sexta-feira, 4 de julho de 2008

o guardador de porcos

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O GUARDADOR DE PORCOS

O guardador de porcos da aldeia serrana de Covaxisto, conhecido nas cercanias pelo Zé Reco, correu desabrido pelas fragas, exalando o seu típico cheiro nauseabundo a chiqueiro, que sabão algum do mundo conseguiria remover, seguido a curta distância por uma nuvem cinzenta de moscas e varejeiras.
Isto nada teria de extraordinário, ele fazia-o com frequência e já ninguém se surpreendia porque o tinham na conta de maluco, não fora o facto de. naquele dia o fazer como Deus o pusera no mundo, completamente nu, com as pendurezas a abanar, e com uma galinha depenada agarrada debaixo do braço, gritando desalmado:

— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !


— O POBRE DE CRISTO ENSANDECEU! — Exclamou o padre Luís, filho duma beata de Braga, acompanhando um rápido sinal-da-cruz e entrelaçando os dedos, como em oração, quando o sobrinho do ti Quim acorreu à sacristia em sua busca a contar-lhe o ocorrido.
Ele e os amigos tinham visto a excêntrica cena pouco antes enquanto andavam no monte a apanhar amoras, e correram todos para a aldeia a contar às famílias que o Zé Reco tinha apanhado sol na moleirinha, e lhe tinha entrado o demo no corpo.
A ele, Jaimito, o tio incumbira-o de ir dar a notícia ao senhor prior que era a pessoa mais avisada da terra, sabia latim e tudo, e saberia o que fazer.

A notícia espalhou-se pelo povoado como fogo em palha seca.
Pouco demorou para que todos os habitantes soubessem da estória e se juntassem em pequenos grupinhos, aqui e ali, a opinar e a dar sentenças.
Que o melhor era apanhá-lo, que se devia dar-lhe mas era um tiro, que o pai dele já era maluco e tinha sido apanhado a fazer porcarias com as galinhas, que era melhor falar com o Sr. prior, não isto é caso para o bispo, que a culpa era da mãe já falecida por causas nunca apuradas mas havia quem garantisse que fora o homem dela que se metia no vinho que lhe dera com uma garrafa na cabeça depois de lhe chegar a roupa ao pêlo com um varapau e depois tinha dito que ela caíra na escada de pedra de acesso ao poço velho, etc., etc.

Um deles, o compadre Gaudêncio, que tinha combatido nas áfricas, e tinha em casa numa caixa de fósforos um dente que, dizia ele, era dum turra que tinha matado à facada num combate feroz no meio do mato, e que estava na tasca do Patrício com os amigos a deixar correr o tempo à volta duma mesa com uns copos de vinhaça da boa, da adega do Américo, também presente, um valente chouriço feito pela Alice, mulher do Gaudêncio, mulher prendada como já há poucas, e uns bons nacos de pão de trigo, cozido no forno a lenha da aldeia, assim que tomou conhecimento do caso, correu a casa a buscar a caçadeira e a munir-se dum cinturão de cartuchos de chumbo grosso, que costumava usar na caça às lebres, perdizes e faisões.
Um doido à solta nas cercanias era uma boa razão para praticar tiro ao alvo e justificar à mulher a pipa de massa, a enorme despesa que fazia constantemente com a caçadeira e os cartuchos.

Outro habitante, a tia Celestina, velhota de 86 anos cristalizados num corpo franzino, seco e raquítico, enrugado e retorcido como uma oliveira milenar, correu a esconder-se ao fundo do galinheiro, com a navalha do seu saudoso Jerónimo, que se fosse vivo depressa resolveria aquela questão, como fizera uma dia ao Coentros quando com este se travou de razões por causa daquela courela que o malandro reclamava como sua e que toda a gente sabia era do Jerónimo, tinha-a recebido do pai que a tomara de herança do avô.
Ai que saudades do seu Jerónimo, que agora estava em paz e descanso numa campa no cemitério da aldeia, depois de sofrer os mil tormentos do calvário da tuberculose e duma gangrena numa perna.
Encolhida no fundo do galinheiro, a tia Celestina apertou com força o cabo negro da grande navalha que mantinha sempre bem afiada e fixou o olhar no portão do quintal, mantendo-se atenta e alerta, pronta para a temível batalha.
Um demónio preto e fedorento de olhos vermelhos raiados de sangue, à solta, com o penduralho sequioso de pecado... Nossa Senhora! Nunca se sabe do que é capaz! E Deus é testemunha de que em tais casos nem as velhas são poupadas por esses mafarricos. Ela saberia defender a sua honra!

Quanto ao Zé Reco, após ter corrido ao longo da meia encosta da colina a nascente da aldeia, sempre nos mesmos propósitos, ou despropósitos, lá se cansou e acabou por parar, desengonçado pela fadiga.
Sentou-se numa grande pedra sobranceira à aldeia, colocou a galinha no chão ao seu lado, inspirou fundo e devagar, e suspirou longamente.
Um longo suspiro.
Olhou plácido os telhados do casario lá em baixo.

