltou a vê-la. Surpreendeu-o surgindo de súbito apressada quando ele saía do prédio. Dirigia-se como habitualmente no rumo do abrigo das camionetas mas, sem se deter, passou por trás deste. Talvez uma boleia. Ele apanhou a camioneta que chegava, com aquela fugaz imagem no pensamento, pensando se voltaria a vê-la. Estava no quiosque a tomar a habitual bica quando ela surgiu novamente e se dirigiu também para o quiosque. Ia tomar o seu pequeno-almoço. Olhou-a e reparou como era baixa. A testa dela dava talvez pelo queixo dele. Acabou de tomar o café e dirigiu-se para a gare de embarque. Passado pouco tempo ela passou por ele. Apanharam o mesmo rápido.
Seguiam muito perto um do outro. Pelo vidro separador ao qual ele se apoiava via-a no corredor voltada para o mar perdida em contemplação aquosa. Desta vez observou-a um pouco mais, tentando fazê-lo o mais discretamente possível.

Não soube se percebeu que a observava. Pensou que sim. As mulheres não são indiferentes a um observador solitário. Geralmente dão por isso, apesar de procurarem transmitir o contrário. Ou o mais absoluto desinteresse. Hoje não tinha um ar tão 'executivo'. Estava mais desportiva e fresca. Talvez a adivinhar os 30° previstos para Lisboa.
Tinha também as mesmas pernas. bem torneadas a provocarem-lhe os mesmos desejos inconfessáveis...

Oeiras, 12 Outubro 2002
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7 comentários:

Anónimo disse...

Li.
perplexo

José António disse...

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Olá Edu,

Grato pela visita.

Espero que a leitura tenha sido agradável.
Este texto é uma experiência, já com uns anitos, de ensaio de escrita num estilo de crónica corrida.

Abraço

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Menina_marota disse...

Bem... fica-se assim como, sabes... com água na boca... à espera do resto... continua a história?
Bj ;))))

José António disse...

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Olá Menina Marota,

Não, não continua. Não continuou...
É uma daquelas estórias que acabam antes de começar, como tantas outras nas nossas vidas... :)
É mesmo um instante.

bjk

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Anónimo disse...

Todas as histórias deviam começar e acabar...mas aquelas que ficam por meio são as que nos levam a fechar os olhos das mil fantasias, e nos levam à boca o gosto jamais sentido, porém o mais doce.

Susi disse...

Todas as históris deviam começar e acbar...mas aquelas que ficam por meio são as que nos levam a fechar os olhos das mil fantasias, e nos levam à boca o gosto jamais sentido, porém o mais doce.

José António disse...

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Olá Susi,

Essas são as boas histórias... :)
Algumas, talvez mesmo por não acabarem e não lhes conhecermos o fim (desejado), deixam-nos com um saborzinho bastante amargo na boca e um enorme vazio no estômago.

Mas o importante é que todas contribuem para aprendermos com a vida e a sabermos viver.

Grato pela visita.

bjs

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