terça-feira, 21 de julho de 2009

A pastora e o lobo mau

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Uma fábula para adormecer criancinhas e manter os adultos acordados...


A PASTORA E O LOBO MAU

A chuva torrenciava descomunal no lombo do rebanho que estremecia e balia agrupando-se numa mole compacta de lã molhada e perninhas hesitantes e trémulas.
Abrigada sob uma azinheira, encostada ao tronco húmido e túrgido, modestamente vestida, a pastora fumava um chamom enquanto pensava na sua pobre vida.
Deixou o seu pensamento vogar ao sabor do vento no oceano das memórias mais remotas. Assomaram-lhe ao espírito os dias da juventude, de mocinha, em que pastoreava naqueles mesmos montes, e era hábito o lobo mau aparecer para a comer.
E o prazer que ela tinha em ser comida por ele!
Recordou, melhor, sentiu o calor subir-lhe do baixo ventre como naquela primeira vez que se repetiria por muitas outras. Quase todos os dias, que aquele lobo mau tinha uma fome insaciável!
Mas um dia isso acabou. O lobo mau desapareceu e ela nunca mais o viu.
Um dia chegou-lhe aos ouvidos que dois pastores tinham encurralado um lobo mau na serra, que o tinham matado à paulada e esfolado para aproveitarem o pêlo para as golas das samarras.
Nessa noite fria, na solidão do seu pequeno e acanhado quarto e na tepidez áspera do seu catre, o seu coração apertou-se, angustiou-se com a lâmina que nele se cravara com a notícia e ela chorou convulsivamente toda a noite. Até o sol raiar e ser chegada a hora de levar uma vez mais o rebanho ao pasto.

Perdera o seu lobo mau que tanto prazer lhe dera. Que tanto a fizera gozar.
Mas nem tudo se perdera para ela. Ficara-lhe como recordação desses belos tempos o lobinho que dentro do seu ventre crescera, e que ela pusera no mundo, ali em cima escondida atrás duma fraga. Sozinha e sem ajuda, não podia dizer a ninguém. Pessoa alguma a questionara, pois a barriga crescera pouco, visto o lobinho ser muito pequenino, pouco maior que uma romã. A roupa larga disfarçara bem. Não notaram que andara de esperanças. Nem o sinistro padreco da aldeia, manco duma perna, que sabia a vida de toda a gente, com seus olhos de coruja e faro de raposa, desconfiara. E assim parira.
No alto da serra, atrás dum penedo, bem camuflada com urzes, fizera uma toca bem acolhedora e quentinha onde deitara o lobinho em cima da camisola que despira para o efeito, dissera em casa que a tirara com o calor e a perdera, e de noite, todas as noites, saía de casa na aldeia lá em baixo, sem ninguém dar por ela, depois de adormecerem, e subia até à toca para levar leite e alimentar o seu lobinho que, claro, com tanto amor e desvelo cresceu e se fez um belo e possante lobo negro que, por sinal, não parecia tão mau como o pai.
Mas também ele um dia partira para parte incerta.
Uma noite ela subira até à toca para lhe ir levar um belo naco de carne e ele não estava.
A toca estava vazia. Gelada.
Chamara-o num lamento pungente, lancinante, mas ele não respondera ao apelo materno e nunca mais o viu ou soube dele. Perguntar a alguém se o tinha visto estava fora de questão. Nunca poderia revelar o seu segredo. Antes viver eternamente na dor da separação e perda.
O certo é que, acreditava, tinha sinais dele. Sempre que em noites de lua prenha ela ouvia um uivar longínquo como um lamento solitário no alto da serra, sentia um aperto no coração pois reconhecia naquele grito lancinante a voz da sua descendência, da sua cria agora adulta. Era como se ele lhe gritasse de longe "não chores, mãe, eu estou aqui e estou bem!"

