quinta-feira, 22 de novembro de 2007

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Um registo um pouco diferente...


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Era uma mula maravilhosa a minha mula a minha Graciete. Grande e possante forte e grossa. Pujante trabalhadora incansável. Quadris de fazer inveja. Tinha-a há seis anos, desde que a comprara para a usar nas lides do campo, e nunca me arrependera da esdrúxula maquia que dera por ela ao cigano Manel de olhar enviesado que ma vendera na feira do gado.
Mas havia qualquer coisa no seu olhar que me perturbava a ponto de não me deixar dormir sossegado à noite. Os modos como ela olhava para mim desde há uns tempos para cá deixavam-me com a cabeça às voltas e os ouvidos a buzinar.

Eram infinitas as horas que eu passava à espera de adormecer, com o pensamento naquele olhar lascivo que me despia de alto a baixo todos os dias pelas 6 h. da madrugada, quando a ia buscar ao estábulo para a atrelar à carroça na qual eu transportava as hortaliças que tinha colhido para as levar ao mercado, ou as alfaias para o campo onde eu passava todo o santo dia a vergar o aço em busca do meu sustento.

Foram muitas as vezes em que eu cansado da puta da labuta que esta vida não chega a netos, de pés fincados nos grossos torrões da terra lavrada, enxada na mão esboroada, com o incómodo mosquedo a voltear e a zunir em torno de mim, parei para descansar um pouco tirando o lenço encardido do bolso das calças para limpar o suor da testa e do pescoço, e olhei na direcção dela, da minha Graciete, descansada sob o chaparro à sombra atrelada ao carro, e a surpreendi a olhar-me obscena com aqueles olhos gigantes como bolas de snooker, daquelas brancas do snooker da tasca do Amadeu, olhos que ameaçavam comer-me. Que gritavam aos quatro ventos, ou oito vento sei lá, que me queriam comer!
Eu estremecia ante aquele olhar e rapidamente desviava os olhos noutra direcção qualquer. Às vezes lá para o alto, para uma ou outra cegonha, ou até mesmo uma águia, que teimavam em recortar o céu. Mas a pua na minha nuca não me enganava e continuava a sentir aquele olhar como uma farpa de aço cravada no meu dorso.

Comecei a acreditar que a mula me desejava. Apenas isso podia explicar o que eu sentia. Ela desejava-me como só uma mula pode desejar um macho.
E cada vez piores eram as minhas noites deitado no catre no meu casebre, na escuridão a pensar na minha mula a pensar naqueles olhos... até que um dia, senti como que uma ordem vinda de dentro que me gritava que eu tinha que pôr termo àquilo!

Eram umas quatro da manhã acordei alagado em suor com o entre-pernas todo molhado e pensamentos confusos na cabeça.
Tremia, sem perceber porquê, porque era Verão e não estava frio. Levantei-me com os joelhos bambos e de imediato o olhar da minha mula surgiu à minha frente. Vi os seus enormes e redondos olhos fixarem-me da parede encardida do meu quarto. Sentia-me envolto numa espécie de nevoeiro húmido e espesso. E soube logo o que tinha que fazer.

Vesti o meu melhor fato aquele a que o povo chama domingueiro sem sequer me lavar. Fato que se resumia a umas calças de fazenda cinzentas meio surradas e com um remendo nas nalgas um casaco castanho que herdei do meu irmão que morreu no Ultramar na Guiné uma camisa branca de popelina que comprei quando fui há uns anos à Feira de Castro e as botas cardadas de todos os dias que ensebei é claro.
Fui ao armário da despensa buscar a caçadeira que o meu pai me tinha deixado de herança enfiei-lhe dois cartuchos fechei-a e sai de casa, dirigindo-me em passos largos e decididos para o estábulo. Tinha que ser!

O dia raiava estava fresco e ainda se via a luz da Lua assomar por trás do montado. Abri a porta do estábulo decidido.
Ela ali estava a dormir descansada, claro. Mas assim que ouviu o ranger da porta olhou-me com ar espantado, aquele olhar de quem não acredita nas horas.
Olhou-me longamente, incrédula, por me ver ali tão cedo. As mulas têm um apurado sentido das horas, dizem.
De súbito reparou na arma que eu transportava na mão e estremeceu. Todo o seu corpo maciço foi possuído pelo demónio da tremura. Creio que adivinhou ou pressentiu o que ia acontecer.

Relinchou docemente duma forma que me revolveu as partes baixas e olhou-me fixamente com aquele seu olhar de todos os dias mas desta vez mais intenso.
Tentei não a olhar durante muito tempo, sobretudo nos olhos. Eu sabia como isso me podia trair. Todo o matador o sabe. Era apontar e pum!
Expedito, levantei a caçadeira e apoiei-a no ombro. Respirei fundo, expirei e retive o ar durante uns instantes, avos de segundo, ao longo dos quais cai no erro parvo de olhar os seus olhos, as suas pupilas negras fixas nas minhas. Erro de principiante.
Os seus olhos fixavam os meus com um amor e uma paixão de tal modo arrebatadora, avassaladora, que senti o ar faltar-me como se tivesse levado com uma marreta no estômago! Lentamente o meu dedo moveu-se para pressionar o gatilho...
Os meus olhos continuavam fixados nos seus que continuavam fixados nos meus...
Os seus olhos...

Estamos casados há doze anos e temos três rebentos, uma bonita mula e dois rijos machos.


Oeiras, Novembro 2007
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2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

Estive quase a desistir...

pensei que ias disparar! :)))

(já sabes como eu sou sensível com a 'bicharada'!) :)))


Gostei muito. "É a tua cara" como diz a 'Caracolinha'! :)

bjs
I.

o scriptum: tens o conto publicado noutro blog?

José António disse...

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"pensei que ias disparar! :))"

AH AH AH...

Não está publicado em nenhum outro lado. É uma estreia 'absoluta'.

bjs

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