Lá estava a casa do João Borrega, enteado do presidente da junta, com a horta nas traseiras cheia de enormes couves, repleta de alfaces, cenoiras, nabos, e muito mais, e ao lado a do Sebastião Bagulho, com as macieiras carregadas de belos pomos a pedirem para serem comidos.
Lá estava um pouco mais ao longe a velha ponte de pedra sobre o ribeiro seco onde já não corria água, alguns doutores da capital que às vezes arribavam à aldeia diziam que a ponte era romana ou lá o que era por causa duma porcaria dumas lajes velhas.
Ao longe os pinheiros, castanheiros, bétulas e acácias balouçavam docemente. Por sobre elas viam-se esvoaçar pardais, verdelhões, andorinhas, e demais passarada.
Na rua principal, principal porque era a única e não havia outra, corria desengonçado o Tarzan, o grande cão serra da estrela do Adérito Florido. Com certeza tinha conseguido soltar-se porque estava sempre amarrado por uma grossa corrente de ferro no quintal do Adérito.

Ante aquela conhecida e amada paisagem, cheia de boas recordações dos seus tempos de moço, sentiu uma funda tristeza, uma pesada nostalgia, invadi-lo. Um punhal aguçado cravou-se no seu coração fazendo-o sangrar.

Levantou-se lentamente, espreguiçando-se ao mesmo tempo, e soltando um sonoro traque.
Baixou-se e agarrou a galinha depenada, que continuava no mesmo lugar, imóvel, ou não estivesse morta, e colocou-a de novo sob o braço.
Impulsionou o corpo e recomeçou a desvairada corrida gritando sempre.

— AQUI D'EL REI ! AQUI D'EL REI !

Numa longa e extenuante espiral desceu o monte até desembocar na aldeia, à entrada.
Parou por breves instantes para retomar o fôlego, cuspiu para o chão a saliva grossa e seca, e reatou a corrida ao longo da rua.
Não correu nem 50 metros. Dois guardas da GNR, entretanto chamada pelo pároco, interceptaram o seu percurso e forçaram a sua paragem, metendo-se à sua frente de braços abertos.
Zé Reco obedeceu à ordem de parar. Gostava muito da Guarda, tinham fardas bem bonitas, e de qualquer forma as espingardas tinham um ar ameaçador.

Os guardas agarraram-no com força pelos braços.
O cabo tirou-lhe a galinha agarrando-a pelo pescoço, olhou-a desconsolado por não a poder comer, e atirou-a sem modos nem cerimónia para a berma. Os cães vadios e os ratos tratariam dela.
O que o acompanhava, o Laurindo, filho da tia Cremilde, olhou o Zé Reco nos olhos, olhou-o fundo nos olhos e, sem querer ver viu. Viu-lhe a alma.

Viu tudo o que o Zé Reco tinha visto lá do alto e também ele sentiu de súbito ganas de se desnudar, agarrar uma galinha, depená-la, pô-la debaixo do sovaco, e começar a correr feito louco a gritar.
Mas tinha o cabo ao seu lado... o sargento e o capitão na esquadra... Deitou fora a ideia.

Com um cobertor que tinham no jipe, obrigaram o Zé Reco a cobrir-se, enquanto este chorava baba e ranho como uma criança, acometido dum inexplicável pranto, gemendo baixinho:

— AI MÃE! AI MÃEZINHA!

Cada um deles agarrou-o por um braço torcendo-os atrás das costas dele e conduziram-o para o jipes sob o olhar dos mirones, que às portas e às janelas silenciosamente assistiam à 'operação militar'.
Empurraram-o para o banco de trás, fecharam a porta, entraram na viatura, e partiram no meio duma nuvem de poeira.

Ouviu-se o Tarzan ganir lá ao longe. No seu ganido parecia que gritava:

— AQUI D'EL REI! AQUI D'EL REI!


Oeiras, 26 JUNHO 2008
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5 comentários:

Paradoxos disse...

estamos sempre a aprender!! bela estória esta, a tua de hoje
um forte abraço amigo António
e bom fim de semana!

Edu

José António disse...

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Caro Edu,

Grato pela visita e pelo elogio.

Fico feliz por teres gostado da estória.

Abraço

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perplexo disse...

Boa história, à maneira de Tchekov, sem reviravoltas finais.
É credível.
Os pormenores são bastante visuais.

Aponto 3 quês:
- «que a culpa era da mãe» - não diz porquê.
- O parágrafo da tasca do Patrício é extremamente longo. Melhoraria com um ou mais pontos finais.
- «Um punhal aguçado cravou-se no seu coração fazendo-o sangrar» - este punhal é metafórico num texto todo realista. Basta pôr «Sentiu como que» antes da frase.
Abraço

Anónimo disse...

Ou então: «sentiu uma funda tristeza, uma pesada nostalgia a invadi-lo, um punhal aguçado a cravar-se no seu coração fazendo-o sangrar.»
perplexo

José António disse...

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Caro Edu,

Agradeço o interesse e as sugestões.

Cada um dos aspectos que refere tem uma razão de ser (assim) e não pode ser de outra maneira... :)

Abraço

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