O tempo passou no seu constante ramerrão.
A pastora continuou na sua vida de sempre, a pastorear na mesma serra, pelo meio das mesmas fragas e penedos, nos mesmos pastos, andando pelas mesmas veredas.
Um dia, quando na volta conduzia o rebanho a caminho do redil, a meio da encosta cruzou-se no caminho com outra pastora de outra aldeia, sua amiga e conhecida de longa data, que também conduzia um rebanho, e pararam a conversar um pouco as duas, rodeadas pelos animais entretidos a tasquinhar algumas ervas das bermas.
Perguntou à outra como lhe tinha corrido o pastoreio e achou curiosa a resposta "melhor que nunca!" e não deixou de notar a expressão cintilante no olhar da outra quando o disse.
Insistiu com ela para que lhe contasse pormenores, se as ovelhas e as cabras tinham comido bem, se o pasto era abundante, se tinha visto alguém, se ela também se sentia sozinha lá no alto, o que é que fazia para passar o tempo, e por aí afora. Conversa de pastoras.
Tudo o que a outra lhe respondeu correspondia a um dia normalíssimo de pastoreio, por isso achava excessiva a tal resposta "melhor que nunca!".
Tanto insistiu, tanto insistiu com a outra, afinal eram tão íntimas pois tinham partilhado a mesma carteira na escola, e feito a comunhão no mesmo dia e na mesma capela, que ela finalmente cedeu às suas insistências e aos votos e juras de que a sua boca nunca se abriria.
O seu rosto rasgou-se num enorme sorriso e uma quente e funda alegria inundou-lhe o coração quando a ouviu exclamar:

— HOJE, FUI COMIDA PELO LOBO MAU!

Oeiras 21 Julho 2009
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8 comentários:

Henrique disse...

Belo recomeço, sim senhor! Um belo conto torguiano! Ai se as fragas falassem!

wind disse...

Gostei:)

José António disse...

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Caro Henrique,

Ainda bem que agradou.
Se as fragas falassem, pois.
Quem sabe, se as ouvirmos com atenção... :)

Abraço,
José António Baptista

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José António disse...

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Olá Wind,

Fico feliz com a visita e que tenhas gostado.
Assim que puder retribuo a visita.

Abraço,
José António Baptista

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OrCa disse...

Olá, caro José António. Com que então, pastorinhas a perderem-se (ou ganharem-se) lá pelos brejos... Hum-hummm...

Prefiro muito mais este lobo mau que salta as cercas das nossas inibições, do que aquele outro, amigo de um tal Pedro, que nunca mais se «desengoma» e traz o povoado enganado.

Ao menos que alguém goze. E as pastorinhas, que nem sequer terão as ovelhas, como os confrades pastores, para entreterem as horas, que lhes valha um lobo mau que, como é sabido, é sempre bom.

Grande abraço.

José António Baptista disse...

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Caro OrCa,

Então, bem aparecido por estes recantos em que se quer contar contos.

Eu também não tenho dúvidas em preferir - em ser? - um destes lobos maus, que afinal nem são tão beras como isso.

Volta sempre.
Espero trazer mais novidades em breve.

Abraço,
José António Baptista

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Luis Bento disse...

Entrei aqui através do Estudio-raposa...Uma bela surpresa! Revejo-me nos seus escritos. Torga é referência incontornável...relembra-me os tempos de liceu em que me debatia com a sua obra. Agrada-me o seu tipo de humor, fino,leve e inteligente. Obviamente , o seu blog vai ser uma referência no meu espaço!

José António disse...

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Caro Luís Bento,

Em primeiro lugar, grato pela sua visita.
Fico agradado por ter gostado dos meus escritos - uma espécie de tentativa de contar os meus sonhos e ilusões. Um gozo inexcedível e simultaneamente uma constante catarse.

Se, como diz Picasso, e também eu sou artista plástico, quão bem o entendo, "um pintor pinta para se libertar duma carga de sentimentos e visões", o mesmo posso dizer daquilo que escrevo.

Liberto-me do que me vai no espírito e que é uma visão do mundo, nem sempre das melhores e mais belas. Mas é assim que o vejo.

p.s.: No seu perfil notei que tem blogs. Fica prometida uma visita para breve.

Cumprimentos,
José António Baptista

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